Voz do Pastor › 23/03/2018

Um encontro cheio de ternura

Queridos irmãos e irmãs!

Nesta sexta-feira, 23 de março, a Igreja Católica, em Natal, realiza a “Procissão do Encontro”. Uma procissão tradicional, realizada com as imagens do Senhor Bom Jesus dos Passos e da Virgem Dolorosa, Senhora da Soledade. As imagens saem da Igreja Matriz do Bom Jesus das Dores, na Ribeira, e da Igreja Matriz da Apresentação, respectivamente. Essa procissão relembra o encontro da Mãe e do Filho, que caminha com a cruz até ao Calvário. Embora não esteja relatada nos Evangelhos, a tradição da Via-sacra coloca na 4ª estação esse encontro: “Jesus encontra sua mãe!”.

Na verdade, esse encontro é consequência do significado da missão da Virgem Maria: “Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe: ‘Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição – uma espada traspassará a tua alma! – e assim serão revelados os pensamentos de muitos corações’” (Lc 2,34-35). A mãe de Jesus não está dissociada da obra do Filho, aliás, se não fosse para ser associada a tudo o que diz respeito a Jesus ela não teria sido escolhida para ser a Mãe do Senhor. São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, expressa isso quando argumenta sobre a Ressurreição de Cristo e a nossa ressurreição: “Cada qual, porém, na sua própria categoria: como primícias, Cristo; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda” (1Cor 15,23). A primeira pessoa que pertence a Cristo, por ocasião de sua vinda, é Maria de Nazaré: “O anjo, então, disse: ‘Não tenhas medo, Maria! Encontraste graça junto a Deus. Conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus!” (Lc 1,30-31).

O encontro da mãe com o filho, seu filho, o Filho de Deus, manifesta a ternura da Mulher, criada por Deus à sua imagem e semelhança. Um encontro que culmina na Cruz: “stabat mater dolorosa, iuxtra crucem lacrimosa”, “estava, de pé, junto à Cruz, sua mãe” (Jo 19,25). Portanto, esse encontro é algo fundamental para entendermos a missão da Virgem Maria, pois faz parte do realismo da Encarnação.

A Igreja reconhece que, a partir da Cruz, a mãe de Jesus está olhando para todos os seguidores de seu Filho. Assim como, no Calvário, antes de sua morte, Jesus entrega sua mãe ao discípulo amado (cf. Jo 19,27), ao encontrar o seu Filho, no caminho até ao Calvário, Maria encontra os homens e as mulheres, filhos e filhas no Filho. Expressa-se assim o Concílio Vaticano II: “Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na anunciação e que manteve inabalável junto à cruz, até à consumação eterna de todos os eleitos. De fato, depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo” (CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen gentium, n. 62).

Também hoje, a Mãe de Jesus olha por nós. Seu sentimento é o mesmo de Deus, pois quem está junto de Deus pensa igual a Deus, pois participa da vida dele. Assim, ao contemplar o encontro das imagens de Jesus, Servo sofredor e de Maria, mãe dolorosa, somos chamados a confiar na graça amorosa e misericordiosa do nosso Deus. Ao encontrar a sua mãe no caminho com a Cruz, Jesus olha para aquela que foi chamada pelo Anjo de “kekaritomene”, isto é, cheia de graça. Ser cheia de graça significa que a jovem virgem de Nazaré era uma pessoa cheia de ternura, de compaixão. Nela Deus fez habitar o Amor, e por isso, ela cuidou do seu Filho, feito carne em seu seio. Também nós, filhos e filhas no Filho, somos amparados por Ela. Deus a fez participe de sua ternura. Ao contemplar a Virgem dolorosa, peçamos que também nós, sejamos consoladores dos irmãos e irmãs, crucificados pela maldade, pela intolerância e pela hipocrisia de tantos. Ao aproximar-nos da Semana Santa, peçamos a Jesus crucificado que encontremos os irmãos e irmãs e cuidemos dele, pois assim cuidaremos do próprio Senhor (cf. Mt 25,40.45).

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