ARTIGO: Construção sólida

Pe. Matias Soares2 (Cacilda Medeiros) (15)Por Pe. Matias Soares
(texto publicado na Revista Paróquias – edição de julho/agosto 2017)

A Igreja não é uma empresa. Ela é povo de Deus. O Concílio do Vaticano II, com os seus dois principais documentos, a Gaudium et Spes e a Lumen Gentium, bem a definiram com sua identidade e missão. A sua identidade cristológica e escatológica não a dispensa das responsabilidades temporais. Ao contrário, ela deve dar “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). Os que a compõem devem ser bons cidadãos. Todo bom cristão é um bom cidadão, principalmente quando é chamado a agir com sentimento de justiça diante dos poderes que oprimem e matam, pela corrupção, e leis imorais, que não reconhecem a dignidade dos mais pobres e indefesos.

A organização administrativa de uma Igreja particular, ou, mais propriamente, de uma arqui(diocese) é muito importante. O Papa Francisco, com insistência, nos recorda que a Igreja não é uma ONG. Estamos em comunhão com o ensinamento do pontífice e devemos estar cientes que isto é porque a Igreja é, antes de tudo, uma comunidade de fé. Ela é a comunidade dos discípulos missionários de Jesus Cristo. O que não podemos fazer é priorizar o secundário em detrimento do essencial, ou seja, esquecer que a Igreja existe para evangelizar, pois esta é a sua natureza e sua mais profunda identidade (EN, 14), e fazermos dela uma estrutura simplesmente burocrática e acumuladora de bens.

Contudo, a administração dos bens eclesiásticos é importante porque estes compõem meios culturais e materiais na promoção da sua ação pastoral missionária. A razão de existência destes é o suporte no anúncio do evangelho nas várias situações temporais e espaciais nas quais a Igreja estiver presente e as necessidades o exigirem. Jamais podem ser fim em si mesmo, nem muito menos para promoção de enriquecimento de nenhum dos seus membros. Seria escandaloso e não consonante com a vida e a identidade da Igreja. Os seus membros precisam estar muito conscientes de tudo. Os próprios documentos que regulamentam a gestão dos bens eclesiásticos e o Código de Direito Canônico já asseveram sobre tais ordenamentos.

Igreja organizada

O Papa Francisco, no seu discurso à Cúria Romana (22/12/16), falou sobre os encaminhamentos para a reforma da Cúria. Deixou claro que estão acontecendo e que continuarão. Lembrou que esses serão consequência da conversão pessoal. Aqui, não é meu objetivo apresentá-los, mesmo notificando que os vejo como princípios que podem e devem ser aplicados em vários outros ambientes curiais das Igrejas Particulares da catolicidade, já que assim como a Cúria Vaticana existe para auxiliar os atos de governo do Sumo Pontífice, as Cúrias diocesanas existem para viabilizar os atos de governo e a ação pastoral do Pastor Próprio da Diocese, que é o seu Bispo diocesano. Com a menção a este fato quero dizer que mesmo não

sendo uma empresa, a Igreja precisa organizar-se para que as suas ações aconteçam de modo cada vez mais orgânico e ordenado.

Assim como a Igreja Latino Americana, com a V Conferência de Aparecida e toda a Igreja Católica, com a Evangelii Gaudium, foram evocadas à conversão missionária, precisa haver, seguindo as preocupações reformadoras que estão vigentes no seio da Igreja, uma conversão administrativa e no seu modo de gerenciar nas e das Igrejas Particulares. Basta de uma gestão de manutenção, que vive do que os outros construíram, sem uma preocupação com os investimentos e empreendimentos, ainda mais nas Dioceses em que existe uma pastoral do dízimo forte e bem arraigada. Assim como temos um Plano Pastoral Arquidiocesano, precisamos ter urgentemente um Plano de Gestão Arquidiocesano. Percebamos que estas são duas vias, que se completam, na estratégia organizativa da Igreja. Sempre tive muito presente, quando penso sobre essa questão a etimologia da palavra administração, que quer dizer: ad → para → ministrare → servir: o Bispo diocesano, no seu múnus de governar, deve ser também um bom administrador dos bens, que não pertencem a ele, mas ao povo de Deus, que é favorecido pelo anúncio da Boa-Nova que é proclamada de modo continuado, permanente e certo.

Quando conversamos com presbíteros de Igrejas particulares de todo o Brasil, percebe-se que este é um desafio a ser enfrentado por muitas Dioceses. O nosso país passa por essa crise moral na gestão pública e nós não podemos cair, no decorrer do tempo, nesta mesma armadilha. A força da Igreja ainda é a sua credibilidade. A organização administrativa é uma questão moral e tem um forte influxo na ação evangelizadora e no papel social que a Igreja, como aquela que deve ser luz, em meio às trevas do caos e da desordem social. Certo que será mais um empenho que precisamos acolher, mas não podemos mais governar com amadorismos, sem planejamento, sem equipes interdisciplinares, sem racionalidade, sem valorização da excelência e da visão de longo prazo, com apadrinhamentos e sem determinação. Neste processo, os conselhos para assuntos econômicos diocesanos e paroquiais são fundamentais. Aliás, são obrigatórios.

Para compor um projeto deste, é necessário refletir e agir:

1º. Pensar uma equipe interdisciplinar, com jurista, economista, administrador, engenheiro/arquiteto, contador, universitários, teólogos, sob a presidência do Bispo diocesano;

2º. Ninguém administra, nem governa, na atualidade, centralizando as ações, mas delegando-as. Ninguém é poder, mas tem poder, para o serviço;

3º. Poder que serve para o bem comum, a justiça, a promoção humana e a evangelização, quanto mais é distribuído, mas é fortalecido. Isso é pensamento da Doutrina Social da Igreja. Essa Equipe é quem deve montar o esboço e primeiros encaminhamentos na montagem do Plano.

Por fim, essa é uma ideia e uma intenção que já há algum tempo as trago em meu coração e que já compartilhei em outros escritos e reuniões administrativas, tendo em vista o bem da Igreja e do povo de Deus. Somos servidores deste povo. Tudo que fizermos em função daqueles que nos foram confiados e para o melhor desempenho da ação missionária pastoral da Igreja, tendo em vista a Glória de Deus e a nossa santificação, é precioso e deve ser levado a sério. Que o Senhor nos fortaleça nos propósitos da verdade e da justiça. Assim o seja!

Pe. Matias Soares cursando Mestrado em Teologia Moral na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, pertence à Arquidiocese de Natal.

Contato: mspesoares@hotmail.com

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