ARTIGO: A festa dos padroeiros edifica a comunidade

Pe. Matias Soares, do clero da Arquidiocese de Natal, estudando em Roma

(Foto: Portal Canção Nova)

(Foto: Portal Canção Nova)

Uma das mais belas experiências que vivia quando estava à frente das paróquias, das quais fui pároco, era a festa dos padroeiros. Sempre as pensava e ensinava ao povo de Deus que aquelas eram grandes retiros populares. Sim! A festa dos padroeiros é um tempo forte de evangelização, aprofundamento da fé e confraternização da comunidade cristã. Durante o ano, dependendo da extensão e número de comunidades paroquiais, quantos momentos como estes não enobrecem a vida dos fiéis e, culturalmente, a vida dos municípios. A festa dos padroeiros é um acontecimento que eleva e promove humanamente e espiritualmente a vida das pessoas. É um momento profundamente humanizante. As pessoas se encontram, trabalham em equipe, envolvem os vizinhos, enchem seus corações de esperança, em um mundo tão cheio de contradições e feridas. Já escrevi em outro momento que a festa dos padroeiros é um bem eclesial e eclesiástico. Primeiro porque é formada e em favor do povo de Deus; segundo porque é a Igreja, como instituição que a administra e a promove.

Em alguns lugares do Brasil, principalmente em nosso Nordeste, que é onde conheço mais, infelizmente, há uma usurpação e apropriação indevida do poder público, muitas vezes com a conivência das próprias lideranças, desta oportunidade impar de evangelização e manifestação cultural das comunidades. É o melhor lugar de marketing para as figuras oportunistas, pois tem a aceitação das pessoas. Normalmente, alguns membros da classe política tomam estas festas para fazer sua política de pão e circo. Ainda mais, há muitos sinais de que há até casos de favorecimento econômico de alguns deles quando patrocinam estas festividades. As bandas e os grupos que se apresentam, que são pagos com o dinheiro público, mas à custa da credibilidade e nome dos bens eclesiais, que tradicionalmente a Igreja tem o direito-dever de cuidar, zelar e salvaguardar. A Igreja tem respaldo legal para assumir essas suas prerrogativas.

Em algumas cidades existem outras festividades promovidas e financiadas pelo poder público. Contudo, nenhuma delas tem o valor de edificação e, porque não dizer, civilizacional das festas dos padroeiros. O alto índice de violência, drogas, roubos, assassinatos, estruturas precárias, os lugares inapropriados, a desorganização; pois, normalmente, são eventos que visam mais a manipulação e desorientação do povo para os reais problemas que afligem a vida das pessoas, a saber: educação de baixa qualidade, insegurança, falta de saneamento básico, prestação de contas inexistente. O pior é que os próprios políticos sabem que eles precisam desses momentos para esconder a sua mediocridade administrativa e de promoção dos cidadãos. Um político quanto mais faz festa para o povo, mais sinaliza a sua profunda incapacidade de gestão. Não trabalha com prioridades. Sua intenção é alienar as pessoas.

Na festa dos padroeiros há a elevação da autoestima das comunidades. Na maioria dos municípios, quando é bem pensada, organizada e envolvente, ainda continua a ser o momento mais especial da vida e da identidade daquela comunidade. É a festa da paz, da alegria, da comunhão, participação e efetiva configuração do que é verdadeiramente marcante na vida das pessoas que vivem e foram criadas em determinado lugar, com seus costumes cristãos. É bom frisar que estas tradições vão sendo reformadas e adaptadas de acordo com cada momento histórico; tendo em vista que, quando falamos de Tradição, pensemos no que é essencial da vida da comunidade cristã, ou seja, o mistério de Jesus Cristo, que pela cultura é anunciado em todos os tempos e lugares do mundo.

As nossas comunidades cristãs precisam cada vez mais valorizar a festa dos padroeiros das suas comunidades. Elas não podem ser entregues ao poder público. Este deve apoiar, como parceiro, e não ousar a querer dominar o que não lhe pertence. Para isso, é muito importante a autonomia da Igreja na execução e  na administração destes eventos das comunidades e paróquias. Eles devem continuar a ser um momento de edificação e promoção de autênticos valores formadores da fé e da dignidade da caminhada de um povo. Um gestor público que não apoia a cultura e a história dos munícipes, não quer o bem dos cidadãos. Ele não tem o alcance, moral e político, do bem que este acontecimento tem para o bem comum, não só dos cristãos, mas de todos aqueles que compõem a dinâmica do município.

Por fim, pensemos sobre esta questão que, imediatamente, parece anacrônica; todavia, em tempos sombrios como os nossos, valorizar os canais de enobrecimento e elevação das nossas comunidades, é uma necessidade que cada um de nós tem a responsabilidade de pensar e provocar, tendo em vista o bem das pessoas e das suas verdadeiras alegrias. Assim o seja!

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