Administração eclesial participativa

Pe. Matias SoaresPe. Matias Soares2 (Cacilda Medeiros) (15)
Do clero da Arquidiocese de Natal, residente em Roma (mestrando em Teologia Moral)

Administrar é uma arte que exige o trabalho em equipe. A Igreja tem fonte e base histórica para ser autoridade no assunto. O próprio Jesus é quem mais exerceu esta dinâmica. Chamou e formou uma equipe para estar com Ele (Cf. Mc 1,16-20; 3, 13-19). Os ensinava, os corrigia, os ouvia e depois de tudo os enviou para anunciar em todo o mundo o Reino de Deus (Cf. Mc 16,15-18). Podemos crer que é o projeto mais bem executado de todos os tempos. Já no Antigo Testamento, Moisés, acolhendo a orientação de Jetro, seu sogro, instituiu Juízes para ajudá-lo na organização do povo (Cf. Ex 18, 13-24). Ambos distribuíram responsabilidades para poderem realizar eficazmente a sua missão. Jesus supera, sem dúvida, a Moisés pela sua própria pessoa, pois Ele é o Filho de Deus e Palavra Eterna do Pai (Cf. Jo 1, 17); mas também, pela perspectiva histórica, já que universaliza a questão teológica e escatológica, tendo por meta a salvação de todos os povos.

A intenção desta reflexão não nega a fronteira dogmática, mas foge estrategicamente da mesma. O que quero enfatizar é que a Igreja sempre usou com sabedoria e bom êxito o esquema de equipes na resolução dos seus maiores desafios doutrinais e de governança. Não precisamos ir muito longe: pensemos no valor e êxito dos grandes Concílios Ecumênicos, desde Nicéia (325) até o Vaticano II (1962-1965). Este último, ainda mais; pois, com a valorização do protagonismo dos fiéis Leigos que, tanto quanto os Ministros Ordenados, fazem parte do Povo de Deus, foram abertas as possibilidades para que na organização eclesial existisse a atuação indispensável de todos os membros da Igreja. O Papa Francisco está ensinando e colocando em prática as orientações do Concílio. A metodologia sinodal, ou seja, o caminhar juntos, é o novo rosto que o Sumo Pontífice deseja fazer com que aconteça a ação pastoral e administrativa da Igreja nestes novos tempos. Ele denuncia o clericalismo existente nas realidades institucionais da Igreja. Os Leigos não são ouvidos e valorizados na administração eclesial como devem ser, na maioria das comunidades paroquiais e diocesanas. A compreensão eclesial do Batismo, da Eucaristia e do Senso dos Fiéis ainda não é um valor reconhecido pelas muitas estruturas piramidais ainda existentes na Igreja. O Pontífice assevera: “há muita gente com cabeça de príncipe”. E aqui no sentido de senhor da coorte mesmo. Não são servos dos servos, mas monarcas e soberanos. Essa mentalidade, além de ter um reflexo negativo na ação missionária pastoral da Igreja; também tem um desdobramento negativo na gestão eclesial. Os Conselhos existentes nas Dioceses e Paróquias são representações autênticas e necessárias que devem favorecer o bom ou ótimo desempenho da missão e da organização de todas as ações eclesiais. Todos, através dos Conselhos, têm o direito/dever de fazer parte da estruturação da comunidade eclesial. Temos que gerar processos de participação. Não é questão política, e sim uma questão eclesiológica. O sistema de organização da Igreja não é democrático; mas deve ser eclesial, ou seja, precisa envolver a assembleia convocada. 

Existe um problema que na experiência pastoral podemos constatar: como ainda não houve a recepção do Concílio como deveria ter acontecido, um intenso trabalho de esclarecimento ainda precisa ser feito, já que em muitos ambientes não há maturidade evangélica e eclesial para que possa haver um avanço maior, por parte dos próprios Ministros Ordenados e muitos fiéis Leigos. A compreensão absorveu o viés político das realidades seculares e está fazendo com que haja polarização dentro das comunidades eclesiais, sem a lúcida percepção de que formamos uma única, católica e apostólica Igreja e fazemos parte do mesmo Povo de Deus. Devemos assumir a responsabilidade de formar os Fiéis e os próprios Ministros Ordenados para que uma nova mentalidade e novas práticas possam ser assumidas. Não podemos generalizar; pois em várias realidades eclesiais já há avanços significativos. Todavia, ainda podemos e devemos progredir muito mais. O discernimento evangélico é palavra e postura interior que nos interpela nestes tempos pós-modernos. Não podemos mais administrar sem considerar o valor e a importância de todos. Quem tem essa ideia fixa de centralizar as ações administrativas já está na contramão da história; e muito especialmente, neste momento que nos interpela a novos modos de ser Igreja e estar no Mundo, testemunhando o Evangelho para que a nossa credibilidade institucional não seja ultrajada, como em muitos lugares já está acontecendo.

Vários fatores humanos, espirituais, psicológicos e intelectuais precisam ser considerados. Não podemos ser ingênuos.  O que cobramos da classe política que está aí, envergonhando e degradando a vida do povo, não pode ser valorizado por cada um que é membro da Igreja. Politicagem, favoritismos, atos imorais, injustiças e conivências com os desmandos feitos não podem ser tolerados. A misericórdia não pode ser usada para que alguns corroborem a prática da vilania. O acolhimento e a atenção para com a pessoa devem existir; mas não com o erro cometido, que gera sofrimento e exploração da maioria dos demais membros das comunidades. Misericórdia irresponsável para com alguns, e injustiça com a maioria é incoerente. As instituições e as comunidades eclesiais precisam levar a sério esta questão. Administrar bem é um serviço necessário e imprescindível para o desenvolvimento dos agrupamentos humanos. É arte de bem organizar com a participação de todos, ou da maioria, tendo por finalidade o bem comum. 

Por fim, continuemos a meditar e aprofundar esta urgência política e eclesial. Estamos vivendo tempos sombrios, parafraseando Hannah Arendt. Não podemos ficar esperando por figuras apocalípticas e oportunistas que aparecem como salvadores messiânicos. Vejam o que está acontecendo nos Estados Unidos e o que, possivelmente, acontecerá no nosso Brasil. O poder é algo sério. Se não for administrado para o bem, pode se tornar destrutível ou degradar a caminhada de uma instituição e da Sociedade. Vamos nos organizar. É questão de dignidade. Assim o seja!

 

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