Mensagem do Arcebispo de Natal por ocasião da Páscoa 2015

MENSAGEM

AOS PRESBÍTEROS, AOS DIÁCONOS,
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS

DA ARQUIDIOCESE DE NATAL

POR OCASIÃO DA PÁSCOA DO SENHOR DE 2015

 

Saudações vibrantes! Cristo Ressuscitou!

É ele a razão de nossa alegria! Aleluia!

No momento em que celebramos o mistério da Páscoa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, verdade central e princípio motivador da fé cristã, somos instados a buscar à concretude da graça pascal com um olhar de co-responsabilidade no exercício da cidadania. Como nos diz o beato Paulo VI: “A ação política dos cristãos é forma exímia e eminente de caridade”. Nesse espírito de caridade, convidamos todo o Povo de Deus, e cada fiel batizado em Jesus Cristo, homens e mulheres de boa vontade, para nos unirmos em favor do Brasil e do Povo brasileiro.

 Todos sabemos dos graves problemas que se abateram sobre o Estado Brasileiro, diante da revelação dos graves casos de corrupção, operados por agentes políticos com a participação de setores empresariais, que, juntos, lapidaram o patrimônio público construído pelo trabalho suado de homens e mulheres de bem que honram a pátria brasileira.

 A crise estabelecida – e alimentada pelos inimigos da democracia – traz à luz as mazelas históricas ainda presentes nas práticas de alguns que usurpam do poder político para se locupletarem do bem comum.

 A conduta e atitudes de alguns, eivadas e alimentadas por práticas de corrupção, principalmente para macular o processo eleitoral brasileiro, há tempo adornam o noticiário cotidiano. Entretanto, sempre foram negligenciadas ou relativizadas pela opinião pública. Enquanto isso, o Estado brasileiro ainda permanece omisso na resolução dos graves problemas estruturais da sociedade, particularmente aqueles referentes às áreas de saúde, de educação, de acesso ao solo urbano e à reforma agrária, à distribuição de renda e à segurança dos cidadãos. Omissão agravada pelo despreparo e falta de compromisso de parte da classe política, que preferem à violência, usando do aparelhamento estatal para eliminar aqueles que por ausência dessas mesmas políticas públicas, são jogados no crime organizado, e, agora, com a possibilidade de ingressarem até mais cedo pela redução da maioridade penal.

 Caríssimos irmãos e irmãs!

 Diante de tantos desafios, o Povo Cristão não pode ficar e permanecer inerte. A multiplicação e complexidade das relações sociais no tempo presente torna o papel do Estado mais complexo. Exige-se do Estado que penetre mais profundamente em toda a vida social, o que requer tanto mais discernimento dos cristãos e lhes coloca a obrigação de se informarem melhor.

 Uma exigência que a fé coloca para o cristão engajado na política é a necessidade de agir. Análises, denúncias e estudo das soluções não bastam. É preciso orientar esses elementos para a tomada de decisões e para o empenho na ação.

 Não basta recordar os princípios, afirmar as intenções, fazer notar as injustiças gritantes e proferir denúncias proféticas; essas palavras ficarão sem efeito real, se elas não forem acompanhadas, por cada um em particular, de uma tomada de consciência mais viva da sua responsabilidade e de uma ação efetiva. É demasiadamente fácil jogar sobre os outros a responsabilidade das injustiças se não se dá ao mesmo tempo conta de como se tem parte nela e de como a conversão pessoal é necessária, mais do que qualquer outra coisa (Cf. OA, 48). Como Igreja devemos cumprir o mandato bíblico a partir do que nos apresenta o profetas Isaias “O espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu, me enviou para curar os corações feridos, para proclamar a libertação, para anunciar a graça, para consolar!” (cf. Is. 61,1), desta forma, compreendemos que o cristão, assumindo sua dimensão profética do batismo é um mensageiro de esperança! Um arquiteto da justiça! Um construtor permanente da paz!

Na vivência de construtores permanentes da paz, percebendo a atual crise que coloca em risco a Democracia Brasileira, esta que foi conquistada com o envolvimento das classes políticas e de todo o povo, e que custou muito sacrifício e sofrimento, não podemos ficar apáticos diante da exigência desse momento histórico. A ocasião exige a participação de todos os que lutaram, acreditam e trabalham para fortalecer e consolidar os valores democráticos no cotidiano de nossas relações como cidadãos. É hora da cidadania! E cidadania ativa!

É no exercício da cidadania ativa que está a essência da Democracia. A cidadania ativa e emancipada se conquista no cotidiano. A cidadania cotidiana é o caminho adequado para fazer frente às mazelas políticas, sociais e econômicas que nos perseguem, que se traduzem por atos de violência, às vezes praticados pelo próprio Estado contra os cidadãos; posturas discriminatórias e preconceituosas; percepção equivocada de direitos, e materializados como privilégios para alguns; clientelismo; corporativismo, autoritarismo; corrupção, entre outros.

A prática cidadã é uma das responsáveis pela construção de espaços públicos, onde todos recebam do Estado a garantia do seus direitos fundamentais – moradia, trabalho, saúde e educação. Não há cidadania quando não se garante a construção democrática de uma ordem pública para o exercício pleno da representação plural dos interesses dos cidadãos mediante um amplo processo de interlocução e negociação.

Então, diante da inquestionável crise por que passam, no Brasil, as instituições da Democracia Representativa, especialmente o processo eleitoral, decorrente este de persistentes vícios e distorções, tem produzido efeitos gravemente danosos ao próprio sistema representativo, à legitimidade dos pleitos e à credibilidade dos mandatários eleitos para exercer a soberania popular.

O momento exige a participação de cada cidadão para cobrar das Casas do Congresso Nacional uma Reforma Política Democrática que estabeleça normas e procedimentos capazes de assegurar, de forma efetiva e sem influências indevidas, a liberdade das decisões do eleitor.

Cabe a cada um de nós manter-se vigilante e atento aos acontecimentos políticos atuais para que não ocorra nenhum retrocesso em nossa Democracia, tão arduamente conquistada.

Para tanto, é necessário que todos os cidadãos colaborem no esforço comum de enfrentar os desafios, que só pode obter resultados válidos se forem respeitados os cânones constitucionais, sem que a Nação corra o risco de interromper a normalidade da vida democrática.

Participemos todos, então, da campanha de assinaturas de adesão à proposição de uma Reforma Política Democrática, realizada por uma constituinte exclusiva e soberana, com a responsabilidade de mudar o sistema político para evitar que a esfera privada continue dominando e sugando a espera pública, além de promover as reformas urgentes e necessárias que garantam a igualdade de direitos econômicos, sociais, ambientais, culturais e civis para todos os brasileiros.

Não faz sentido realizar uma reforma política feita por um Congresso que é parte do problema, e não da solução.

Por fim, lembremo-nos que o cristão é movido e animado por uma profunda esperança, fundada na certeza de que o Senhor Ressuscitado continua no meio de nós e acompanha nossas ações, operando por meio de nós. O cristão sabe que não está sozinho. Deus opera em outras pessoas e grupos, inspirando-lhes ações a favor da justiça e da paz. Nossa ação se junta à de muitas outras pessoas, instituições, até formar uma grande corrente, capaz de mudar as mentes e estruturas (Cf. Paulo VI, AO, 48).

Invocando o olhar materno da Virgem Mãe e Senhora Aparecida, supliquemos ao Bom Deus a esperança de podermos juntos, como cidadãos e como cristãos, construirmos uma pátria mais justa que seja amada e gentil Mãe de todos os brasileiros.

A minha especial bênção de Páscoa!

Natal-RN, 5 de abril de 2015

Domingo da Ressurreição

 
Dom Jaime Vieira Rocha
Arcebispo Metropolitano de Natal

 

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.