Voz do Pastor › 14/09/2018

A Cruz de Jesus: nossa esperança

Queridos irmãos e irmãs!

A Festa da Exaltação da Santa Cruz, celebrada neste dia 14 de setembro, é um convite a todos nós para que olhemos para a Cruz de Nosso Senhor e reconheçamos nela a manifestação do amor trinitário de Deus. De fato, “anunciamos Cristo crucificado”, como nos diz São Paulo (cf. 1Cor 1,23). E, São João afirma no seu Evangelho: “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A Cruz de Jesus não significa condenação de Deus, maldição e castigo como se Jesus fosse um pecador, mas a maior prova de amor que alguém pode dar para aqueles que ele ama (cf. Jo 15,13). Amor do Pai pelos homens e pelas mulheres, amor do Filho que entrega a própria vida, a Cruz de Jesus é benção e graça salvadora. Pelas suas chagas fomos curados, redimidos, salvos para que retomemos a nossa vocação original, ofuscada pelo pecado. Pois, nós fomos criados por Deus por meio de seu Filho e na força do Espírito, para vivermos como filhos e filhas de Deus. A Cruz de Jesus resgata a nossa condição e nos revela o verdadeiro sentido da vida humana. É na Cruz, e não no triunfalismo que descarrega ódio e terror, que encontramos a verdadeira salvação e o caminho da paz.

Nós, cristãos e cristãs, seguidores de Jesus, salvos pela cruz redentora, somos convidados pelo Mestre a também carregar a cruz. Não que a nossa vida seja condenada ao sofrimento pelo sofrimento, não que estejamos condenados a um destino de dor e de destruição. A Cruz é a condição para o seguimento a Jesus: “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Sendo condição para o seguimento a Jesus, a cruz se torna indispensável para o discipulado e a missão. E isso quer dizer que para sermos discípulos missionários precisamos ter a sequela de Jesus. E essa sequela não significa uma vida de bem-estar, de felicidade terrena, mas de uma vida doada em favor dos outros. O sentido de “carregar a cruz” está todo no ato de doação, de entrega como Jesus o fez.

Quero lembrar aqui uma reflexão muito significativa de um teólogo italiano, o Arcebispo Bruno Forte. Refletindo sobre a salvação realizada na Cruz, o teólogo chama a atenção para que ela seja vista como “entrega”, e faz uma relação com a Tradição, que em grego é o mesmo termo para indicar entrega. Isto é, Tradição significa entrega de uma mensagem de salvação. E os cristãos são chamados a fazer de sua vida uma entrega aos outros, assim como a vida de Jesus é o resultado das “entregas” divinas: o Pai entrega o seu Filho para salvar o mundo (cf. Rm 8,32: “Deus, que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como é que, com ele, não nos daria tudo?”: ao entregar seu Filho à cruz o Pai deposita nele a fonte de todos os outros bens, destinados aos homens e às mulheres; cf. também Jo 3,16); mas, a cruz significa entrega do Filho (cf. Gl 2,20: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim. Minha vida atual na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” – o Apóstolo reconhece que o segredo mais profundo de sua vida é reconhecer que o Filho o amou e seu entregou por ele; está aí a força do discipulado e da missão); por fim, a cruz é entrega do Espírito (cf. Jo 19,30: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” – o Crucificado entrega ao Pai na hora da cruz, o Espírito que o Pai lhe havia dado e que lhe será dado em plenitude no dia da Ressurreição). Somente porque recebemos o Espírito de Cristo é que acontece a conversão pastoral: ela significa viver a fé não como um afastar-se da Cruz, mas como uma entrega de nossa vida pelos outros, assim como Cristo o fez. Ave Crux, spes unica. Salve, ó cruz, única esperança. “Senhor Jesus, concede-nos sempre a graça da santa esperança! Ajuda-nos, Filho do homem, a despojar-nos da arrogância do ladrão posto à tua esquerda e dos míopes e dos corruptos, que viram em ti uma oportunidade a explorar, um condenado a criticar, um derrotado a escarnecer, outra ocasião para descarregar sobre os outros, e até sobre Deus, as próprias culpas. Ao contrário, pedimos-te, Filho de Deus, que nos identifiquemos com o bom ladrão, que te fitou com olhos cheios de vergonha, de arrependimento e de esperança; que, com o olhar da fé, viu na tua aparente derrota, a vitória divina e, assim, ajoelhou-se diante da tua misericórdia e, com honestidade, roubou o paraíso! Amém!” (PAPA FRANCISCO. Palavras no final da Via-sacra no Coliseu. Roma, 30 de março de 2018).

 

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