Artigos › 09/03/2016

PADRE AGRIPINO

Assim foi conhecido e chamado durante toda a sua vida, o Mons. João Agripino Dantas, nascido na zona rural de Cruzeta em 09 de novembro de 1924, quando esta pertencia politicamente à cidade de Acari. Era filho do casal João Batista Dantas e Maria Margarida Dantas. Este casal teve cinco filhos, sendo três mulheres e dois homens, dos quais faleceram a filha primogênita e o primeiro do sexo masculino. João Agripino com menos de três anos ficou órfão. Ele, Estanislava e Olympia abraçaram a vida religiosa. Ele, como sacerdote da Diocese de Caicó e elas ingressando na Congregação das Filhas do Amor Divino, na década de 1940. Viveu grande parte de sua vida em companhia de sua mãe e de sua tia Verônica. Também conviveu longos anos com uma irmã de criação como se usava até há pouco tempo, chamar uma irmã adotiva. Trata-se de Josefa Araújo Fernandes de Souza que atualmente habita no Abrigo de Ceará-Mirim.

Sua mãe foi a primeira professora que o desasnou enquanto costurava pronunciando em voz alta o nome das letras e ele “com alegria e interesse as repetia”.

Cursou o primário em Jardim do Seridó no renomado Grupo Escolar Antônio de Azevedo, de 1934 a 1937. Concluindo a escola primária ingressou no Seminário de São Pedro em Natal.

Tendo terminado o Seminário Menor, partiu para a cidade de João Pessoa, prosseguindo os estudos no Seminário Arquiepiscopal da Paraíba, fazendo o curso de Filosofia no biênio 1944-1945.

Concluída a filosofia, partiu para Roma a fim de cursar teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, entre 1946 e 1950. Foi em seguida ordenado sacerdote no dia 04 de março deste mesmo ano na Basílica de São João de Latrão, em Roma.

Celebrou a primeira missa no dia 08 de setembro de 1950, festa da Natividade de Nossa Senhora no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, em Jardim do Seridó-RN.

O Professor e Educador

Todos os que passaram por sala de aulas ministradas pelo prof. Agripino são unânimes ao afirmar quão agradável e amistoso era o convívio professor-aluno, que se experimentava neste convívio. Era um modelo de mestre. Partilhava com os alunos o capital intelectual que possuía, sem vaidade ou orgulho, mas com segurança e sem autoritarismo.

Dialogava com os alunos e acompanhava solícito, cada um, com muita psicologia e didática.

Suas aulas não terminavam entre quatro paredes. Onde quer que o encontrássemos, tínhamos uma pergunta a lhe fazer ou uma dúvida a ser esclarecida. Sua disponibilidade e bom humor não falhavam. Era um autêntico mestre na cátedra e nas ruas.

Não fazia alarde de sua invejável cultura tendo um capital intelectual e cultural de que raríssimas pessoas podem se orgulhar.

Sua humildade e timidez o mantinham sempre no “seu lugar”. Sabia conversar e discutir com intelectuais e doutores como fazia com as pessoas mais simples que encontrava ao longo de seu caminho.

No dia 09/11/1996, Pe. Agripino assim escreveu:

O nosso mundo está descristianizado, secularizado, divorciado de Deus e dos valores espirituais.

A ética perdeu o seu embasamento religioso e ficou sujeita aos caprichos do individualismo mais radical.

Tudo passou a girar em torno dos interesses individuais e grupais sem vinculação alguma com os valores que, na filosofia cristã, sempre nortearam a conduta humana.

As novas gerações, mercê dos modernos meios de comunicação social, vivem imersas nessa realidade secularizada e alheia aos valores espirituais, vivem numa dimensão puramente horizontal, sem nenhuma referência aos valores transcendentais.

Precisamos nesse contexto, dinamizar nossa ação e converter-nos para um testemunho mais eficaz diante do nosso mundo e das realidades de nossa comunidade.

A vida é algo continuamente móvel e dinâmico. Evolui constantemente e se transmuda ao longo do tempo e do espaço. Mas, nessa corrida louca, de quando em quando é preciso parar. Parar para não perder de vista o rumo dos caminhos, parar para não perder as perspectivas da jornada. De onde em onde urge deter-nos um pouco, para reabastecer-nos, a fim de termos condições de retomar a jornada.

Pararmos para refletir, para fazer uma avaliação do presente e um planejamento a médio e longo prazo para o futuro.

O homem sensato e maduro é o que vive em função do futuro, aquele que tem metas e objetivos a realizar na vida.

Ora, que é o que nós constatamos geralmente? Muitos e muitos vivem apenas no presente, sem perspectivas de longo alcance para o futuro. Vivem apenas em função do prazer imediato. E isso cria um vazio, o chamado vazio existencial, o tédio diante da realidade prosaica da vida cotidiana.

No mundo moderno, apesar de tantas possibilidades criadas pelo surto da ciência e da tecnologia, apesar das mil e uma oportunidades surgidas, grassa o tédio, a angústia e a revolta. Em todas as partes do mundo, ocorre o fenômeno da contestação. A juventude protesta contra a ordem estabelecida, contra os valores da nossa civilização burguesa. E isso não somente nos países subdesenvolvidos, onde o fenômeno se poderia interpretar como uma revolta dos pobres contra os ricos, mas também nos países mais desenvolvidos do mundo. A juventude, mesmo oriunda das classes mais ricas, ensaia os mesmos gestos de protesto e rebeldia contra a ordem atual, mas não tem alternativa a propor. Ela sabe o quer destruir, mas não sabe o que construir.

Há uma angústia mais ou menos generalizada diante da situação atual e uma insegurança terrível diante do futuro. E, quase ninguém descobre que as raízes dos nossos males estão justamente no nosso afastamento de Deus.

O que multiplica os nossos males, os males contra os quais todos protestam, foi precisamente a nossa falta de fé, a nossa falta de amor ao próximo. Na proporção em que nós nos afastamos de Deus tornamo-nos também verdugos e algozes dos nossos semelhantes. Quando perdemos o sentido cristão da vida, quando deixamos de sentir-nos como irmãos, é que começamos a encarar os outros como rivais, como concorrentes e inimigos eventuais.

A nossa miopia continua a sugerir-nos que a solução de nossos problemas é a mudança das estruturas políticas, econômicas e sociais, quando, realmente o nosso problema são as estruturas interiores, o nosso relacionamento com Deus.

O mundo se transforma para melhor na proporção em que nós nos transformamos interiormente. Há muitas mudanças puramente superficiais que não resolvem problemas, precisamente porque não houve a conversão do espírito, a transformação interior do homem. Muitas vezes combatemos ferozmente apenas tabus e formalismo.

O Sacerdote

            Não se consegue dizer o que era maior na sua personalidade, se era a vastíssima cultura e erudição, a humildade ou mesmo a caridade. Era totalmente padre. Homem de muita oração. Recordo tantas vezes no Seminário de Santo Cura d’Ars à noite, ele chamando um dos seminaristas, a quem lhe dava normalmente por recompensa, três ou quatro laranjas, para ficar atento a fim de não o deixar de rezar o breviário às 22h00min, já exausto pelo trabalho do dia no magistério e no ministério sacerdotal.

            Durante nove anos que fiquei como sacerdote em Caicó, todos os sábados, precisamente às 14:00horas, quando num velho jeep, ele se deslocava para Serra Negra, sua paróquia, passava pela minha casa para se confessar.

Dom Manoel Delson, Bispo de Caicó que já o conheceu no ocaso de sua existência, quando ele vivia como um eremita recolhido, como pároco emérito em São João do Sabugi, assim escreveu:

            “No início do seu ministério, os tempos eram outros: o Padre, envergado na sua batina preta, era identificado, reconhecido e reverenciado por todos… “a benção padre!” Ele em tom de oração e súplica, respondia; “Deus te abençoe, meu filho, minha filha”; servia ao povo com bravura heroica, cumprindo com esforço estoico o jejum e abstinência então exigidos pela lei eclesiástica; aliás as leis eram muitas e severas; e o padre as cumpria com firmeza e espírito de entrega. Andava de cavalo, léguas e léguas, para confessar um doente que corria perigo de morte e para celebrar missas. Os sacrifícios pessoais eram enormes.

            Era um padre culto e acessível. Um padre cônscio da missão insigne de evangelizar. Suas prédicas bem elaboradas, verdadeiras aulas de religião, de bíblia e catequese. O ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo era traduzido com os argumentos do hábil professor e com o coração do pastor, que procurava incutir nos corações dos fiéis o sentido da vida e da esperança cristã.”

            O Pe. Agripino por onde passou como vigário, nos seus deslocamentos diários numa lambreta ou num jeep, era vista acompanhado pelas crianças que nunca tiveram antes o prazer de andar de carro ou mesmo de lambreta. E nem pensar num táxi!

            A criançada vibrava em poder andar alguns trechos no jeep do padre e sem ter consciência ou alcance para avaliar a grandeza de tão nobre, elevado e virtuoso “motorista”. Era também assim, que ele incansavelmente exercia seu ministério sacerdotal.

            Quando, na catedral de Caicó, em certas oportunidades vários sacerdotes iam ouvir confissões, ele era a tal ponto prudente que para evitar possíveis comentários sobre o padre e mulheres que vinham se confessar, se antecipava em dizer: “Vou confessar na fila dos homens”. Isso, porque em certas ocasiões, havia filas diversas.

A sua paciência ilimitada em ouvir as pessoas com seus problemas e dificuldades, angústias e até mesmo escrúpulos era algo edificante. Eu mesmo testemunhei isso durante toda a vida dele, desde a ordenação até os últimos anos.

Dom Tavares costumava dizer que Pe. Agripino era tão fino e fidalgo, sem falar na sua extrema caridade que para não dar um não a ninguém, era capaz de parar a consagração na missa, entre a da hóstia e do cálice, para benzer um terço, um quadro, imagem, cordão de São Francisco ou caixa de fósforos.

Naturalmente, a esse ponto nunca ocorrera. Contudo a imagem é elucidativa da conduta do abnegado e virtuoso sacerdote.

Sua impressionante humildade tanto quanto pôde, escondia o homem poliglota, estudioso e intelectual por, sem sombra de dúvida, a profundidade de sua vida interior exigia essa ascese.

O que ganhava como professor ou das modestas côngruas, demorava muito pouco em suas mãos. Havia pobres, pedintes e “assíduos fregueses” que não podiam avistar o padre sem lhe pedir uma ajuda, um adjutório ou medicamento. Quantas vezes eu o vi aflito dizendo: “Meu Deus, não tenho mais nada para dar àquela pessoa” e isso o fazia sofrer.

Acrescente-se a todas essas pessoas, aquelas que vinham tomar dinheiro emprestado e ele muito consciente sabia que jamais iria receber o empréstimo. Contudo, dizia ele que para não humilhar ninguém, fazia de conta que iria aguardar o pagamento do empréstimo.

Quando penso e recordo a pessoa do Pe. Agripino, um exemplo silente de tão grandes virtudes humanas, cristãs e sacerdotais, fico emocionado e me pergunto, como é possível ser tão grande e fazer-se tão pequeno. Quando mais de uma vez eu lhe perguntei se ele não tinha vontade de ir para um Centro maior de cultura, pois no meu julgamento, o grande mestre que ele sempre foi, deveria estar como professor na Sorbonne, na França. Ele sorria e mudava imediatamente de conversa e acrescentava: Viu Zé, o meu lugar é aqui”. Inútil insistir numa conversa que o deixava desapontado.

O Pe. Agripino sabia muito bem da minha imensa e incomensurável admiração pelo santo Padre João XXIII. Certo dia ele me contou que estando como estudante de teologia em Roma durante o pontificado do quase angelical Pio XII que impressionava a todos pela sua figura hierática quando na sedia gestatória se adentrava na patriarcal basílica vaticana, momento que parecia mais algo de celestial e transcendente do que um ritual humano e protocolar é sucedido pelo Bergamasco Cardeal Roncalli, na sede de Pedro. Quando os jornais, a rádio e os colegas noticiaram a eleição de João XXIII, ele disse consigo mesmo “o que eu vou ver no Vaticano, um papa idoso, gordo e bonachão, que não tem a cultura do Papa Pacelli?

Qual não foi a sua surpresa quando resolveu ir ver o novo Pontífice em sua primeira audiência! Quando este abriu a boca dirigindo-se à imensa multidão, disse-me ele: “as lágrimas caíram sobre o meu rosto, e meu orgulho caiu sobre a terra”. Vi que aquele homem é mais uma vez o que se lê na Bíblia. “Houve um homem enviado por Deus e seu nome é João”. Vejam que humildade do Pe. Agripino em reconhecer e dizer isso a um aluno seu, de matemática, em Caicó, tantos anos depois!

Impressionante era a sua maneira de celebrar a Santa Missa. Via-se em cada gesto a influência litúrgica de Pio XII. Seus braços se estendiam na medida exata, as cruzes traçadas sobre o cálice e a hóstia eram milimetricamente calculadas. Quando se encontrava na zona rural celebrando nas muitas capelas e, sobretudo nos incontáveis sítios, com muito cuidado e caridade dizia às pessoas: Eu mesmo vou fazer a leitura. Isso para evitar que se cometessem erros na leitura ou na pontuação das palavras. Era um perfeccionista discreto em tudo que fazia, e assim não admitia que houvesse nenhuma falha na celebração da Sagrada Eucaristia.

Seu “país de missão” foi sempre Caicó e cidades vizinhas. Ali ele santificou-se e santificou o povo.

Na sede da Diocese, escolheu os bairros da Paraíba e do Abrigo para sua maior atuação pastoral, precisamente por serem os bairros de gente de vida mais simples e também mais carente de assistência religiosa.

Nunca o vi pronunciando a frase: “Igreja dos pobres ou Opção preferencial pelos pobres”. Nunca assim falou, no entanto, viveu intensamente essa opção.

Jamais tirou proveito, qualquer que seja de senhoras de posse ou de prestígio social para depois gratificá-las com o ministério extraordinário da comunhão eucarística ou tratamento de muita intimidade. Assim, foi ele.

Natal, 03 de março de 2016

Cônego José Mário de Medeiros

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