Igreja Sacramento X Igreja Instituição

Por Pe. Matias Soares, do clero da Arquidiocese de Natal, residindo em Roma

O ponto axial para pensar a realidade da Igreja na contemporaneidade é o Concílio Vaticano II. Não há como avançar em muitos pontos; mas, tomarei como base os seguintes afirmações dos dois principais documentos sobre a eclesiologia conciliar, a saber:

1) Lumen Gentium (Luz dos Povos), 1: «A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cfr. Mc. 16,15). Mas porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo»: A primeira e mais importante constatação deste sublime texto conciliar é a sua cristologia. Por muitos, essa questão passa desapercebida. Mas, é fundamental e fundante o cristocentrismo da eclesiologia conciliar. Como, partimos de uma hermenêutica da continuidade, que olha o evento a partir e com um único sujeito eclesial, temos que ter clareza do elemento normatizante da vida da Igreja, que é o mistério de Jesus Cristo, a verdadeira Luz dos povos. A antiga e sempre atual metáfora para pensá-Lo como o sol que através da Igreja reluz a sua luz para o mundo. Aí está a sacramentalidade da Igreja. Por ela, Cristo pode ser encontrado em todas as suas ações, quando essa assume essa condição sacramental.

2) Gaudium et Spes (Alegria e Esperança) 1: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história»: Eis uma proêmio complementar e que deve ser lido concomitantemente com a perspectiva eclesiológica da Lumen Gentium. A historicidade da Encarnação do Filho de Deus compromete a ação e a missão da Igreja com o que existe de mais humano, aqui e agora, com realismo e inserido no tempo e no espaço, atenta aos sinais dos tempos, que devem ser interpretados à luz da vida, obra e palavras de Jesus Cristo; Aquele que o centro e fim da história, a resposta definitiva e última para o mistério do ser humano (Cf. Gaudium et Spes, 22). A vida humana e suas manifestações são assumidas por Jesus Cristo. Seus sofrimentos e sinais da sua humanidade não são renegados, inclusive o próprio pecado, mas compreendidos e interpretados à luz da lógica de Jesus. Nesse sentido, Ele será Luz para todos os povos. Para os que a Ele se convertem, mas também para aqueles que, mesmo sem terem tido a oportunidade de conhecê-Lo, por via natural manifestam os sinais do Verbo, pelas suas práticas de amor, justiça e busca pelo que é belo e verdadeiro.

O teólogo Urs Von Balthasar, em artigo sobre a Igreja como Presença de Cristo, coloca as várias possibilidades através das quais Jesus pode estar presente na vida da comunidade: os seus discípulos, que podem assumir mais a sua humanidade, o seu Espírito, que com o tempo pode se tornar muito divino espiritual? Ele continua e chega ao ponto sobre o qual quer tratar dizendo que «há necessidade de algo mais. De qualquer coisa humanamente tangível que garanta a sua imediata presença. De modo que mostre esta presença e contemporaneamente a defenda do domínio dos homens e de deformações: um invólucro ou algo que o contenha, sem poder nunca ser confundido com Ele mesmo, algo que o torne presente para os crentes e os amantes sem que se possa apoderar dele de modo mágico, ou atentar contra a sua divina liberdade» (Cf. Balthasar, Nuovi punti firmi, p. 80-81). Para o teólogo, não há nenhum outro meio que não seja o da “instituição”. Para ele, o que esta é originariamente para Jesus, podemos observar na ocasião da instituição da “Eucaristia”. Por ela, Ele doa-se de modo que, a Eucaristia torna-se o núcleo mais interno da inteira instituição que nós chamamos Igreja, assevera Balthasar. Ela é sua presença imediata. É justamente o que Ele queria. Segundo Ele, à Igreja pertence o ministério, a Sagrada Escritura, a Tradição, também o direito canônico, todas as coisas que com Hegel podem ser definidas filosoficamente como “espírito objetivo”, mesmo que do ponto de vista cristão sejam sempre e só modos da presença de Cristo (Cf. Balthasar, 81). Não adentrarei no aprofundamento destas “instituições” para não delimitar e colocar em zona dogmatizada a sacramentalidade eclesial, sobre a qual quero fazer acenos e uma apresentação aproximativa. O que tenho em mente e, por isso, caminho nos ombros do eminente teólogo é mostrar que foi e é vontade de Jesus Cristo que a sua Igreja seja sinal de Sua presença na história da humanidade, como aquela que é canal da Sua graça e da Sua vontade para vida de cada cristão, como também dos demais homens e mulheres de boa vontade.

Essa construção cristológica do teólogo suíço é harmônica com a eclesiologia do Concílio e importante para fazer a leitura de alguns sinais emergentes na Igreja de hoje, principalmente com a proposta de sua conversão missionária, almejada pelo Papa Francisco, como ele mesmo o afirma: «Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de “saída” e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade. Como dizia João Paulo II aos Bispos da Oceania, “toda a renovação na Igreja há de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial”, que demarca a sua concepção de como deve ser a reforma eclesial» (Cf. Evangelii Gaudium, 27). Na perspectiva assumida por Francisco podemos constatar que, com ele a Igreja está sendo “provocada” a amadurecer e viver a sua sacramentalidade, sem trair a sua institucionalidade. A Igreja pode viver na linha tênue de negar a sua identidade, se não “tomar consciência” de quem ela representa, porque e para qual finalidade existe. Por isso, seguindo a perspectiva balthaziana, temos que contemplar, através e nos demais sinais desta sacramentalidade o que a Igreja é como instituição.

Seguindo a mesma linha de argumentação, reassumo mais uma vez a ideia do teólogo para sublinhar a importância de um dos ministérios “instituídos” pelo próprio Jesus Cristo: é o ministério petrino, que hoje é confirmado na pessoa do Papa Francisco (Cf. Mt 16,18; Jo 21,15-19). Quem é cristão católico sabe da importância para a sacramentalidade da Igreja Católica a existência deste ministério para a unidade do Corpo de Cristo (Cf. 1 Cor 12,27), para a confirmação e certeza da única verdade de fé deixada por Jesus Cristo. O próprio Balthasar elabora uma densa e reconhecida teologia do primado petrino na Igreja (Cf. Balthasar, Esistenza sacerdotale, p. 47-52). Não acolher e reconhecer no Santo Padre um dos sinais da sacramentalidade da Igreja é um real e verdadeiro problema de fé e de amor a uma instituição deixada sim, pelo próprio Jesus Cristo.

Para não ser só uma instituição, a Igreja tem que ser sacramental, e para não ser só sacramental a Igreja deve ser instituição, à luz da compreensão dada por Jesus sobre o significado do que é uma instituição ao interno da Divina Revelação, ou seja, algo que faz conhecido objetivamente ao mundo o que é de Jesus Cristo, que é a Revelação do Pai e que mostra a Sua vontade ao mundo (Cf. Jo 14,9; Mt 11,27). Mas, estejamos atentos! Ela não pode perder a fidelidade ao Evangelho e ao que é mandato do Senhor e Mestre. O problema sério, que é histórico, mas que hodiernamente está sendo aflorado por neo-pelagianos ou neo-agnósticos (Cf. Gaudete et Exsultate, 39-54) é a confiança na própria vontade, ou na razão, para assumir a autoreferencialidade no modo de conceder o que é a Igreja e como o ministério petrino deve adequar-se aos ideiais individualistas, traindo a própria sacramentalidade da Igreja, sem “querer” permitir que ela seja de fato sacramento de salvação para todos, mas só para alguns iluminados e mais justos dos que os outros.

Por fim, tenho consciência da complexidade da abordagem. Mas, como uma questão que é de fé, antes de qualquer construção teológica, temos que pensar a Igreja e qual a sua mais genuína missão para os tempos de hoje. Ela tem que ser luz, em tempos sombrios. A sua institucionalidade só será garantida se não for esquecida a sua sacramentalidade. E essa só existe pela sua sequela de Cristo, seu discipulado e sua coragem de anunciar Jesus Cristo a todos, sem distinção, nem negação da dignidade de nenhum filho de Deus. Penso, que uma orientação de síntese sobre a temática está na Exortação apostólica do Papa Francisco, sobre “o chamado à santidade no mundo atual” (Cf. Gaudete et Exsultate). Na santidade dos seus membros, a Igreja é sacramento e é a verdadeira instituição de Jesus Cristo que existe para a salvação de todos. Assim o seja!

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