“Entre o Potengi e as águas tranquilas do mar de Natal”

José Rodrigues da Silva Filho
Graduado em História e seminarista

A devoção a Nossa Senhora da Apresentação acompanha a história da cidade do Natal desde seus primórdios. Segundo a documentação, conhecida pela historiografia local, o título de Nossa Senhora da Apresentação como padroeira de Natal, remonta pelo menos a 1656, conforme consta Carta de Data do padre Leonardo Tavares de Melo, datada de 2 de janeiro de 1660, o que corrobora para as afirmações de alguns cronistas como, Frei Agostinho de Santa Maria e Frei Antônio de Santana Maria Jaboatão, que atestam que a paróquia já nascerá com Nossa Senhora da Apresentação como sua padroeira. Tais informações, que são confirmadas por vários documentos com datas posteriores, mostram que antes de encontrarem a imagem no rio Potengi, a Virgem da Apresentação já era venerada pelo povo natalense. Segundo Frei Agostinho de Santa Maria, havia, na igreja matriz, uma bela pintura retratando a apresentação de Nossa Senhora no templo junto com seus pais São Joaquim e Sant’Ana, sendo esta a referência iconográfica da padroeira da cidade.

Foi, contudo, no dia 21 de novembro de 1753 que, segundo a tradição oral, um prodigioso fato marcou profundamente a relação dos natalenses com a sua padroeira. Trata-se do achado de pobres pescadores locais que, ao irem para sua lida diária, bem de madrugada, depararam-se com um caixote de madeira encalhado na margem do Potengi, no lugar que, a partir de então, seria conhecido como “Pedra do Rosário”. Ao abrir tal caixote tiveram a surpresa de encontrar uma bela imagem de Nossa Senhora e junto a ela uma nota onde, segundo antiga tradição, relatada em 1950 por Mons. José Landim, estava escrito: “Onde parar essa imagem, tirem-na e rendam-lhe culto. Nossa Senhora protegerá o local e defendê-lo-á de todas as desgraças”, outra versão oral relatada por Joaquim Lourival Soares da Câmara diz: “No ponto onde der este caixão não haverá nenhum perigo”. A peculiar frase logo se popularizou na versão defendida por Câmara Cascudo, hodiernamente conhecida e repetida por numerosos devotos: “Aonde esta imagem parar, nenhuma desgraça acontecerá”. Os pescadores levaram a imagem para a igreja matriz, onde muito provavelmente, foi entronizada no altar mor pelo padre Manoel Correa Gomes, então Pároco da cidade. O fato de a imagem, que é de Nossa Senhora do Rosário, ter sido encontrada no dia da festa de Nossa Senhora da Apresentação, fez com que logo os fiéis a venerassem com este título.

A aparição da imagem marcou profundamente a religiosidade dos moradores da então pequenina cidade. O rio Potengi, que deu nome à Capitania, e, posteriormente, ao Estado do Rio Grande do Norte e que acolheu em suas margens o nascimento da cidade do Natal foi também cenário para o nascimento de uma relação afetuosa e de fé entre a Virgem da Apresentação e a jovem Capital. A imagem de Nossa Senhora da Apresentação, mais que uma bela obra sacra, é a expressão material de um sentimento de filiação mariana, uma herança cultural e religiosa enraizada em nossa sociedade. Pelas mãos de pobres pescadores, cujas identidades se perderam na poeira da história, foi atualizado o brado amoroso do Crucificado: “Eis tua mãe” (Jo 19,27). Os milhares de fiéis católicos, de Natal e de outras partes de nossa Arquidiocese, vêm nesses 262 anos sendo testemunhas de uma história de amor, que marca nossa terra.

A festa de Nossa Senhora da Apresentação é a expressão máxima desta relação afetuosa. Ao longo do novenário e, de forma especial, no dia 21 de novembro, a Catedral, a igreja matriz e a Pedra do Rosário acolhem grande número de fiéis que entre preces, hinos e lágrimas formam uma comunidade de homens e mulheres que partilham de uma só esperança. Na bela imagem da procissão pode-se ver uma multidão, em sua maioria formada por um povo simples que se identifica com uma Mãe que há 263 anos escolheu atracar em um lugar que até hoje é marcado pela pobreza, mas que demonstra uma riqueza cultural imensurável nas suas expressões de fé. Assim, a festa de Nossa Senhora da Apresentação transcende até mesmo o seu sentido religioso, sendo um marco para identidade local.

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