Artigos, Notícias › 22/02/2018

Mídias Sociais: novos espaços de tentação

Por Pe. Matias Soares
Do clero da Arquidiocese de Natal, residente em Roma

É categórica a constatação de que as novas tecnologias demarcam o horizonte e a época contemporânea. É o referencial da hermenêutica desta mudança de época. É a grande revolução social que está transformando a psicologia humana. Já há uma preocupação de saúde pública que trata o vício destes novos meios, como uma dependência pior do que a das drogas. Para simples observadores dos fenômenos sociais, basta contemplarmos o que acontece nos metrôs, nos ônibus, entre os casais, grupos de amigos, escolas, universidades, igrejas, ambientes de trabalho e assim por diante. É alucinante.

O grande sociólogo, recentemente falecido, Zigmunt Bauman, num diálogo com Ezio Mauro (Cf. Babel: entre a incerteza e a esperança, pag. 79-141) trata da penetração que estas novas ferramentas estão tendo nas camadas sociais, e que nesta sociedade líquida, estão condicionando os solitários interconectados. São os novos púlpitos que fomentam o que pode ser percebido como “verdade”.

Na última mensagem para o Dia Mundial das Comunicações, O Papa Francisco avançou numa problemática que está relacionada com o dilema que diz também o que está sendo concebido como o momento da pós-verdade. O Pontífice usa uma citação de Dostoiévski para descrever o que a experiência da mentira como “fake news” causa, não só como experiência social e política, como também na vida pessoal: «quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo» (Os irmãos Karamazov, II, 2).

As novas mídias sociais estão sendo realmente revolucionárias da condição humana pós-moderna. Não se entende mais o humano na contemporaneidade sem vinculá-lo ao tipo de relação que existe com esses novos mecanismos de interação. Essa dependência das pessoas dos meios tecnológicos sempre existiu. Contudo, as novas mídias estão exercendo um fascínio ainda maior e, através delas, novas ordens sistêmicas estão sendo projetadas. Como animal ansioso de comunicação, por ser genuinamente social, o modo quantitativo e qualitativo das pessoas relacionarem-se se ampliou globalmente. Quem está perto, pode estar longe e quem está longe, pode estar perto. As relações passam a ser mais temporais que espaciais. Interagimos com quem nos é aprazível e quando nos é atrativo. Segundo Bauman, a mesma facilidade que temos para nos conectarmos, podemos ter para nos desligarmos. A instantaneidade dos relacionamentos é sem compromissos.

Por questão interdisciplinar e espiritual me senti instigado a transcrever algumas ideias sobre este tema por causa do evangelho deste último domingo 1º domingo quaresmal (Cf. Mc 1,12-15). Alguém pode achar estranha a relação, mas o tema da tentação nas mídias sociais é mais atual do que muitos assuntos abordados por causa destes instrumentos. Que o digam os psicólogos e quem é estudioso do fenômeno humano, enquanto tal. Como sacerdote, me arrogo a dizer que vamos um pouco além. Por ser um espaço de interação ao qual a maioria das pessoas que o usa não está preparada para fazê-lo, e aqui a preocupação, mesmo sendo mais ética, precisa ser pensada também numa perspectiva emocional, afetiva e intelectual, colocando em realce uma antropologia integral e integrativa. Por isso, muitos problemas estão vindo à tona; pois o que está em causa é o ser humano, que não pode ser objeto, e sim sujeito. O mercado está instrumentalizando a pessoa humana. É objeto de manipulação e possibilidade de consumo.

Como Jesus, as pessoas podem ser tentadas a se esquecerem do que é essencial e verdadeiro da vida. O argumento usado por satanás para tentar Jesus será a negação da centralidade de Deus, pela oferta de possibilidades materiais e de poder. Nas mídias sociais, a nossa confusão em discernir o verdadeiro do falso, pode fazer com que tornemo-nos “indiferentes ao outro”. Sem controle e discernimento no modo de usá-las, não teremos um lugar comum real e autêntico, a saber: aquele do cuidado do marido para com a esposa, filho(a) para com os pais, fraternidade construída na comunhão e no diálogo, nas refeições, nas partilhas de vida no face a face, de quem está aqui e agora, neste lugar visível, notório e contemplativo.

Não quero, nem sou ingênuo, em almejar “satanizar” às mídias sociais. Não! Que não seja mal interpretado. O que estou colocando em discussão é o modo responsável e consciente do uso destes lugares que já transformaram as nossas vidas e a da sociedade. Para sair do foco, ao qual me propus, deixo as seguintes provocações: que tipo de tentações podem nos envolver quando usamos esses espaços de interação, mas que podem ser também de ofuscamento da nossa dignidade e das dos outros? Será que nos esquecemos dos mais próximos de nós, por causa destas relações líquidas? Usamos estes lugares para destruir, denegrir, caluniar e difamar as pessoas? E as traições matrimoniais, que são objeto de tantas queixas pelos cônjuges nas partilhas e lamentações auriculares: como são enfrentadas e resolvidas na vida conjugal? Há tantas questões em jogo e que são delicadas.

Por fim, estas preocupações, neste momento imediato da nossa história devem ser enfrentadas em vários ambientes de diálogo e aprofundamento. Não podemos negligenciar o sentido e a importâncias destas mídias sociais para as pessoas de hoje. É mais dos sinais dos tempos que todos nós, por via direta e reflexiva, e também indireta e usual, temos que entender, não para negar; mas para se apropriar como sujeito e protagonista. Assim o seja!

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