Artigos, Notícias › 28/08/2016

O relógio não pode parar: a vocação dos leigos como ação transformadora do mundo

Diác. Paulo Felizola
Coordenador do Setor Leigos, na Arquidiocese de Natal

 Diác. Paulo Felizola (1)Em carta ao Cardeal Marc Ouellet, Presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, datada de 19 de março do corrente ano, o Papa Francisco, ao discorrer sobre suas impressões acerca da participação pública do laicato na vida dos nossos povos, ressalta a necessidade de olharmos para o Santo Povo fiel de Deus e assim possamos nos sentir parte integrante dele e, portanto, podermos nos posicionar em relação aos temas que tratamos de maneira diversa. Somente esse olhar de pertença, diz Francisco, “…ajuda-nos a não cair em reflexões que podem, por si só, ser muito úteis, mas que acabam por homologar a vida do nosso povo ou por teorizar de tal modo que a especulação acaba por matar a ação. Olhar continuamente para o Povo de Deus salva-nos de certos nominalismos declarativos (slogan) que são frases bonitas mas não conseguem apoiar a vida das nossas comunidades. Por exemplo, recordo a famosa frase: «Chegou a hora dos leigos» mas parece que o relógio parou”.

Apesar do resgate que o Concílio Vaticano II fez, no que diz respeito, principalmente, ao papel e a vocação dos Fiéis Leigos, Francisco constata que teorizamos muito e nos enganamos com as belas frases, mas, concretamente, pouco fazemos. Não raramente encontramos os fiéis leigos e leigassem o preparo necessário para assumir responsabilidades importantes; sem espaço, em suas respectivas Dioceses,para poderem exprimir-se e agir; e, muitas vezes, vivem limitados às tarefas no interior da Igreja, sem nenhuma ação que demonstre um empenho real e concreto na transformação da sociedade, o que tem gerado no seio do laicato, em especial no da América Latina,um sentimento de dependência em relação ao clero e estes, por sua vez, desenvolveram uma independência em relação ao laicato.

Não deixar o relógio parar emerge, assim, comoo grande desafio e superar este desafio passa, necessariamente, pelo processo de conversão pastoral, na qual a conscientização da responsabilidade laical, seja tratada como prioridade,pois essa responsabilidade nasce do Batismo, quando somos incluídos no Corpo Místico de Cristo, na Igreja, na comunidade cristã, e da Confirmação, ao sermos fortalecidos com a fortaleza do Espírito Santo.Vista sob esse aspecto areponsabilidade laical é a responsabilidade do discípulo de Jesus, o que faz dos fiéis leigos e leigas detentores da missão de evangelizar e, portanto, de serem testemunho de Cristo onde quer que estejam.

A Igreja, o Corpo Místico de Cristo, não é um extraterrestre, ela é do mundo e está no mundo, ao mundo influencia e pelo mundo é influenciada, consequentemente, o fiel leigo, discípulo de Jesus Cristo, que testemunha onde quer que esteja, tem o mundo como primeiro campo e âmbito da sua missãoe a realidade temporal é o campo próprio de sua ação evangelizadora e transformadora. A vocação específica dos fiéis leigos e leigas é, portanto, a transformação do mundo, ao transformar todas as relações, sejam elas pessoais ou institucionais, sendo luz que clareia e indica os caminhos e sal que dar sabor, ao “pôr em prática todas as possibilidades cristãs e evangélicas […] presentes e operantes nas coisas do mundo”. (Evangelli Nuntiandi. n.70). Na prática, testemunhar Cristo como ação evangelizadora que transforma relações é fazer o que Cristo faria, ser como Cristo seria, comportar-se como Cristo se comportaria se no seu lugar estivesse.

Mas o relógio não pode parar, ou seja, não basta falar tem que fazer, tornar realidade a vocação dos fiéis leigos e leigas.É preciso força e coragem para desencadear o processo de conversão pastoral necessário, desenvolvê-lo e concretizá-lo. Nesse aspecto louvemos o que vem fazendo a Arquidiocese de Natal que, com o seu novo Marco Referencial da Ação Evangelizadora Arquidiocesana, ao pretender tornar-se uma Igreja constituída por uma rede de comunidades, prioriza o papel do laicato em sua missão transformadora, na medida em que abandona o modelo de Igreja piramidal, na qual o clero é o lugar central da ação pastoral e administrava e, ao estimular a formação de pequenas comunidades paroquias, permite aos fiéis leigos e leigas assumirem responsabilidades importantes, exprimirem-se e agir, segundo os seus dons, em comunhão com todo o clero, realizando cada um suas tarefas específicase assim vivenciado uma Igreja moderna, embora à moda das primeiras comunidades cristãs.

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