Artigos › 04/08/2014

Utopias de paz de Hiroshima à Ucrânia e Gaza

Nos dias 6 e 9 de agosto de 2014, respectivamente, completam-se 69 anos que humanidade assistia a mais surpreendente tragédia de guerra, de até então: o duplo bombardeio das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, pelos Estados Unidos da América. Introduzia-se, na prática de guerra, o uso de armas de destruição em massa, explodindo-se artefatos atômicos, resultantes da fissura nuclear. Trata-se de uma mudança revolucionária na arte de guerrear. Os elementos utilizados a partir do núcleo atômico (prótons, nêutrons…) se encarregam de provocar reações, em cadeia, de sucessivas explosões, multiplicando a partir da ogiva matriz, ‘grávida’ de possibilidades mortíferas que propagam seu potencial destrutivo avassalador sobre o meio ambiente, reduzindo tudo a chamas incandescentes e a uma poeira contaminada, que tudo corrói, em frações de segundos ou minutos, provocando efeitos colaterais e genéticos sobre toda a biosfera a se prorrogar por décadas, fugindo por completo de controles convencionais já conhecidos.
A que se chegou, nessa data fatal, para as cidades japonesas arrasadas, resulta de uma sucessão de conflitos bélicos que foram se somando e se multiplicando, a partir de organizações de blocos de nações, de áreas de influência, de relações de mercados de exportação/importação, discriminações racistas, de ambições de países com projetos de expansão ou domínios imperiais. Tudo isso foi transformando a primeira metade do séc. XX num cenário propício para se conviver com as maiores tragédias vividas pela humanidade: a I Guerra Mundial (1914-1918); e a II Guerra Mundial (1938-1945), com consequências atuais.
Essa ótica realista: nem maniqueísta, nem reducionista, parte de fatos resultantes de maciços investimentos na fabricação de armas cada vez mais sofisticadas tecnologicamente. Os avanços científicos e outras magnas conquistas humanas de 1945 a 2014 não foram aplicados, prioritariamente, a serviço do desenvolvimento integral do “homem todo e de todos os homens”, como preconiza Paulo VI, na conclusão da encíclica Populorum Progressio, nº 87: “Desenvolvimento é o novo nome de paz.” Ao contrário, para o incentivo à solidariedade, melhoria da qualidade de vida, justiça e promoção humana cortou-se investimentos, desviando-os para aplicar na insaciável corrida armamentista, que em fases desse período, às vezes, chegou a mais de 50% do orçamento das nações. Merece aqui, um questionamento de como e o que foi feito com as famigeradas dívidas externas que exauriram as parcas economias dos países subdesenvolvidos, provocando conflitos internos e inviabilizando mudanças inadiáveis, além de provocar novas formas de violência e repressão.
Esquecer, no período, o os esforços feitos para por em relevo a luta pelos Direitos Humanos, de organismos do porte da ONU, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, ratificados, ampliados e aperfeiçoados pelo papa João XXXIII, em abril de 1963, na Encíclica “Pacem in Terris,” o documento mais lúcido e positivo que já se produziu sobre a paz, considerando-se todas as dimensões da vida, seus aspectos naturais e humanos.
Para superar a fatalidade de 1945 e outras inúmeras tragédias que, durante esses 69 anos, inviabilizaram a construção da verdadeira Paz há três atitudes que se evidenciam: aqueles que prosseguem em suas posições dominadoras e não abrem mão dos seus projetos imperiais, mantidos à revelia das demais nações. Usam, se necessário, os meios à disposição até a guerra total, armas convencionais, biológicas ou químicas; os grupos de resistência minoritários, que se congregam em células terroristas extremamente agressivas, para quem, os fins justificam o uso dos meios, dispensando apelos de uma ética de convenções humanas; há, por fim e, são muitos, os que sonham com a construção de uma outra convivência possível, capaz de banir o fator guerra, como caminho da paz. Dentre esses, incluo os Bispos reunidos no Concílio Vaticano II, com seu oráculo: “Toda ação bélica que cause indiscriminadamente a destruição de cidades ou regiões inteiras e seus habitantes é um crime contra Deus e contra a humanidade e precisa ser absolutamente condenado” (cf. GS. Nº 80). O que dizer dos acontecimentos da Ucrânia e da Faixa de Gaza?

 

Pe. Vicente Laurindo de Araújo, msf.
Vigário Paroquial de São Pedro – Alecrim – Natal

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