Artigo: A qualidade pastoral da Igreja

Pe. Matias Soares2 (Cacilda Medeiros) (15)A Igreja vive um momento de mudanças. Numa época de metamorfoses culturais, chamada pelas ciências sociais de Posmodernidade, com suas intensas reconfigurações estruturais; a Igreja não pode ficar alheia aos sinais dos tempos. O subjetivismo confirma-se cada vez mais, com formas alienadas da realidade. O sujeito está cada vez mais distante do real. Há uma radicalização da ideia iluminista de autonomia, mesmo que contraditoriamente, sem a lúcida confirmação da liberdade. Talvez, seja um questionamento a ser levantado por quem pensa a realidade social na atualidade: a extrapolação da autonomia dignificou a liberdade?

Há a urgência de ser reconfigurado um modo novo de pensar as ações das instituições. A humanidade que queria tanto ser adulta e não depender de nenhum poder instituído exteriormente, talvez esteja infantilizada, pois não está conseguindo fazer com que os seus atos confirmem o que ela desejava tanto ser. As instituições, em contrapartida, precisam reavaliar suas práticas e métodos de execução das suas finalidades. Precisam ter clareza do porque elas existem e qual a sua razão social. Reassumindo as preocupações conciliares sobre a identidade da Igreja nos tempos modernos, o Papa Paulo VI definiu enfaticamente, e em plena sintonia com o que o próprio Senhor pensou (Cf. Mc 16,15), quando disse que razão de ser da Igreja é Evangelizar; pois, é isto que “constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para Evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na santa missa, que é o memorial da sua morte e gloriosa ressurreição”. (Cf. EN 14).

A Igreja, nas atuais circunstâncias, consciente de que precisa estar em estado continuado de reforma, sem negar o que é-lhe essencial e que foi-lhe repassado mediante a sua Tradição Viva, e que tem como fundamento a certeza de Cristo ressuscitou (Cf. 1 Cor 15,3-8), precisa estar atenta ao que ela deve ser, à luz do mistério de Jesus Cristo, que é o Único sol, e ela é a Lua que reluz o que é próprio do Grande astro, centro do cosmo e da história. Ela precisa ser fiel ao mandato missionário do Mestre, que revela como deve ser a sua trajetória, na relação com as pessoas, no anúncio do seu Evangelho. O modo de Evangelizar e testemunhar a sua missão, a Igreja encontra na Boa Notícia de Jesus que mostra a forma de qualificação da ação pastoral da Igreja.

O Papa Francisco, na Amoris Laetitia (Cf. 307) fala sobre a lógica da misericórdia pastoral. Já no inicio do seu pontificado, numa das suas primeiras saudações ao povo de Deus, como sucessor de Pedro, ao citar uma obra do teólogo alemão, Walter Kasper, sobre a misericórdia como chave de leitura do Evangelho, deixou direcionado qual seria o norte a ser dado por ele ao seu pontificado. Essa tendência será confirmada com a convocação do Ano Extraordinário da Misericórdia, que tanto bem fez aos fiéis, em todos os lugares da catolicidade e, porque não dizer, do mundo. Essa impostação é o que poderá dar essa qualidade pastoral à Igreja, para que ela seja essa mãe acolhedora, hospital de campanha, que está pelas estradas indo ao encontro de quem vive nas periferias geográficas e existências. São tantos que estão distante e necessitando desta presença terna e acolhedora da Igreja. O Pontífice, em alguns momentos, já fez questão de mostrar que essa ação não pode ser determinada pelos planos sofisticados. Ele deixa o protagonismo desta missão para o Espírito Santo. A Igreja, que somos todos nós, é cooperadora da ação do Paráclito. Os projetos humanos são subsídios, mas não podem prender a dinâmica livre e integrante do Espírito de Deus. O Pontífice afirma, ainda, que “a arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. É verdade que, às vezes, ‘agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fatigosa’” (Cf. AL 312).

Concluo lembrando o que é peculiar a essa qualificação da ação pastoral da Igreja na contemporaneidade, a saber: a sua conversão missionária/pastoral (Cf. EG 25). Universalizando a proposta da V Conferencia de Aparecida (Cf. 551), o Santo Padre nos diz o que é que a Igreja necessita, urgentemente, fazer para que eficazmente a sua genuína Tradição seja realmente e fielmente respeitada. Será que estamos com os corações abertos para essa conversão e qualificação eclesial? Assim o seja!

Pe. Matias Soares

Arquidiocese de Natal-RN

Residente em Roma

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.