Voz do Pastor › 06/03/2017

Como viver a Quaresma

Queridos irmãos e irmãs!

No primeiro dia do mês de março, iniciamos o Tempo da Quaresma. É um tempo especial de graça, de reflexão e de conversão. A Quaresma, quarenta dias de preparação para a celebração da Páscoa, traz para toda a Igreja a oportunidade de revisão de vida e torna os nossos corações mais abertos e prontos para a alegria pascal. A Igreja vive este tempo lembrando a todos a experiência do jejum, da esmola e da oração. São práticas já vividas no Antigo Testamento, retomadas por Jesus, no Novo Testamento, e continuadas na tradição da Igreja. O Papa Francisco, na Mensagem para a Quaresma deste ano, expressou o seu desejo para toda a Igreja: “A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão”.

Explicando a parábola do homem rico e do pobre Lázaro, o Papa afirma que o outro é um dom: Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. Este, portanto, é o primeiro modo de viver bem a Quaresma. Reconhecer o valor do outro. Como necessitamos disso, numa sociedade que descarta, que quer resolver os problemas sociais sem olhar para o outro como primeiro valor a ser defendido, a Quaresma nos lembra: o outro é um dom. Viver a Quaresma é sair de si para encontrar o outro e assim recebem o dom que vem de Deus. O outro modo de viver a Quaresma é reconhecer que o pecado cega-nos e é preciso deixar-se conduzir pela Palavra de Deus. Já o papa emérito Bento XVI afirmava, na Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini: “Muitas vezes encontramos, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a descrição do pecado como não escuta da Palavra, como ruptura da Aliança e, consequentemente, como fechar-se a Deus que chama à comunhão com Ele (n. 26)”. A Palavra é um dom, afirma o Papa Francisco: “A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão”.

Um modo de viver a Quaresma, originário do nosso chão e espalhado por toda a Igreja no Brasil, é a Campanha da Fraternidade. Na Mensagem para a Igreja no Brasil por ocasião da abertura da Campanha da Fraternidade, o Papa Francisco afirmou: “Reafirmo, assim, o que recordei por ocasião do Ano santo Extraordinário: a misericórdia exige ‘restituir dignidade àqueles que dela se viram privados’ (Misericordia vultus, 16). Uma pessoa de fé que celebra na Páscoa a vitória da vida sobre a morte, ao tomar consciência da situação de agressão à criação de Deus em cada um dos biomas brasileiros, não poderá ficar indiferente”. Essa mensagem anima a todos nós, pois ela é um reconhecimento de que a nossa reflexão está em consonância com a fé cristã. A fé nos leva sempre a uma espiritualidade encarnada, jamais desconexa da realidade em que vivemos. O Mistério Pascal nos recorda isso. Toda a Palavra de Deus ensina essa verdade: Deus é o Criador, Ele fez aliança com os homens e as mulheres, o seu Filho se torna Homem e se dá como carne salvadora na Eucaristia, deixa o mandamento do amor ao próximo como característica principal e garante, através do dom do Espírito Santo, o caminho rumo à vida plena. Que temos necessidade de uma espiritualidade assim, o Papa Francisco recordou na homilia da Missa de Quarta-feira de cinzas: “A Quaresma significa não à poluição intoxicante das palavras vazias e sem sentido, da crítica grosseira e superficial, das análises simplistas que não conseguem abraçar a complexidade dos problemas humanos, especialmente os problemas de quem mais sofre”.

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