Voz do Pastor › 10/02/2018

A evangelização no mundo urbano

Queridos irmãos e irmãs!

Desde algumas décadas é constante, entre nós, a reflexão sobre a pastoral urbana e seus desafios para a ação evangelizadora. Todos são unânimes em reconhecer que a realidade urbana põe para esta ação desafios que são completamente diversos dos que encontramos no mundo rural. Antes de enfrentá-los é necessário conhecer, estudar, refletir sobre eles, para que haja uma ação evangelizadora eficaz, que conduza o homem e a mulher, que vivem nesta realidade, a uma vivência da fé e do testemunho cristão. Antes de pensarmos no modo de viver da sociedade urbana com a sua mobilidade, com seus condomínios fechados, é urgente partir do que é essencial para a vida da Igreja e sua missão.

Antes de tudo, é preciso acabar com o pensamento retrógrado, mas às vezes presente em grupos religiosos conservadores, de que a realidade urbana com seu modo próprio de ser, com a sua vida comercial, industrial, financeira e cultural são empecilhos à vivência da fé e do compromisso com Cristo e sua Igreja. De fato, há alguns anos era costume pensar que para viver a fé ou para ser santo, o que é a mesma coisa, era necessário fugir do mundo. E a realidade urbana parece ser a imagem do mundo secularizado, distante do sagrado, ou mais envolvido com as coisas do mundo do que com as coisas de Deus. Nada mais contrário ao sentido da missão e da natureza da Igreja. Em segundo lugar, devemos reconhecer que existe, não só na mente dos católicos, mas também no ambiente extra-eclesial, certa ignorância quanto ao pensamento da Igreja que modela, ilumina e possibilita a visão equilibrada e correta sobre a relação Igreja e mundo, fé e compromisso social, sagrado e profano, Deus e mundo. E estes são temas complexos que exigem uma reflexão bem mais aprofundada e que tomariam muito tempo. Porém é preciso reconhecer: necessitamos dedicar sempre mais tempo a estas temáticas, pois elas são de importância capital para a ação evangelizadora. Nós partimos desta visão para fundamentar a nossa ação: “os homens e as mulheres são destinatários de nossa evangelização”. Não podemos deixar de evangelizar. Enquanto existir um homem ou uma mulher, em qualquer tipo de sociedade em que viver, será preciso evangelizar. E, ai de nós se não o fizermos como afirma São Paulo (cf.1Cor 9,16). E não seria diferente para o mundo urbano. É preciso evangelizar.

Talvez, devamos começar, pois se trata do elemento primordial, com o reconhecimento de que a relação Deus e mundo, Igreja e mundo, não pode ser vista em termos antagônicos, mesmo que tenhamos que reconhecer que são realidades diferentes. Mas, poderíamos dizer: precisamente porque são diferentes. A diferença existente entre Deus e o mundo não significa que Ele [Deus] seja contrário ao mundo. O mundo é diferente de Deus porque Deus é o criador do mundo. O mundo surge de sua palavra criadora. E o livro do Genesis afirma que o que Deus criou é bom (cf. Gn 1, 10.18.21.25). E mais, quando Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (Gn 1,26-27), diz que “tudo era muito bom” (Gn 1,31). Esta bondade da criação e a vocação e o destino do homem e da mulher foram realidades bem presentes na história da salvação realizada por Deus e atestada na Bíblia. Deus, por isso mesmo, fez alianças com os homens (Noé, Abraão, Moisés). E mostrou-se Pai bondoso e misericordioso para com o povo de Israel a quem chama o “meu povo” (cf. Jr 31,1). Não são poucas e carentes de importância as passagens bíblicas que mostram Deus que cuida dos órfãos e das viúvas, dos estrangeiros, dos pobres e aflitos. Porém, a realidade que mais indica a atenção, o cuidado, a ternura e a benevolência de Deus em relação ao mundo, e ao homem e à mulher, é o acontecimento da Encarnação, a vinda do Filho de Deus. Jesus é a manifestação do amor de Deus pelo mundo (cf. Jo 1,16). A sua mensagem é a proclamação de que Deus está do lado dos perseguidos e marginalizados, dos pobres e dos pecadores. As bem-aventuranças são a proclamação de tudo isso.

 

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