Notícias, Notícias gerais › 17/05/2017

Artigo: Direita ou Esquerda?

Pe. Matias Soares2 (Cacilda Medeiros) (15)

A polarização ideológica é uma das características da cultural pós-moderna. As pessoas foram massificadas e direcionadas mentalmente para estigmatizar o diferente de modo delimitativo. O outro passou a ser o meu inferno (Sartre). Essa concepção tomou forma social nas revoluções dos anos sessenta e radicalizou-se, na contemporaneidade, com a força interativa dos meios de comunicação social, mais especificamente com as mídias sociais. O sujeito não considera o outro como sujeito, mas como individuo que é despersonalizado na sua diferença e na capacidade de direitos e respeito.

A depreciação da dignidade humana tem a sua marca na utópica intenção de fazer com o Estado seja o guardião das liberdades individuais. O problema metodológico e contraditório é que ele para tê-las precisa negá-las. O Papa João Paulo II na Centesimus Annus afirma que o erro de base do comunismo ateu é antropológico. Pois, ele nega a transcendência do ser humano. Na linha do Concílio Vaticano II, o que é referenciado é a dignidade da pessoa humana, com a sua liberdade e capacidade de conhecimento. A antropologia conciliar é o que existe de mais atual e consistente para um sério reconhecimento de quem é o ser humano. Todos e cada um dos seres humanos, desde a sua concepção até o seu fim natural. A sua antropologia integral nos permite confirmar a dignidade de todas as pessoas em qualquer lugar, com qualquer ideia ou religião, partido político, cultura e tendências subjetivas. Não é em vão que o teólogo Ratzinger considera a Dignitatis Humanae como o mais importante documento conciliar, mas justamente porque a questão principal deste documento é a liberdade religiosa (Introd. Opera Omnia, 7/1, It.). A partir dela, temos que reconhecer o tema da liberdade como uma das grandes reviravoltas do Concílio e uma atualização integral das perspectivas iluministas. A liberdade não renega a autonomia, mas a pressupõe na relação com os outros.

Uma das qualificações políticas que mais violentam a dignidade e o respeito à liberdade das pessoas, nas relações sociais da época hodierna, é o enquadramento das pessoas a uma linha de direita ou de esquerda. Os de direita são os mais uníssonos ao liberalismo econômico, à força do capital, aos ideais de Adam Smith, ligados aos valores petrificados pelo imperialismo americano e assim via. Os de esquerda são os que têm suas motivações nas utopias comunistas, talvez tenham lido algumas páginas do Capital, desejam derrubar as estruturas que oprimem as camadas populares. A luta é contra a burguesia, que por sinal já nem existe, como camada social dominante. Há um agrupamento de caracteres que podem ser acrescentados a estas duas listas de substantivos e adjetivos. Já há quem negue estas duas direções ideológicas, mostrando que historicamente o que faz com que haja movimento da economia seja a mudança de mentalidade das pessoas, a partir da modernidade, com inicio no século XVI, em cada fase da história até os nossos dias.

A Igreja, como realidade que está no mundo, é chamada a discernir todas estas concepções. O seu referencial epistemológico deve ser o Evangelho. O centro da sua construção prática e reflexiva é a palavra de Deus. O Papa Francisco está lembrando a todos esta questão. A opção preferencial pelos pobres tem a sua fonte no Evangelho. Não é questão de ideologia. Não é questão de ser de direita, nem de esquerda. O Bispo Emérito de Roma, Bento XVI, na abertura da V Conferência de Aparecida falou de uma opção cristológica pelos pobres. Há uma narrativa de fundo, que é coerente com a realidade evangélica e a vida da Igreja no magistério dos Pontífices. Recentemente, vendo um documentário sobre a vida do Papa Francisco, como Arcebispo de Buenos Aires, um intelectual que acompanhou o seu trabalho nas periferias da capital, afirmou: “Bergoglio não é de direita, nem de esquerda. Ele é ele”. Nas homilias da casa Santa Marta podemos ter a compreensão de que Francisco tem o Evangelho como ponto de partida para falar e testemunhar o que ensina.

A Igreja precisa sair da mundanidade ideológica, ou colonialismo ideológico, que a sufoca e a divide em facções. A Igreja, e aqui me refiro a todos os seus membros, precisa estar mais preocupada em ser sal e luz do Mundo. A Igreja precisa ser a comunidade dos bem aventurados. Há tantas disputas para ver quem tem mais razão em defender seus partidos, suas vestes, suas posturas, seu modo de ser, esquecendo-se da importância que foi dada, no Concílio Vaticano II, à sinodalidade; ou seja, ao caminhar juntos nas diferenças. Retomemos o capítulo dezessete do evangelho de São João e os capítulos doze e treze da primeira carta aos Coríntios. Ou a Igreja é uma comunidade cristã, ou ela continuará a ser uma Ong, um partido, uma babel. Paulo ainda denunciou o que a comunidade da Galácia estava fazendo ao dividir a comunidade por seguidores de alguns outros e não de Cristo (Conf. Introd. da carta). Somos cristãos porque somos seguidores de Jesus Cristo. Não porque alguém nos qualificou e enquadrou como de direita ou de esquerda.

A uma comunidade cristã o que não pode faltar é amor. Esse foi o mandamento de Jesus aos seus discípulos (Jo 13); devemos viver as beatitudes (Mt 5-7) até (Mt 25). Estas são algumas passagens. As diferenças dentro da comunidade são fonte de crescimento e liberdade das pessoas. O nosso problema é que não somos dóceis à ação do Espírito Santo. O que não podemos negar é o fundamento da nossa fé, com as palavras e com as nossas vidas. Há muitas discussões supérfluas sobre que tipo de roupa se usa, qual o Papa que está certo, o que passou e o atual, quem é mais doutrinal ou não é (…). Existe o problema de saber o que é que de fato nos identifica como cristãos.

Por fim, deixo, nestas poucas linhas, mais uma inquietação que está muito presente nas nossas comunidades. A polarização sempre existiu, mas em alguns momentos e lugares parece que ela domina os corações e as mentes de muitos. A negação do outro e possibilidades de não valorizar, quando ele pensa diferente de mim, está muito forte na Sociedade e na Igreja. O que deixo como pergunta é: pode a Igreja ser sacramento de salvação? Em que sentido ela pode ser sal da terra do Mundo? Assim o seja!

Pe. Matias Soares

Mestrando em Teologia Moral

Gregoriana-Roma

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.