O dinamismo do ECC

Por Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Mirassol

O ECC é o encontro de casais com Jesus Cristo. A definição contida no Documento Nacional é a seguinte: “é um serviço da Igreja para evangelizar a família, primeiro núcleo da inculturação e da evangelização, ‘Igreja Doméstica’ e ‘Santuário da Vida’, e para despertar os casais para as pastorais paroquiais, devidamente integrado na Pastoral de Conjunto da (Arqui) Diocese” (DN,1.1). Minha intenção não é entrar na estrutura do documento e apresentá-la; mas, trazer algumas percepções que são substratos teológicos e antropológicos deste serviço que existe para o bem das famílias e da Igreja de Jesus Cristo.

Na teologia contemporânea a relação entre fé e afetividade é indispensável. A afirmação de que a graça pressupõe a natureza foi um pouco esquecida em alguns momentos e espaços da espiritualidade cristã. A bipolaridade entre alma e corpo tem sua marca na teologia. A influência platônica teve sua penetração e reconquistou lugares antropológicos na Pós-modernidade. Contudo, esta não é a impostação da reconhecida antropologia cristã católica. Segundo o ensinamento da Igreja “a unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve considerar a alma como a ‘forma’ do corpo; ou seja, é graças à alma espiritual que o corpo constituído de matéria é um corpo humano e vivo; o espírito e a matéria no homem não são duas naturezas unidas, mas a união deles forma uma única natureza” (CIC, 365).
Essa concepção é basilar para compreendermos a genuína e consistente espiritualidade de quaisquer comunidades cristãs e suas representações. Penso que estamos tendo complexidades na apreensão do que seja uma integral e integrante forma de viver a relação com Deus. Por isso, somos chamados a sentir os sinais dos tempos e o modo como muitos fiéis podem viver a vocação cristã, ou não.

A dinâmica do ECC é fundamentalmente a de possibilitar um encontro com Jesus Cristo. A espiritualidade do serviço-escola é cristocêntrica. Para isso temos que seguir o esquema que inclua fé e afetos na metodologia usada nos quase três dias de ‘confinamento’ dos casais, que trabalham e daqueles que participam do ‘evento’ na sua primeira etapa, já que será a que consideraremos. A engenharia é a seguinte:

1- Fé → testemunho → serviço: temos que partir da dimensão sobrenatural da organização do ECC. Sem essa abertura da mente e do coração para o que é pensado e vivido, pode-se cair no pragmatismo infecundo e superficial. A fé exige testemunho e ação. Não podemos assumir o pelagianismo, nem o gnosticismo, que podem ser grandes inimigos dos que estão à frente de toda a organização do encontro. O protagonista é sempre o Espírito Santo. Temos que estar dóceis ao primado da graça da Trindade (PP Francisco, Gaudete et Exsultate, 35-62).

2- Amor → afeto → emoção: o amor é o qualificador da vocação cristã, que nos leva à santidade. Na vida matrimonial não é diferente. A santificação acontece pela consagração do amor fiel de um ao outro. Esposo consagrado a sua esposa e essa consagrada ao seu marido. Ambos buscando a harmonia e a alegria da vida em família.  Através das palestras e testemunhos sobre a vida conjugal, os casais são instigados a pensar que caminhos podem seguir para viver as possibilidades humanas e existênciais da vida matrimonial. Há a motivação para que exista realismo no modo de viver o matrimônio, elevando o encantamento do primeiro encontro e da conquista que precisa acontecer diariamente, pelas atitudes que fortalecem as relações humanas e cristãs (cf. 1Cor 13,1-13).

3- Espiritualidade → família → paróquia: essa espiritualização arraigada no encontro com Jesus Cristo, através dos seus lugares objetivos, que promovem a conversão, a saber, a palavra, os sacramentos, a vida comunitária, a devoção aos santos e a Maria Santíssima, o amor aos pobres e a religiosidade popular, entre outros meios, são garantidos a permanência e o fortalecimento dos casais na vida familiar e eclesial, e mais especificamente na ação pastoral da paróquia. Quando não há empatia pela vida paroquial e adesão ao seu dinamismo missionário, é sinalizado que a experiência do final de semana ficou na base dos afetos e emoções, mas que não promoveu a verdadeira mudança de vida.

Para superarmos muitas das críticas que são recorrentes ao ECC, temos que analisar a situação da espiritualidade cristã na pós-modernidade e os muitos atrativos emotivistas das relações pessoais que os casais estão atraídos a experimentar. Essa teologia afetiva, que está na fundamentação da espiritualidade do ECC, sintetizadas nos seus cinco pontos, precisa ser aprofundada (DN, 1.4.1). Tem que haver integração entre o natural e o sobrenatural; o encantamento afetivo e a conversão ao Evangelho. Isso exige de todos os formadores, sejam eles casais ou diretores espirituais, maior preocupação de ir além do que está na letra do Documento Nacional.

Como ponte de conversão e inserção dos casais na vida eclesial, acreditemos na grandiosidade deste precioso serviço-escola, que tanto bem já fez e ainda fará às milhares de famílias do nosso Brasil e outros países. Aqui na nossa Arquidiocese de Natal, especialmente, que neste ano de 2019 está celebrando os 40 anos de existência do ECC, o que temos a dizer é que agradecemos a Deus e a todos aqueles que fazem parte dessa belíssima história de amor e dedicação às nossas famílias. Que Nossa Senhora da Apresentação possa continuar intercedendo e fortalecendo essa trajetória que tantos dons e frutos geraram para a ação evangelizadora da nossa amada Arquidiocese de Natal. Deus abençoe a todos! Assim o seja!

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