Voz do Pastor › 05/08/2016

Vocações, universo de misericórdia

Queridos irmãos e irmãs!

Iniciamos o mês de agosto, Mês vocacional. Dentro do Ano Santo Extraordinário, Jubileu da Misericórdia, somos chamados a refletir sobre a relação entre vocação e misericórdia, uma reflexão necessária, pois toda vocação é expressão da misericórdia divina. Em primeiro lugar, vocação é um chamado para relação. Antes da funcionalidade da vocação, devemos reconhecer a realidade mesma do chamado como experiência de relação: Deus chama o ser humano para estar em comunhão com Ele. Essa é realidade fundamental. Assim, podemos afirmar: Deus cria o ser humano para se unir a ele. Como nós precisamos enfatizar essa verdade. Que Deus seja o nosso Benfeitor, isto é, que recebamos dele os dons que necessitamos para viver, vida, saúde, sustento, alimentação, trabalho, paz e sossego, tudo isso é verdade. Mas, o que é fundamental na fé é a percepção e aceitação de que Deus mesmo, em pessoa, vem ao nosso encontro. Essa é a base do significado de vocação. Todos os homens e mulheres vem ao mundo “vocacionado”, isto é, chamado para essa união.

Em segundo lugar, tal união é expressão da palavra “misericórdia”. Ela não está somente relacionada ao pecado, como se não tivesse acontecido o pecado não teríamos necessidade de falar de misericórdia. Ao contrário, falar de misericórdia é falar da atitude fundamental de Deus em relação a nós. Isto é, nós somos sempre diferentes de Deus, imperfeitos, finitos e necessitados dele. É certo de que Ele nos criou para sermos dele e isso o compromete a nos conservar sempre renovados. Mas, isso é totalmente gratuito de sua parte. E é nessa gratuidade onde se fundamenta a misericórdia, isto é, Ele está sempre conosco. É essa sua presença amorosa, benevolente e graciosa que faz de nós homens e mulheres chamados à felicidade. Essa é a nossa felicidade: vocação, caminho de felicidade. Se Deus não tivesse sustentado a nossa vida, não subsistiríamos (cf. Sb 11,24-26), inclusive se não tivéssemos pecado. Mas não teríamos pecado se não tivéssemos nos afastado dele. Misericórdia é isso: Deus cria para se unir ao ser humano e não deixa que nada impeça essa união, nem a liberdade humana, nem a ingratidão de rejeitar ser amado.

Por fim, e a partir disso, vem a funcionalidade da vocação. A vida de comunhão com Deus é por natureza anunciadora, testemunhal. Quando tomamos consciência da relação que Deus estabelece conosco e assumimos essa mesma relação, então nós nos tornamos anunciadores, testemunhas da graça de sermos envolvidos por Deus: leigos e leigas, casados ou solteiros, fiéis engajados que assumem o batismo nas nossas comunidades e paróquias, padres, diáconos permanentes, religiosos e religiosas, catequistas e todos os outros agentes de pastoral vivem essa realidade, não somente como função mas como experiência de relação com Deus. Essa experiência é o que chamamos de espiritualidade ou carisma, fonte de riqueza da própria Igreja. É salutar, portanto, que o nosso discurso sobre vocação não se limite a firmar somente a vocação sacerdotal e religiosa. É ensinamento da Igreja que o batismo é a fonte de todas as vocações.  E que vocação é um universo multifacetado: homens e mulheres, leigos e ministros ordenados, religiosos e religiosas, todos somos vocacionados, todos temos uma vocação. Alias, há uma vocação originária, base para todas as vocações. Ela vem expressa na Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen gentium, do Concilio Ecumênico Vaticano II, onde se lê que há um chamado universal à santidade: “Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (1 Tess. 4,3; cfr. Ef. 1,4)” (CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, n. 39).

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