Voz do Pastor › 13/04/2018

Gaudete et Exultate: todos são chamados à santidade

Queridos irmãos e irmãs!

No último dia 9, foi publicada a nova Exortação Apostólica de Papa Francisco: “Gaudete et Exultate” (“Alegrai-vos e exultai”, Mt 5,12). É a terceira Exortação Apostólica, após Evangelii gaudium (O Evangelho da alegria) e Amoris laetitia (A alegria do amor). Nesta Exortação Apostólica, cujo tema é “o chamado à santidade no mundo atual”, o Papa Francisco não pretende escrever “um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções que poderiam enriquecer este tema importante ou com análises que se poderiam fazer acerca dos meios de santificação. O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós ‘para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor’ (cf. Ef 1, 4)” (n. 2).

O Papa retoma nesta Exortação uma temática expressa na Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen gentium. No capítulo V (nn. 39-42) intitulado “A vocação de todos à santidade na Igreja”, o Concílio Vaticano II afirma: “todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: ‘esta é a vontade de Deus, a vossa santificação’ (1 Ts 4,3; cfr. Ef 1,4)” (n. 39).

Após afirmar que os santos nos encorajam e acompanham, o Papa faz a seguinte declaração: “Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (n. 14). A santidade, portanto, não é privilégio de uns poucos, mas o caminho proposto por Jesus para todos os seus seguidores.

Outro ponto importante da Exortação Apostólica é o que se expressa no segundo capítulo, onde o Papa nomeia “dois inimigos sutis da santidade”: o gnosticismo e o pelagianismo. Assim os caracteriza Francisco: “São duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas continuam a ser de alarmante atualidade. Ainda hoje os corações de muitos cristãos, talvez inconscientemente, deixam-se seduzir por estas propostas enganadoras. Nelas aparece expresso um imanentismo antropocêntrico, disfarçado de verdade católica” (n. 35). O gnosticismo não aceita o evento encarnatório do Filho de Deus, com a consequente marca na condição humana, como único meio de salvação, atribuindo ao conhecimento uma espécie de tábua de salvação. O pelagianismo afirma que tudo depende do esforço pessoal, da capacidade natural de se redimir. Francisco reconhece que, embora essas heresias tenham sido condenadas pela Igreja nos primeiros séculos, elas ainda estão latentes em alguns setores ou até mesmo em pessoas da Igreja.

Ao combatê-las, o Papa apresenta para toda a Igreja um ensinamento que renovou a face eclesial: a primazia da graça: “A Igreja ensinou repetidamente que não somos justificados pelas nossas obras ou pelos nossos esforços, mas pela graça do Senhor que toma a iniciativa. Os Padres da Igreja, já antes de Santo Agostinho, expressavam com clareza esta convicção primária. Dizia São João Crisóstomo que Deus derrama em nós a própria fonte de todos os dons, ‘antes de termos entrado no combate’. São Basílio Magno observava que o fiel se gloria apenas em Deus, porque ‘reconhece estar privado da verdadeira justiça e que é justificado somente por meio da fé em Cristo’” (n. 52). Esta verdade de fé foi também assumida pelo Concílio de Trento (1545-1563), onde respondendo ao movimento de Martinho Lutero, assumia o que era central no debate teológico: “Se alguém disser que o homem pode ser justificado diante de Deus por suas obras feitas mediante as forças da natureza humana, ou pela doutrina da Lei, sem a graça divina que lhe é dada por Cristo Jesus, seja anátema” (DH 1551).

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