A pobreza política e eclesial

Por Pe. Matias Soares
Do clero da Arquidiocese de Natal, residente em Roma

Uma das maiores inquietações pessoais e eclesiais que tenho é o da falta de unidade e comunhão na vida política e eclesial das comunidades nas quais vivi e das quais sou oriundo. Nestes dias, pensei e escrevi o seguinte pensamento: “Deveríamos já saber do Evangelho (Cf. Mc 3,24): Se nos dividirmos, não subsistiremos! A História da Igreja também confirma que ela sempre se enfraqueceu quando cedeu às ciladas do Diabo e se dividiu, por questões doutrinais ou de poder. Esqueceu-se do Evangelho, que é a base de tudo”. Na obra de ficção, “O Planeta dos Macacos”, até eles pleiteiam essa estratégia de sobrevivência: Unidos, são fortes! Ainda mais, Jesus preparando-se para viver a sua Páscoa, reza ao Pai o seguinte: (…) “para que todos sejam um, Pai” (Cf. Jo 17,21). A questão ecumênica na atualidade, além de ser teológica, tornou-se uma necessidade política, com os outros cristãos, mas até mesmo dentro da própria Igreja.

A Igreja, com o Concílio Vaticano II, fez a leitura dos sinais dos tempos e percebeu que precisava escutar e falar com e ao povo. Pois, ela mesma reconheceu que é formada pelo povo de Deus. As alegrias e os sofrimentos do povo são seus sentimentos. Essa é uma das maiores renovações, que tornaram-se revolucionárias, da Igreja para modernidade. Não foi o tempo que necessitou acompanhar a Igreja, mas foi esta que necessitou tomar a mão da cronologia. A Igreja não pode renegar a História. Ela precisa, e deve sim, qualificá-la com o que é de Jesus Cristo. O sociólogo Bauman faz uma análise muito interessante do fenômeno do desejo de “retrotopia” que está assumindo formas novas no ambiente social, mas também como um fenômeno que toma corpo nos ambientes eclesiásticos e eclesiais, com a busca de voltar ao passado, pelo medo de continuar o presente, esquecendo-se que a História da Salvação tem sempre uma perspectiva linear e progressiva.

O que está acontecendo, é algo a ser pensado com muita atenção. O futuro da Igreja, mesmo tendo pela verdade de fé, o protagonismo do Espírito Santo, em sua trajetória, não dispensa a participação da ação humana no seu desenvolvimento. Por isso, temos que nos questionar: O que está levando a Igreja à uma cisão interna, promovida por “alguns” grupos e indivíduos, às vezes, até mesmo sacerdotes, que tornam-se fantoches de gurus perversos e servidores de interesses escusos, que estão a travar uma cruzada contra as instituições eclesiais, dentre elas, mais especificamente, a CNBB? E ações, que há tantos anos são reconhecidas como valorosas para o povo brasileiro, como a Campanha da Fraternidade?

A Igreja do Brasil durante este ano estará celebrando o Ano do Laicato. Esse fato é de uma importância formidável para o seu presente e futuro, mas também para toda a sociedade brasileira. O que está colocado em ênfase é que os cristãos católicos assumam responsavelmente o seu protagonismo e sã autonomia, como assim ensina o Concílio Vaticano II, tratando sobre a missão dos fiéis: “Quanto aos leigos, devem eles assumir como encargo próprio seu essa edificação da ordem temporal e agir nela de modo direto e definido, guiados pela luz do Evangelho e a mente da Igreja e movidos pela caridade cristã; enquanto cidadãos, cooperar com os demais com a sua competência específica e a própria responsabilidade; buscando sempre e em todas as coisas a justiça do reino de Deus. A ordem temporal deve ser construída de tal modo que, respeitadas integralmente as suas leis próprias, se torne, para além disso, conforme aos princípios da vida cristã, de modo adaptado às diferentes condições de lugares, tempos e povos. Entre as atividades deste apostolado sobressai a “ação social dos cristãos”, a qual o sagrado Concílio deseja que hoje se estenda a todos os domínios temporais, sem excetuar o da cultura” (Apostolicam Actuositatem, 7).

Há uma solicitação que nos deixa perplexos, que a própria Campanha da Fraternidade não seja celebrada na Quaresma. Desde os anos 60 que a Igreja no Brasil vive este evento como uma forma comum de testemunhar que a nossa busca pela conversão tem consequências, não só na nossa vida pessoal, mas na vida de toda a sociedade. Há uma amnesia, ou ignorância, tremenda de que desde a Igreja Primitiva, os cristãos foram conscientizados de que, pelo seu testemunho, deveriam ser a “alma do mundo” (Carta à Dionieto, sec. II). Eis um trecho do que ensina esta carta paradigmática dirigida aos cristãos: “Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas. Amam todos e por todos são perseguidos. Não são reconhecidos, mas são condenados à morte; são condenados à morte e ganham a vida. São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam. São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados. Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras. Fazendo o bem, são punidos como maus; fustigados, alegram-se, como se recebessem a vida. São hostilizados pelos Judeus como estrangeiros; são perseguidos pelos Gregos, e os que os odeiam não sabem dizer a causa do ódio. Numa palavra, o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo”.
O que é escandaloso, além do que conhecemos da História da Igreja, passada e, de modo cíclico, agora na pós-modernidade, é que há uma polarização que fere e faz muito mal aos fiéis e ao nosso País. Sim! Ouso a dizer que a divisão da Igreja é ruim para todo o povo brasileiro. Desde o Brasil colônia (Cf. Casa Grande e Senzala) a religião católica sempre foi um elemento de unidade da nação. Essa divisão interna tem consequências para vida política e social dos cidadãos, que na sua maioria ainda é católica.

Lembro-me com satisfação que quando fomos recebidos pelo Papa Francisco, ele pediu a nós, sacerdotes brasileiros que estudamos em Roma, e naquele momento senti que ele falava a todos os presbíteros do Brasil, o seguinte: “sejam um sinal de esperança para o povo brasileiro!” Esse apelo do Pontífice só poderá acontecer se a Igreja no Brasil caminhar em comunhão, ou de modo sinodal. Bispos, Padres, Religiosos(as), fiéis Leigos, enfim todo o povo santo de Deus, testemunhando a nossa fé nas diferenças, mas com esse profundo sentimento e espiritualidade eclesiais.

Um fiel que ataca a Igreja publicamente e de modo tão raivoso, não a ama, nem está agindo com reta intenção. Não podemos ser ingênuos, nem estúpidos. Pior ainda, demonstrar alegria e satisfação quando isso acontece. Um bom filho, nunca ataca a sua Mãe! Mas, cuida das suas feridas, como ela sempre cuidou das nossas, sendo canal da misericórdia, do amor e da graça de Deus em nossas vidas. Uma das maiores preocupações dos santos foi que os cristãos procurassem ter sempre o sentimento de pertença a essa Mãe. Não podemos esquecer isso. Se não formos capazes de dar este testemunho, o mundo não acreditará na mensagem de Jesus Cristo, que fomos enviados a anunciar e testemunhar. Aliás, pela nossa incoerência cristã e eclesial, a Igreja já perdeu muito da sua credibilidade. Nós não estamos querendo “ouvir a voz do povo”. Há um narcisismo doentio e uma espiritualidade mundana dentro da Igreja instituída. Muitos estão preocupados com o secundário, e esquecendo-se de contemplar o essencial. O que é visto é muita vaidade, carreirismos, busca por poder, dinheiro, vestes brilhantes e mentalidade de príncipes e de senhores feudais.

O Concílio, sobre a relação entre os ministros ordenados, ensina o seguinte: “O apostolado dos leigos, quer ele seja exercido pelos fiéis individualmente quer em associação, deve-se integrar ordenadamente no apostolado de toda a Igreja. Mais ainda, a união com aqueles que o Espírito Santo pôs à frente da Igreja de Deus (Cf. At. 20, 28) constitui elemento essencial do apostolado cristão. E não é menos necessária a cooperação entre as diversas iniciativas apostólicas, que devem ser convenientemente dirigidas pela Hierarquia. Com efeito, para promover o espírito de união, que fará brilhar em todo o apostolado da Igreja a caridade fraterna e levará à consecução dos fins comuns evitando as emulações tão perniciosas, requere-se a estima recíproca de todas as formas de apostolado na Igreja, e a sua apta coordenação no respeito pela índole própria de cada uma. Isto é da máxima conveniência, quando uma determinada ação na Igreja requer a harmonia e cooperação apostólica de ambos os cleros, dos religiosos e dos leigos” (Apostolicam Actuositatem, 23). Vejamos que o ensinamento básico é de cooperação e respeito na missão que cada um exerce e vive na comunidade eclesial.

A miséria da política brasileira, não pode direcionar os rumos e as ações da Igreja no Brasil. A polarização ideológica, que é simbolicamente sinalizada nas expressões: direita.esquerda; conservadora.progressista; comunista.capitalista e assim por diante, é uma lástima e demonstra a mentalidade teológica de quem formou e quem está formando muitos católicos brasileiros, dentre estes muitos sacerdotes. A questão é assumir a Alegria do Evangelho. O Papa Francisco é quem consegue escutar a voz do povo, porque sempre foi um “pastor do povo de Deus”, mas tem muita dificuldade para viabilizar as reformas necessárias que a Igreja tanto necessita, nos tempos de hoje. Ele não é só um católico; ele é um Cristão.

O Papa Francisco colocou no centro da sua ação pastoral, como Sucessor de Pedro, a misericórdia. Só esta pode vencer a miséria. Espero não ser mal interpretado em dizer que, em muitos lugares eclesiásticos e corações de católicos que não são cristãos, há mais miséria do que misericórdia. Sem essa, nós cristãos, não conseguiremos ser Sal da Terra e Luz do Mundo (Cf. Mt 5,13), a Igreja não conseguirá ser sacramento de Jesus Cristo. Sem fé e conversão, será só mais uma instituição.

Por fim, no ano em que somos chamados a celebrar o Ano do Laicato, rezemos e pensemos sobre que tipo de cristãos católicos somos! Alegramos-nos com as alegrias da Igreja? Com seus sofrimentos? Temos preocupação de anunciar e testemunhar o Evangelho, ou viver preocupados em fazer da Igreja um meio para alimentar as nossas vaidades e devaneios subjetivistas? Uma autoanálise precisamos fazer! Assim o seja!

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