Artigos, Notícias › 11/10/2018

Onde está a sabedoria?

Por Pe. Matias Soares, do clero da Arquidiocese de Natal, residente em Roma

As pessoas nunca tiveram tantas oportunidades de informação quanto estão tendo neste momento da história; e, provavelmente, no futuro próximo. A revolução digital potencializou essas possibilidades. É tudo tão rápido e instantâneo. Para quem tem acesso e sabe manusear estes novíssimos meios, o conhecimento é produto de livre acesso. Parece tudo tão maravilhoso e fácil. Há um bombardeio de dados que caracteriza também a dinâmica da Pós-modernidade. As pessoas podem não saber de nada, já que é tão imediato, porque podem conhecer tudo. Basta buscar o site certo, com sua oferta de dados. É a lógica do Pós-humanismo, que não é só uma questão do homem perder espaço para a máquina, mas também saber até que ponto ele é sujeito ou objeto do que ele mesmo criou.

Diante destas novas formas da condição Pós-humana, que a colocam diante de uma crise que de fato tornar-se-á existencial, outras vias de adaptação antropológica precisam começar a ser constituídas. Há a urgência de um novo humanismo, que eleve a capacidade das pessoas a visualizar a sua peculiaridade ontológica, que é de busca pelo absoluto. A tecnocracia e a idolatria ao dinheiro estão sufocando essa dimensão antropológica por excelência. As pessoas, há muito tempo, começaram a pedir socorro. Como houve o ofuscamento de Deus, então as compensações portadas pelo consumismo são empurradas como bases de satisfação e felicidade para todos. Tenhamos presente que existe uma lógica interna que nem sempre é percebida, mas só sentida.

As novas ordens sistêmicas, que cada um tenta implantar, têm essa característica: uma violência brutal ao significado da cultura e das suas formas construídas no decorrer do processo civilizatório, principalmente em nosso mundo ocidental. É como uma amnésia histórica que não é capaz de formar o novo, sem destruir o antigo. Por isso que, a constatação de que o conhecimento sem sabedoria é uma chave de interpretação para a compreensão desses novos sinais dos tempos. Nós temos muito conhecimento e informação; porém, sem a sabedoria que torna possível o encontro do passado com o presente, tendo em vista sempre o futuro deste Pós-humano. Revisitemos a construção conceitual do que é o tempo, em Agostinho, nas suas Confissões (Cf. Livro, XI). A mentalidade Pós-moderna absolutizou o tempo presente, sem uma referência a uma Senhoria objetiva. Tudo e todos assumiram esse lugar. A mitologia voltou a ter importância. A ruptura entre o conhecimento e a sabedoria é consequência dessa relação com o Absoluto, que foi rompida. O sentido da história, não só universal; mas também pessoal, perdeu a sua progressividade. As pessoas querem viver o hoje nas suas relações e possibilidades circunstanciais.

Não assumo essa preocupação, aqui, numa dimensão global. É muito mais complexo. A questão é mais a pessoa humana. Sempre chamamos à atenção para que haja uma centralidade da dignidade do ser humano em todas as derivações que o próprio constrói e organiza; todavia, a quem temos que responsabilizar ainda mais é o próprio humano. Um exemplo tão clarividente são os sinais de maldade, perversidade e indiferença das relações humanas nas atuais circunstâncias: xenofobia, ódio, discriminação, preconceito, racismo, intolerância. No nosso amado Brasil quantos movimentos contrários ao respeito neste tempo de política partidária! Há intolerância de todos os lados e de todos os lados há intolerância: direita contra esquerda, pobre contra rico, sul-sudeste contra norte-nordeste. É de uma irracionalidade humana e política sem igual. Num País multicultural como o nosso, como superar alguns destes tantos sinais da ausência de sabedoria humana?!

O problema é só de conhecimento? Está claro que não; pois, tanto os que estão nas universidades, quanto os que estão nos variados postos de convivência, assumem características semelhantes. O conhecimento foi instrumentalizado pela vontade de poder. Essa última dispensa a sabedoria, que é profundamente humanizadora, porque exige valores que promovem o reconhecimento dos seres humanos entre si, com atos de compaixão, respeito, solidariedade, justiça, igualdade, fraternidade e misericórdia. Podemos assumir a dimensão política partidária como exemplo: qual o sentido da política, quando esta só serve para a obtenção do poder, sem uma relação de dependência profunda com a ética? O político só precisa preocupar-se com a obtenção do poder e do fortalecimento do Estado? Mas, o que é o Estado sem a moralidade pública e o serviço aos cidadãos? Essa questão da ética das virtudes humanas está sendo retomada com uma urgência global. Outro exemplo, vejamos a situação da imigração como drama humanitário mundial!

Por isso, quando acompanhamos as neuroses extrapoladas simbolicamente nas mídias sociais, em nossos dias, precisamos parar para pensar o que existe de sintomático em tudo isso e o que é revelado acerca dessa Pós-humanidade. Não podemos entrar na lógica da disputa de conhecimento; pois nessa, todos perdemos para todos. Todos podem até criar Fake News, pois possuem conhecimento. A nossa preocupação precisa ser com a sabedoria: mais prudência, para os que ficam somente no humano e mais discernimento para os que desejam fazer o que Jesus Cristo ensinou e viveu. Com Ele, existe a possibilidade de uma referência particular e universal que, como já afirmei, a Pós-modernidade jogou fora. Porém, a possibilidade existe sempre para todos e nos lugares todos.

Na conclusão, devo provocar afirmando que o caminho a ser percorrido é exigente. O Cristianismo tem a Verdade sobre essa inquietação antropológica (Cf. Gaudium et Spes, 22), mas também, em muitos aspectos, vive essa fase de amnésia ontológica. Em vários contextos esqueceu a sua essência. Esses traços, sem dúvida, são ponderações, que espero ser questões que ajudem na construção de possibilidades dignas de conhecimento acompanhado de sabedoria numa época tão repleta de desafios humanos e sociais. Assim o seja!

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