Voz do Pastor › 10/02/2017

A fé e o bem comum

Queridos irmãos e irmãs!

No último capítulo da Encíclica Lumen fidei, o Papa Francisco afirma que a fé não significa apenas um caminho, mas também uma edificação, preparação de um lugar onde os homens possam habitar uns com os outros (LF 50). É necessário enfatizar este aspecto ou dimensão da fé: ela não evoca apenas uma solidez interior, uma convicção firme do crente; a fé ilumina também as relações entre os homens, porque nasce do amor e segue a dinâmica do amor de Deus (idem). A fé não tem apenas um sentido vertical, mas também horizontal. Isto significa que a fé como ato de reconhecimento do amor de Deus manifestado em seu Filho, Verbo encarnado e Mediador entre Deus e os homens, conduz o crente a uma vida de imitação e de seguimento a Cristo que o faz capaz de servir à justiça, ao direito e à paz. Nada do que diz respeito a estas realidades essenciais do ser humano e da sociedade foge ao significado da fé.

Com o título de “A fé e o bem comum”, o Papa apresenta a relação da fé com as realidades humanas, mostrando que não há separação entre elas, embora possam ser coisas diferentes. No número 51 a Encíclica apresenta o fundamento desta relação: a fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida. Este princípio ordenador da relação fé-bem comum, fé-sociedade, fé-vida, é desenvolvido pelo Papa em pontos que fazem-nos refletir sobre a nossa fé e como nós estamos vivenciando-a. Em primeiro lugar, a fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas. De fato, o encontro do homem com Deus estabelece uma experiência de relações, isto é, o ser humano é introduzido nas relações intratrinitárias e por isso, torna-se instrumento de Deus para os outros. Nenhuma relação interpessoal do crente fica fora da luz que a fé traz para a sua vida. Depois, a fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Esta é uma afirmação que pode ser considerada um paradigma da ação da evangelizadora da Igreja no mundo de hoje. O mundo é visto pela revelação divina como o lugar onde se realiza o encontro de Deus com os homens. É verdade, o encontro conduz para além do mundo, mas ele começa aqui. Nenhum encontro de Deus com a criatura humana começa em outro lugar senão no mundo. A fé, portanto, não está alheia às experiências das relações humanas. Ela dá ao homem a força de um amor que se torna fiável, isto é, um amor que eleva e não destrói, capaz de manifestar a beleza de viverem juntos, de viver a alegria que a simples presença do outro pode gerar.

Por fim, a fé faz compreender a arquitetura das relações humanas, pois ela identifica e conduz o homem ao reconhecimento do seu fundamento último e o seu destino definitivo: Deus e o seu amor. Conclui o Papa com precisão: a fé é um bem para todos, um bem comum. Pela fé não nos fechamos ao âmbito da Igreja, mas na Igreja e com a Igreja, a luz da fé ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança. A fé nos abre para o abraço a todo ser humano e nos torna capazes de anunciar o amor de Deus por todos. Essa intuição é continuidade com a tradição da Igreja que nos ajuda a compreender a mensagem cristã, voltada para todo ser humano. A caridade da Igreja não acontece por proselitismo, isto é, não é restrita aos cristãos e católicos, mas a todos sem distinção, como afirmou Bento XVI.

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