O protagonismo dos leigos: liberdade ou autonomia

Pe. Matias Soares, do clero de Natal, residindo em Roma

Uma reflexão que tenho feito, motivado pelo estudo de um dos documentos do Concílio Vaticano II, a Apostolicam Actuositatem, que trata da missão dos fiéis leigos na Igreja e no Mundo, tem me instigado cada vez mais a tornar sensível algumas ideias sobre a situação da relação e do testemunho dos fiéis lados com a Igreja e o Mundo na Posmodernidade.

O Concílio valorizou muito a responsabilidade e a liberdade dos fiéis leigos no exercício da sua missão na Igreja e no Mundo. Ensinou que todos fazem parte do único povo de Deus, pelo batismo. Tenhamos presente que isso representou um avanço fantástico na estruturação da identidade da Igreja. A imagem utilizada pelo Papa Francisco é de que a Igreja passa a ser uma pirâmide invertida (Papa Francisco, 17/10/2015). Esse discurso do Pontífice, na comemoração do Cinquentenário da instituição do sínodo dos bispos, é fundamental para o que podemos conceber como deverá ser o caminhar da Igreja neste terceiro milênio. A Igreja reconhece a liberdade que não tira a autonomia de nenhum dos membros da Igreja, mas que a fortalece. Leiamos e aprofundemos esse discurso que é emblemático para essa temática.

Na Apostolicam Actuositatem há um denso ensinamento sobre como deve ser a relação entre os fiéis e a Hierarquia. Eis um dos pontos: “o apostolado dos leigos, quer ele seja exercido pelos fiéis individualmente quer em associação, deve-se integrar ordenadamente no apostolado de toda a Igreja. Mais ainda, a união com aqueles que o Espírito Santo pôs à frente da Igreja de Deus (cfr. At. 20,28) constitui elemento essencial do apostolado cristão. E não é menos necessária a cooperação entre as diversas iniciativas apostólicas, que devem ser convenientemente dirigidas pela Hierarquia”(n. 23). Vejamos que a relevância é de incentivo e de integração na vida dinâmica e ativa da Igreja, que torne possível um caminho de comunhão e protagonismo de todos os envolvidos. Mais a frente, continuam os Padres sinodais: “Compete à Hierarquia fomentar o apostolado dos leigos, fornecer os princípios e os auxílios espirituais, ordenar para bem comum da Igreja o exercício do mesmo apostolado, e vigiar para que se conservem a doutrina e a ordem”(n. 24). Todavia, o reconhecimento da missão e da liberdade dos fiéis leigos na vida da Igreja, não significa que o caminho sinodal seja negado, nem, muito menos, violentado com a falsa compreensão do que seja a autonomia ou a liberdade.

Atualmente, há a constatação de que há um cisma submerso na vida da Igreja por parte de muitos membros da comunidade cristã, que não consideram seus ensinamentos doutrinais e morais (Cf. Pietro Prini. Lo Scisma Sommerso). Essa percepção da realidade exige a atenção aos sinais dos tempos e, muito especialmente, a concepção de autonomia e liberdade que penetrou na cultura contemporânea e sua consequência no ambiente eclesial. A ideia de autonomia pensada pelo Iluminismo, que pregou a libertação do sujeito de todos os meios e instituições exteriores à sua condição subjetiva, tem impactado muito fortemente as relações eclesiais. Para Kant, pensador máximo do tempo das Luzes, essa autonomia não precisava considerar os vínculos com o Estado, nem a Igreja. O individuo tinha que ser adulto. O que vivemos tem suas bases nestas concepções.

Hoje, existe uma antropologia pós-moderna, que mereceria um aprofundamento; todavia, a preocupação é dialética, para que possamos entender o tempo presente e seus desafios no modo com o qual as pessoas, e aqui entram todos os membros da comunidade eclesial, mantêm a relação com os outros e as instituições, numa época da liquidez dos fundamentos da Sociedade, incluindo o próprio Ser Humano. É notório que na Posmodernidade o que está prevalecendo é a ideia de indivíduo, mais do que a de pessoa. O pensador Romano Guardini faz uma análise relevante sobre a questão, diferenciado o significado de indivíduo e pessoa (Cf. R. Guardini. “Persona e Personalità”, pág. 21-31). Na Posmodernidade a pessoa é considerada objetualmente como indivíduo. O paradigma sociológico e biológico se sobrepõe ao subjetivo e espiritual. A pessoa torna-se individuo porque não é fim em si, mas meio. Configura-se uma “despersonalização” do sujeito. O ponto a quero chegar é que o individuo pós-moderno quer a autonomia, enquanto que a Igreja chama a atenção para a liberdade que é própria da pessoa em relação, consigo e com os demais. Sem consideração pelo outro, não há possibilidade de uma autonomia saudável e dignificante da condição humana, que se concretiza em Sociedade e nos vários contextos relacionais.

Neste sentido, a impressão que temos é que há um distanciamento do que esperava e desejava o Concílio Vaticano II para as pessoas que são membros da comunidade eclesial. Há uma imaturidade e limitação na concepção de liberdade na consciência de muitos Leigos e um modo individualista de conceber a liberdade. Como em tantos outros aspectos, esse protagonismo dos fiéis na Igreja e no Mundo está muito aquém do que era esperado acontecer na Modernidade, e agora nessa Hipermodernidade. Por isso, o Papa Francisco tem lembrado e até denunciado o clericalismo eclesial, que não é só culpa do Clero; mas do próprio Laicato que não compreendeu ainda qual seja a sua missão e responsabilidade na Igreja e no Mundo. Uns tornam-se clericalizados, condenando o Mundo, e outros secularizados demais, negando o que propõe a Igreja e o Evangelho.

O Papa Francisco, falando a um grupo de fiéis, lembrou a estes como deve ser a relação dos mesmos com os sacerdotes, chamando em causa o sentido da amizade: “um amigo me ouve profundamente, sabe ir além das palavras, é misericordioso com meus defeitos, é livre de preconceitos, não concorda sempre comigo, mas justamente por me querer bem, me diz sinceramente aonde discorda; está pronto a ajudar-me cada vez que caio” (Cf. Discurso a Serra Clube, 23/06/17). Cito essa passagem para confirmar e reiterar que a noção de protagonismo e autonomia na relação dos fiéis com os ministros ordenados não pode ser de confronto, nem desrespeito; mas de valorização e de importância de cada um na missão da Igreja. Pois, o que estamos percebendo nos últimos tempos, principalmente com as possibilidades de expressão e manifestação de pensamento, que foram obtidas pela utilização das Mídias Sociais, é de confusão e posturas que ferem completamente o espírito eclesial e cristão.

Longe de ter uma concepção minimalista do papel e da importância dos Leigos na vida da Igreja, que por sinal foi elaborada pelo modernismo, o que é preciso ter presente é um aprofundamento da questão. O Papa Francisco está dando orientações preciosíssimas e mostrando que o caminho é o da sinodalidade eclesial. Perceber o que está acontecendo na Igreja, em algumas situações é preocupante. É como se os seus membros estivessem no Mundo e fossem do Mundo; ou seja, esquecessem que a comunhão passa pelo testemunho de amor a Deus e ao próximo, começando dentro da própria comunidade eclesial. A liberdade e o protagonismo cristãos precisam ser o modo de existir do discípulo missionário de Jesus Cristo. Está aí a consistência da autonomia e da liberdade dos fiéis batizados. Parece que o paradigma político partidário, com suas polarizações, está tendo mais poder de atração do que a palavra de Deus e a Tradição Viva da Igreja, infelizmente!

A obediência, o respeito e a espiritualidade eclesiais são esquecidos quando estão em jogo os interesses individuais e grupais. Alguns são de Pedro, outros de Paulo, outros de Apolo, e assim sucessivamente; mas muitos estão esquecendo que todos nós devemos ser de Jesus Cristo, que pela Sucessão Apostólica, nos deixou a garantia da certeza da fé que professamos e da unidade que não podemos trair, nem tentar destruir com os nossos egoísmos e individualismos.

Por fim, que possamos avançar na busca pela maturidade eclesial e cristã! Nas comunidades eclesiais, fomentemos a formação permanente, a missão e a mística cristã. O protagonismo dos fiéis e demais membros da Igreja só acontecerá pela conversão a Jesus Cristo e por esta busca de compreensão da missão e do papel da Igreja, ontem, hoje e sempre. Assim o seja!

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