O valor simbólico das imagens sacras

Pe José Lenilson de MoraisPor Pe. José Lenilson de Morais
Pároco de Santana e São Joaquim, em São José de Mipibu

Temos assistido com preocupação as notícias de destruição de imagens dos santos católicos em nome da “fé” e da “arte” por vários Estados do Brasil. Passados 20 séculos de nossa cultura religiosa cristã-católica ainda encontramos muita ignorância e confusão em relação ao culto a Deus, a seus santos e o uso dos símbolos religiosos na Igreja Católica. Recordemos que, desde o início, não só a Igreja Católica venera ícones e imagens. Todas as igrejas, com origem nos primeiros séculos da era cristã, tem grande apreço por estes sinais sagrados. Pensemos, por exemplo, nas Igrejas ortodoxas e nas Igrejas coptas. Essas comunidades cristãs professam o mesmo credo dos católicos, celebram os Sete Sacramentos e veneram as imagens ou ícones do Cristo, da Virgem Maria e dos Santos.

A confusão aparece quando se leem algumas passagens da Sagrada Escritura, especialmente do Antigo Testamento, que condenam a idolatria dos pagãos, que adoravam as imagens de astros, animais e homens como seus deuses (confira alguns textos: Êxodo 20, 4; Deuteronômio 5, 8-10; Salmo 135, 15-18). Por que a proibição das imagens naquele contexto? Os hebreus estavam saindo da escravidão no Egito, começavam a se organizar como “Povo da Aliança” e precisavam formar bem sua identidade cultural a partir a fé de Abraão. Os povos da terra de Canaã (atual Palestina) já tinham sua cultura e seus deuses próprios, personificados nos ídolos. A proibição da fabricação das imagens aparece com o escopo claro de evitar a “contaminação” de Israel com os outros povos, que eram politeístas. Contudo, um olhar mais atento e menos fundamentalista da Bíblia, leva-nos a perceber que essa proibição encontra nos mesmos livros sagrados a sua relativização, isto é, a sua relação em dois sentidos: proibi quando é imagem de um falso deus, permite quando se trata de arte, embelezamento e simbologia. Confira você mesmo no Texto Sagrado: Êxodo 25, 18-22, onde Deus – que havia proibido a imagem de qualquer ser da terra ou do céu – manda fabricar dois querubins de ouro para embelezar a Arca da Aliança. O sinal visível dos querubins era tão importante que o próprio Deus é quem diz: “do meio dos querubins que estão sobre a arca do Testamento, falarei contigo” (Êxodo 25, 22). Em outra passagem Deus manda Moisés fazer uma serpente de bronze como sinal, e todo aquele que era picado por serpente e obedecesse a Deus ficaria curado (Números 21, 7-9). Esse fato foi tão importante para a fé do Povo de Deus que o próprio Jesus, praticamente na única vez que faz menção ao tema das imagens, disse: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que toda pessoa que nele crer tenha a vida eterna” (Evangelho de João 3, 14-15).

Para a fé da Igreja Católica e de todas as Igreja cristãs primitivas (ortodoxa, copta, siríaca, entre outras) há três tipos de culto: um culto exclusivo a Deus, culto de adoração: “latria”; o culto de veneração aos santos, chamado de “dulia” e o culto de veneração a Virgem Maria, denominado “hiperdulia”. Quando os cristãos tem atos de respeito e devoção para com os santos e suas imagens, eles de modo algum ferem os mandamentos de Deus; os cristãos da Igreja católica e de suas Igrejas irmãs sabem – em sua maioria – a clara diferença da adoração “de toda a alma, com todo coração e com todas as forças”, que damos só a Deus, daquela veneração de respeito, de louvor e gratidão devida a Virgem Maria e aos santos. Ninguém é obrigado a gostar de nossas imagens e de nosso modo de rezar, mas todos somos obrigados pela força do Evangelho e da Constituição Brasileira a respeitar o credo alheio. A onda de violação das imagens sagradas e de outros símbolos de nossa fé demostra não um maior conhecimento da Palavra de Deus, mas sim um fundamentalismo doentio e desprovido de argumentos. Na verdade, quem fere, persegue ou violenta em nome de Jesus já criou um ídolo dentro de si, pois tem no coração qualquer outra coisa, menos Jesus Cristo, o qual sintetizou “toda Lei e os Profetas” no amor a Deus…, que só é verdadeiro se for acompanhado do amor ao próximo (Evangelho de Mateus 22, 34-40).

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