Voz do Pastor › 17/02/2017

Ano Mariano e discipulado missionário

Queridos irmãos e irmãs!

Desde o dia 12 de outubro do ano passado, a Igreja Católica vive no Brasil o Ano Mariano, em comemoração aos 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, nas águas do rio Paraíba do Sul. Na mensagem ao povo brasileiro, dada pela Presidência da CNBB, vemos o sentido das comemorações: “Como no episódio da pesca milagrosa narrada pelos Evangelhos, também os nossos pescadores passaram pela experiência do insucesso. Mas, também eles, perseverando em seu trabalho, receberam um dom muito maior do que poderiam esperar: ‘Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe’. Tendo acolhido o sinal que Deus lhes tinha dado, os pescadores tornam-se missionários, partilhando com os vizinhos a graça recebida. Trata-se de uma lição sobre a missão da Igreja no mundo: ‘O resultado do trabalho pastoral não se assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor’ (Papa Francisco)”.

A Mãe de Jesus é o modelo do que a vida do missionário significa. De fato, podemos contemplar a figura da Virgem Maria no caminho do discipulado missionário. Como? Em primeiro lugar, e isso é fundamental para a compreensão correta do que é ser missionário: a vida da virgem Maria é toda ela pensada por Deus em vista da sua missão de mãe do Filho de Deus. Ser pensada por Deus, antes mesmo de iniciar a existência, é o que são Paulo nos ensina na Carta aos Efésios: “nele [em Cristo], Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e íntegros diante dele, no amor” (Ef 1,4). Reconhecer que nós fomos predestinados para a vida em Cristo com Deus (cf. Cl 3,3) é condition sine qua non para o sentido da missão. Do contrário, estaríamos errados se pensássemos que a nossa missão significa algo que parte de nós. É necessário ver que em nenhum momento seguir Jesus é uma decisão que parte do discípulo. Se o discípulo não é chamado pelo Mestre não há discipulado (cf. Lc 9,57-62: só se pode seguir quando é chamado, além do que o chamado não admite condições).

Em segundo lugar, missão não pode ser pensada como unicamente voltada para uma ação. É claro que existe a funcionalidade da eleição divina, e isso já presente no Antigo Testamento, como por exemplo, o sacerdócio, a realeza e o profetismo. Ninguém é chamado para si mesmo, mas sempre em direção ao povo de Deus. Mas, isso não quer dizer que haja da parte de Deus uma espécie de “instrumentalização do missionário”, como se Deus apenas usasse o homem e depois que ele faz a coisa o dispensa. Jamais isso acontece. A Mãe de Jesus antes de ser fecundada no seio virginal é tornada Imaculada, isto é, aquela que é predestinada a ser a Mãe do Senhor, é antes disso, envolvida pelo Espírito de Deus, tornada cheia de graça. Deus mesmo se faz o horizonte da virgem Maria. Deus mesmo se faz presente na nossa vida e isso torna possível a missão. Não somos missionários e por isso Deus nos ama. Deus nos ama e por isso nos faz missionários. A missão é uma realidade que se sustenta na gratuidade divina e é consequência do amor divino. Somente assim é que podemos ser missionários e não “comerciantes do divino”.

Assim como Deus não nos instrumentaliza, também nós não podemos instrumentalizar Deus. Um grande pensador cristão, o ítalo-germânico Romano Guardini afirmava a necessidade de não prender Jesus, isto é, “quem protege Jesus de nós?”, assim perguntava. Quem o salva da astúcia do nosso próprio eu, que faz de tudo para não colocar-se à sua sequela? A missão não consiste em tornar Jesus ou Deus uma espécie de propriedade nossa. Deus não se torna um produto adquirido por nós quando temos fé, ou seja, quando somos missionários de Jesus Cristo. De fato, a verdadeira atitude do discípulo missionário é esta: como Maria, somos convidados a nos jogar nas mãos amorosas e cheias de ternura do bom Deus e anunciar a todos que Deus é Deus de todos e para todos.

Vivamos, portanto, esse tempo de graça, e aprendamos da Mãe do Senhor a nos colocarmos em inteira disponibilidade para a missão, sendo discípulos e discípulas comprometidos com o anúncio do Evangelho da alegria da comunhão com Deus e com os irmãos e irmas.

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