Voz do Pastor › 17/05/2019

Não apagueis o Espírito (1Ts 5,19)

Queridos irmãos e irmãs!

Vivenciamos o Tempo Pascal. São 50 dias até a Festa de Pentecostes. Na verdade, é como se fosse um só dia. O Tempo Pascal nos coloca diante dação de Deus que mostra uma unidade na ação de Deus: o Filho de Deus se encarna, assume um corpo humano, vive uma história humana, morre na cruz, ressuscita e volta para junto do Pai, recebendo aquela glória que tinha, junto do Pai, antes que o mundo existisse (cf. Jo 17,5).

Trata-se da ação de Deus que a vê como projeto unitário. De fato, Deus nos chama para uma visão total, unitária e completa de seu plano, do seu projeto, de sua vontade. Quem possibilita a nós essa unidade da ação de Deus é o Espírito Santo. Ele nos foi dado pelo Pai por meio de Cristo para tornar-nos completos, isto é, faz-nos capazes de ver o todo do plano de Deus. Quando particularizamos, isto é, “quebramos” o plano divino em partes, caímos na tentação de “apagar” o Espírito. E mais: podemos fazer isso domesticando o Espírito, aprisionando-o e costurando-o com nossas teorias, fazendo uma indevida apropriação para Ele dos nossos conflitos internos, das nossas emoções, de nosso sentimentalismo. Com isso, esquecemos as verdades do Espirito e dificultamos nossa vida de fé.

Mas, quem é o Espírito Santo? A Palavra de Deus nos diz que Ele pairava sobre as águas, quando Deus criou o céu e a terra (cf. Gn 1,2); Ele falou pelos profetas; esteve presente na vida daqueles que estavam em relação com a vinda de Cristo: Isabel (Lc 1,42), Maria (Lc 1,35), Simeão (Lc 2,26). Toda a vida de Cristo aconteceu na ação do Espírito Santo: sua concepção é uma intervenção do Espirito (Lc 1,35); Ele se manifesta em Jesus (Mt 3,16; 4,1; Mc 1,10.12; Lc 3,22; 4,1; Jo 1,32-33: cena do Batismo, testemunho de João Batista e a tentação no deserto; Lc 10,21: hino de júbilo de Jesus pela revelação de Deus aos pequenos), Jesus age por meio do Espírito (Mt 12,28: a cena da expulsão do espírito impuro do cego-mudo), continua a sua missão (Jo 14,16-17; 16,7); assistirá os discípulos (Mt 10, 19-20; Mc 13,11; Lc 12,11-12; Jo 15,26-27) para introduzi-los em toda a verdade (Jo 14,26; 16,13). Toda a verdade diz respeito ao “querigma”, ao anúncio-proclamação do plano de Deus, de sua vontade: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16); “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que eram sujeitos à Lei e todos recebêssemos a dignidade de filhos. E a prova de que sois filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: ‘Abbá, Pai’” (Gl 4,4-6). Esse é o querigma que nós recebemos e que devemos transmitir (cf. 1Cor 11,23; 15,3: é atitude do Apóstolo que, referindo-se à Eucaristia, ao caráter expiatório da morte de Cristo e à sua ressurreição, apresenta o dinamismo da ação do Espírito Santo, que é o mesmo dinamismo da Tradição (Traddere: entrega, transmissão). A Tradição, que não é nem emoções nem sentimentalismo, mas a vida mesma da Igreja, é a transmissão da fé dos Apóstolos, fé no acontecimento da Revelação, que significa a vinda de Deus ao homem e à mulher, verdadeira automanifestação e autocomunicação de Deus por meio do Filho e do Espírito Santo. Quando reconhecemos que de fato isso aconteceu e buscamos, com o ato de nossa liberdade, aceitamos essa autocomunicação como a verdadeira e autêntica realização da condição humana, nós deixamos que o Espirito Santo habite em nós e nos tornamos, de fato, testemunhas do Filho, anunciadores da vontade de Deus, vontade de autodoação de Deus ao homem e à mulher.

 

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