ARTIGO: O essencial pelo secundário

Por Pe. Matias Soares, do clero da Arquidiocese de Natal, estudando em RomaPe. Matias Soares2 (Cacilda Medeiros) (15)

A Igreja passou por profundas transformações, depois do Concílio Vaticano II. Eram necessárias. Temas como diálogo, comunhão, participação, atualização, ecumenismo, relação com as outras religiões, liberdade, renovação litúrgica, divina revelação, povo de Deus, justiça social, novas tecnologias e tantas outras questões, que precisavam de novas posturas pastorais, foram abordadas com profunda seriedade. Há o reconhecimento da necessária reviravolta eclesiológica pela qual a Igreja precisava passar, tendo em vista a sua sacramentalidade que devia ser assumida nos novos tempos.

Houve a recepção das prerrogativas pastorais do Concílio, ao menos em algumas regiões da catolicidade. Aqui, tenho meu olhar voltado para o que estudei sobre a questão na América Latina, com as Conferências latino americanas, a saber: Medellin (1968); Puebla (1979); Santo Domingo (1992); e Aparecida (2007). Não faço menção à do Rio de Janeiro (1955) por ter sido antes do Concílio, apesar de achá-la interessante, pois, quando lemos as suas conclusões, podemos perceber a mentalidade vigente dentro da Igreja, neste período antes do Concílio. A Igreja realmente se lança para tratar de tantas questões que exigiam um olhar daquela que, segundo o Papa João XXIII, deveria ser Mãe e Mestra. As intervenções magisteriais dos pontífices de então, João XXIII e Paulo VI, devem ser ressaltadas como orientações sinfônicas aos anseios conciliares. Suas encíclicas têm um valor incomensurável para o que a Igreja vai assumir na sua renovada e desafiadora ação eclesial.

O contexto geopolítico era de Guerra Fria, com revoluções ditatoriais em vários países da América Latina e a fragrante situação de desigualdade social nas Nações latino americanas e caribenhas. Os bispos tinham muita clareza da conjuntura. Quem já leu e aprofundou o documento de Medellin vai entender muito bem isso. A questão chave que era levantada foi a seguinte: para que e a quem as estruturas sociais estavam servindo? A Igreja assumiu institucionalmente e em sintonia com as preocupações do Concílio os anseios e desafios sociais, culturais e pessoais dos povos latino americanos, sem tornar secundário o sujeito eclesial e social que era cada pessoa humana, muito especialmente os mais pobres.

Neste mesmo período, o teólogo peruano, Gustavo Gutierrez, escrevera a paradigmática obra, Teologia de la Liberación, que deve continuar a ser ser pensada e lida à luz do que o Concílio propunha sobre as questões sociais a serem enfrentadas pela Igreja nas situações adversas do povo latino americano. Leiamos o prólogo da Gaudium et Spes, que fala sobre as alegrias e esperanças dos discípulos de Jesus Cristo, que devem ser as alegrias e as esperanças da própria Igreja. É inquietante perceber o preconceito de quem não leu os documentos do Concílio, nem os documentos das Conferências, nem as consistentes reflexões desta teologia, genuinamente latino americana, e que nutre aversão a uma proposta teológica profundamente arraigada na nossa realidade de injustiças e com tantas urgências sociais; e alicerçada na abertura e chamada ao protagonismo da Igreja na sua relação com mundo e a história! A palavra do Papa João Paulo II sobre a necessidade da Teologia da Libertação, os documentos que saíram da Congregação da Doutrina da Fé, que vieram para corrigir desvios hermenêuticos e variação de linguagem, que não condiziam com o que fora pensado pelos bons teólogos da libertação da América Latina, nunca foram de condenação, nem excomunhão de quem era teólogo desta perspectiva teológica. Frei Clodovis Boff teve a preocupação de mostrar a importância do método teológico deste ramo de uma das teologias pós-conciliar. Como não é um artigo científico, faço imediata menção para que os interessados possam ler a sua obra sobre o método teológico e outras publicações com esta preocupação orientadora. Para mim, o grande mal que causou a errônea compreensão da Teologia da Libertação na nossa realidade é de hermenêutica, que não foi justa e intelectualmente honesta, porque fugiu da lúcida leitura do Concílio e da sua hermenêutica da continuidade, e não da ruptura, como sempre nos ensina o teólogo, Bento XVI.

Por outro lado, a satanização desta corrente teológica, por grupos que também foram rejeitados neste contexto sofrido de América Latina, e que pouco a pouco assumiram um estilo de espiritualidade e característica neopentecostais. Contudo, sempre eclesial e motivados pelo apoio de João Paulo II. Neste período, começa a surgir a Renovação Carismática Católica, com seus sobressaltos pneumatológicos. Alguns setores da Igreja, como via de saída para combater as leituras de conveniência e com preocupações neomarxistas de agrupamentos eclesiais, pouco a pouco, vão assumindo esse florescimento eclesial como uma nova forma de ser Igreja em muitas comunidades. Surgem várias Novas Comunidades e adesões à essas células na maioria dos países latino americanos.

O paradigma político começa a fazer parte da narrativa eclesial e eclesiástica. Todos diziam que estavam vivendo o espírito do Concílio, mas saindo cada vez mais do caminho que tinha sido proposto por este. As falas estigmatizantes, de direita x esquerda, conservador x progressista, entraram equivocadamente na linguagem e prática eclesiais. A Igreja que fora chamada à comunhão e participação, sem renegar as suas diferenças, foi contaminada pelas ideologias dos sistemas políticos existentes e começou a perder o sentido da sua sacramentalidade, como Luz das Gentes, especialmente em nosso contexto latino americano. Voltou-se para o secundário e esqueceu o essencial. Apegou-se às ideologias e jogou fora o Evangelho, em muitas estruturas eclesiais. Recentemente, na casa Santa Marta, o Papa Francisco afirmou que “o Evangelho une, a ideologia divide”. Esqueceram a pessoa de Jesus Cristo, e cada um ficou preso à sua “ideia” do que seria viver a palavra de Deus e ser Igreja. Poucos buscavam a conversão e muitos queriam confrontos e até violência, inclusive dentro da própria Igreja. A luta de classes e o esquecimento da providência divina na história estão presente mais do que nunca. Há novos modos existenciais de viverem as heresias cristológicas dos primeiros séculos do cristianismo. A graça não vem mais por Jesus Cristo, mas por tantos outros meios de superação histórica. Deixaram de ser discípulos missionários de Jesus Cristo, para ser seguidores de Quem causa a divisão.

Essa questão me inquieta demais. Não tenho como apresentar um trabalho mais elaborado neste momento. O que quero mesmo é lançar uma reflexão e chamar em causa um debate interno e, oxalá, até mesmo externo. A homilia do Papa Francisco na última festa de Pentecostes (2017), à qual recomendo a leitura, é emblemática. Já escrevi sobre o tema (Cf. Matias Soares. http://arquidiocesedenatal.org.br/artigo-direita-ou-esquerda.html) e tenho plena convicção que essas posturas eclesiais e eclesiásticas distorcidas, não ajudam o próprio caminhar da Igreja na Sociedade. A divisão dos membros do corpo de Cristo é sempre uma doença eclesial.

O Papa Francisco clama pela necessária sinodalidade da Igreja. Tem consciência que essa é a metodologia do Concílio. A defende e, pouco a pouco, tenta viabilizá-la. A Igreja pós-conciliar é essa pirâmide invertida. Ela é constituída por todos os fiéis, que fazem parte do mesmo povo de Deus e corpo místico de Cristo. Pensemos o que aconteceu no Sínodo das Famílias e o próximo para a Juventude. Essa prática tem que estar presente nas dioceses, paróquias e demais comunidades da Igreja Católica. Nós não somos inimigos, somos Cristãos. Num mundo com tão poucos referenciais pessoais e sociais, a Igreja não pode perder a sua beleza. Renegar a comunhão, nas diferenças, é trair o dinamismo da própria Trindade.

Por fim, reitero qual é a minha preocupação: é instigar uma reflexão sobre essa importante questão da missão da Igreja nos tempos atuais. Vamos dialogar, estudar, rezar e avançar em nossa espiritualidade eclesial. Que haja essa abertura! Eis uma das grandes urgências da Igreja para esse Terceiro Milênio, como já o fora dito pelo Papa Francisco e pedido pelo próprio Jesus Cristo, na sua Oração Sacerdotal (Cf. Jo 17). Assim o seja!

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