Artigos, Notícias › 18/11/2016

O Papa Francisco, um Cristão

Pe. Matias Soares, do clero da Arquidiocese de Natal, estudando em Roma

Nestes últimos meses, principalmente nas conferências e aulas em que o magistério do Papa Francisco tem sido debatido, aqui em Roma, uma observação foi frequentemente feita acerca do que fala e faz o Pontífice: “Ele está atualizando o que é próprio do Concílio Vaticano II.” Aqui não esqueço das fontes e princípios de hermenêutica da teologia e do magistério católico contidos na Sagrada Escritura e na Tradição Viva da Igreja. Talvez, fosse mais coerente dizer que ele tenta, com o seu testemunho de vida, dizer não só aos cristãos católicos, mas também a todos aqueles que são de outras denominações que professam a mesma fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, e ao Mundo, que a nossa fé, a partir da experiência da conversão, tem força para transformar e salvar todas as realidades. O Papa Francisco é um Cristão.

O que me deixa mais perplexo é o fato de que há, principalmente por parte de ministros ordenados, uma certa “resistência” ao que o Pontífice quer fazer nas estruturas eclesiásticas. Recentemente, saiu uma obra “La riforma e le riforme nella Chiesa“, na qual já nos primeiros capítulos é dito que a maior reforma que o Papa deseja fazer na Igreja é espiritual. É notória a afirmação de Francisco sobre a mundanidade presente nas estruturas da Igreja. Já quando era Arcebispo de Buenos Aires tinha essa percepção. Esse pensamento é do grande teólogo De Lubac, mas também já lido por mim numa sintético e belo livro de outro grande jesuíta chamado J. Danielou. Ambos foram importantes para as renovações pre e pos conciliares. Vejamos que aqui estamos diante de horizontes que têm no Evangelho e na Tradição Viva da Igreja as suas fontes. O Papa Francisco tem ciência de que a Igreja não pode estar falando para si mesma. Se o faz, sinaliza que está enferma. Curvada sobre si mesma. Traindo a sua identidade que é de ser evangelizadora. Tem algo errado na incapacidade que alguns estão tendo de acolher as propostas pastorais que ele vem tentando implantar e renovar. É como se quiséssemos continuar a falar para nós mesmos, sem querer “sair” para anunciar e testemunhar o Evangelho a toda a criatura. As preocupações com as pompas, carreiras, títulos, divagações pre-modernas e fechamento para o Outro são mais fortes do que a atenção que precisamos ter para com os fenômenos que nos chamam a atenção para dizer: Vocês não foram fiéis ao Evangelho, como deveriam ter sido! Não fomos atentos ao que Jesus Cristo nos disse como deveríamos ter sido. A própria Europa que renegou as suas raízes cristãs está sofrendo as consequências desta “amnésia espiritual”. Há muita gente da Igreja iludida. A era da Cristandade não existe mais. A Igreja tem que converter-se, ou seja, fazer a memória da sua História para entender a si mesma. A impressão que temos, quando vemos críticas e resistências ao que o Papa faz, que são atitudes profundamente radicadas no Evangelho, é que de fato na Igreja há muitos católicos e poucos cristãos. Como é importante ouvir o Papa argentino dizer: “Eu sou pecador! Rezem por mim!”… Espero que não seja mal interpretado por alguns, mas a impressão que tenho é que só não entende o Papa, quem não entendeu o significado da “vida e do ser cristãos”.

Há que se ter presente que em outros tempos tivemos resistências a outros Papas. Posso falar dos que conheci, como João Paulo II e Bento XVI. Estes foram muitas vezes tratados, por alguns, com indiferenças. Nunca houve, nem nunca haverá unanimidade. Porém, devemos estar atentos à verdade e aos sinais dos tempos. O Papa Francisco sabe o que quer para a Igreja. Ele é uma benção de Deus para a Igreja e para o Mundo nas atuais circunstâncias. Como o Concílio trouxe um ar novo para a Igreja naquele tempo, ele está trazendo hoje. Aqui na Europa, o Concílio só aconteceu e foi refletido. Mas não colocado em prática. Na África já há um anseio por um Vaticano III, pois a Gaudium et Spes não tratou de questões prementes daquele continente. O Papa há ciência de tudo isso, e enquanto tenta mostrar possibilidades atuais, tendo o Evangelho como referência, há quem esteja esperando que tudo pare. Tem algo que eu não consigo entender. Parece que nos falta capacidade de sentir os sinais dos tempos. Sem renegar a verdade da fé, que não é nossa, não a possuímos, mas que nos possui, avançar para águas mais profundas. O caminho da Igreja é a pessoa. O ser humano. As estruturas físicas e coisificadas estão querendo atropelar e freiar o dinamismo do Espírito e a força transformadora do Evangelho. Temos que apresentar o conteúdo tão antigo e sempre novo: A Palavra que converte e salva, a mística sacramental, que nós perdemos. Como é urgente redescobrir a “beleza” da mística sacramental!

Por fim, a atenção que devemos ter com a espiritualidade eclesial. Esse amor a Jesus Cristo e a certeza de que somos pecadores. O Cardeal Martini dizia que a Igreja está atrasada uns 300 anos. Nos falava de três urgências para que pudéssemos avançar, a saber: “Conversão, Palavra de Deus e Sacramentos”. Tem algo aqui que não seja Cristão e eclesial, pergunto eu? O nosso maravilhoso Papa Francisco, me parece que de outro modo, nos diz a mesma coisa, penso eu! Assim o seja!

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