Ministros ordenados: a quem servem?

Por Pe. Matias Soares
Do Clero da Arquidiocese de Natal, estudando em Roma

A Igreja vive um momento de graça com o pontificado do Papa Francisco. É tempo de avaliação e discernimento. A atenção é voltada às reformas que precisam ser feitas. Vale lembrar que, segundo o Pontífice, as mesmas são, antes de tudo, pessoais. Assim como o Concílio Vaticano II teve a preocupação de colocar a Igreja diante dos novos sinais, que estavam candentes nos tempos de então, com a mentalidade moderna, o atual Sucessor de Pedro, em plena sintonia com as intenções pós-conciliares, tem a preocupação de situar a Igreja neste Terceiro Milênio que apenas se inicia. Quem observa a prática pastoral de Francisco, tendo em vista a eclesiologia conciliar, suas repercussões no magistério eclesial latino-americano, e, de modo muito particular, a partir da V Conferência de Aparecida, vai entender melhor o que estamos vivendo na atual conjuntura eclesial e o que ele deseja para a Igreja neste período pós-moderno.

Não é em vão afirmar que a gramática referenciada é o Evangelho. Ele afirma categoricamente que a força da Igreja é o Evangelho. Não são ideologias, confrontos de direita e esquerda, apegos ao poder, ao dinheiro, carreirismos e outras formas de apegos idolátricos, que só levam os filhos da Igreja ao mundanismo espiritual, o ponto de partida para que a Igreja assuma a sua razão de existir, ou seja: evangelizar. O Papa Francisco é um dos grandes sinais de esperança para o Mundo que, providencialmente, está à frente da Igreja nos dias atuais. Ele tem clareza de qual é a missão da Igreja e dos seus ministros ordenados. Confio plenamente nesta assertiva, pois não vejo na história contemporânea outra personalidade que diga ao Mundo, com a sua vida e o seu testemunho, que o amor pode vencer o ódio, que a misericórdia pode gerar a reconciliação e que o diálogo pode proporcionar a paz, que é fruto da justiça.

Diante do que podemos contemplar, há algo que nalgumas situações pode nos deixar perplexos e nos questionar: por que alguns ministros ordenados rejeitam as reformas estruturais e práticas pastorais queridas pelo Papa Francisco? Quero deixar uma resposta, que pode e deve ser discutida por outros que tenham essa preocupação, a saber: “a rejeição e a não aceitação das mudanças acontecem porque os ministros ordenados são mais fiéis ao que é petrificado do que convertidos ao Evangelho”. A dificuldade de acolher as novidades que são próprias da ação de Deus na história, que é Kairós, tem relação com a dificuldade de conversão ao que é de Deus, sempre atuante através da Igreja, que é vocacionada a ser Sacramento de Salvação.

Há uma grande questão de manutenção do status quo. A estruturação eclesial que foi sendo constituída historicamente subjugou, em muitos momentos críticos da Igreja, em que ela deveria ser fiel ao projeto do Reino de Deus; tornando secundário e relativo o que é próprio do Evangelho. O grande medo de muitos ministros ordenados é que a fidelidade ao Evangelho desconstrua as seguranças humanas e institucionais que foram sendo concedidas a quem foi ordenado, não por uma opção fundamental pelo Senhor, que autenticava um Estado de Vida, mas por uma condição de seguridade que os aparatos institucionais ofereciam. Jesus ao instruir os seus Apóstolos sobre o que fazer, e o que aconteceria com eles na ação missionária, pede que eles “não tenham medo” (Cf. Mt. 10). Esse capítulo é uma chave de leitura fundamental para o que os ministros ordenados são chamados a viver nos tempos hodiernos, tendo em vista a providência divina; pois é o Evangelho que fortalece e dinamiza o que precisa ser a Tradição Viva, sempre em reforma, sem esquecer o essencial, porque é constantemente chamada, nos seus membros, à conversão permanente. O que transparece é que o Evangelho não toca os corações de quem não assume a caminhada da Igreja em comunhão e na liberdade.

Enfim, deixo essa provocação que, em hipótese alguma, é um desmerecimento da totalidade; mas, um questionamento a “alguns” que não estão com os corações abertos a repensar os novos ritmos pastorais, que, como servidores do povo de Deus, somos chamados a rever, tendo em vista o que é enfático na pregação de Jesus Cristo e que deve ser, em todos os tempos, da sua Igreja, muito especialmente, através dos seus ministros ordenados. Assim o seja!

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