Voz do Pastor › 05/07/2019

Seguir o Cristo Crucificado

Queridos irmãos e irmãs!

No último final de semana a Igreja festejou os Santos Pedro e Paulo. Muito se falou de São Pedro, de sua importância, da missão do Apóstolo pescador, da continuação do ministério petrino, hoje no Pontificado de Papa Francisco. Rezamos pelo Papa e pela sua missão de confirmar os irmãos e irmãs na fé.

Embora tenhamos falado e refletido sobre a figura de São Paulo, seus ensinamentos e seu testemunho de fé, gostaria de ressaltar um ponto de seu ensinamento, muito atual e que se encontra expresso na segunda leitura da Missa do próximo domingo, o 14º do Tempo Comum.

Assim se expressa o Apóstolo dos gentios: “Quanto a mim, que eu me glorie somente da cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo. Por ele, o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo… Doravante, que ninguém me moleste, pois eu trago em meu corpo as marcas de Jesus (Gl 6,14-18). São Paulo apresenta neste texto o que os teólogos chamam de “dimensão estaurológica” da fé. Tal dimensão parte da cruz (em grego “estaurós), como sentido de vida e como caminho do discipulado.

]Em relação ao primeiro ponto, o Apóstolo nos ensina que a fé e a salvação, não vem senão através da Cruz de Jesus Cristo. Ela manifesta o amor maior, ensinado pelo próprio Jesus. O ato redentor, o que salva a humanidade é um ato de uma pessoa, alguém que compartilha a realidade criada. E, mais ainda, daquele que dá origem a essa mesma realidade. Não se trata de alguém estranho, mas de quem possui a mais íntima relação com o homem e a mulher. No Calvário encontramos unidos teoria e prática, ensinamento e ação, palavras encarnadas. Para além de teorias ensinadas no passado, como a famosa teoria da “satisfação”, defendida sobretudo por Santo Anselmo, de que, com a morte na cruz, Jesus Cristo teria “refeito” a ordem da justiça estabelecida por Deus na criação, a morte de Jesus é a manifestação da gratuidade divina, expressa por Ele em sintonia com a mesma gratuidade do Pai, e que Jesus vive na força e na unidade do Espírito Santo.

O segundo ensinamento daquele que antes de ser Apóstolo do Caminho de Jesus Cristo, fora perseguidor dos amigos e seguidores desse mesmo Caminho, diz respeito ao mundo. Que sentido tem essas palavras: “o mundo está crucificado para mim” e “eu estou crucificado para o mundo”? Mundo e o Apóstolo são duas realidades diversas. Como a Cruz significa renovação e redenção, para São Paulo não só a sua vida, mas o mundo também participa da obra redentora, isto é, recebe a renovação do Cristo crucificado e ressuscitado. Da obra redentora do Filho de Deus e Filho de Maria, vem a santidade do mundo. Certamente, não podemos esquecer aquelas palavras do Mestre: “eles estão no mundo, mas não são do mundo” (Jo 17,14). Mas, a relação do Apóstolo com o mundo pode ser expressa com as palavras do dogma cristológico, promulgado no Concílio Ecumênico de Calcedônia (451), onde se reflete sobre a relação das duas naturezas em Cristo: a divina e a humana – “sem mutação, sem divisão, sem confusão, sem separação”. De fato, o mundo é renovado pela ação redentora do Crucificado, “Ele que tem o mundo em suas mãos”.

Por fim, o terceiro ensinamento de São Paulo, contido no texto de Gálatas, diz respeito à “sequela Christi”. Ele, Paulo, afirma que “traz as marcas de Jesus”. Embora não se tenha comprovação de que o Apóstolo tenha sido estigmatizado (ter recebido os estigmas ou as chagas do Crucificado), suas palavras são claras. Elas indicam que o grande missionário de Tarso, viveu a imitação de Cristo na intensidade da conformação com a Imagem do Deus invisível (cf. Cl 1,15). Não se trata de nenhum complexo psicológico ou produto de uma frustração por sofrimento subido, mas fruto da “empatia”, isto é, de ter assumido a vida de Cristo (cf. Fl 1,21).
“Trazer as marcas de Jesus”, expressão encontrada na Carta aos Gálatas, se une àquelas palavras contidas em Colossenses:

“Alegro-me nos sofrimentos que tenho suportado por vós e completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Isto significa: a vivência da fé nos leva à solidariedade com o semelhante. Não fazemos a experiência cristã sem ter uma “pró-existência”, ou seja, assim como Jesus viveu para os outros, o cristão só pode sê-lo na união com Cristo crucificado-ressuscitado e no amor aos irmãos e irmãs.

Que o exemplo de São Paulo nos ensine a fé não para “prosperar” nas coisas do mundo, mas para transformar o mundo, e ser como Ele, consagrados para santificar o mundo.

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