A miséria da fome no Brasil

Por Aluísio Alberto Dantas[1]

“O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isso lhe davam.”

(Lucas 15,16)

O Magistério da Igreja afirma que a gravidade da miséria da fome constitui uma injustiça escandalosa, ao ponto de incluí-la no quinto mandamento do Decálogo, proibindo que se faça algo com a intenção de provocar indiretamente a morte de uma pessoa. A Igreja segue a vida de Jesus, que foi compartilhada com a vida dos pobres, desde a manjedoura até a cruz; e vivenciada com a miséria da fome, sede, indigência, doença, injustiça e morte, principalmente dos pobres, indigentes e excluídos. A Doutrina Social da Igreja quer estar presente no vasto campo de atuação das obras de misericórdia de socorro a tantos irmãos necessitados que estão à espera de ajuda; tantos oprimidos que esperam por justiça; tantos desempregados que estão à espera de trabalho, respeito e alimento para não morrer de fome. O drama da fome no mundo convoca os cristãos para uma responsabilidade efetiva em relação a seus irmãos, tanto nos comportamentos pessoais como em sua solidariedade com a família humana (CIgC, 2269.2831).[2]

A literatura econômica descreve e analisa causas e implicações da fome, ressaltando contextos macro e microeconômicos. Destaca aspectos conjunturais e políticos que podem estar relacionados às estruturas e mecanismos financeiros, monetários, proativos e comerciais que orientam os mercados e as decisões econômicas. Partindo do pressuposto que a fome deriva, antes de tudo, da pobreza e da má distribuição de renda, a segurança alimentar das pessoas depende essencialmente do poder de compra dos consumidores.[3] O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), fundação pública federal vinculada ao Ministério da Economia, comprova o atual aumento da desigualdade de rendimentos da população brasileira. “Enquanto as famílias de renda muito baixa registram um recuo de 1,4% nos seus rendimentos médios reais no 2º trimestre de 2019, o segmento mais rico da população aponta uma alta salarial de 1,5%, o que evidencia o aumento da desigualdade.” (IPEA, 18/9/19)[4].

Estudos econômicos comprovam que o desperdício de alimentos é forte componente de desequilíbrio desse mercado, pois reduz a oferta, aumenta a demanda e contribui para a elevação de preço dos produtos. Pesquisas afirmam que o Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam comida no mundo. Estatísticas estimam que cerca de 35% de toda a produção agrícola produzida no território nacional vão para o lixo. A correlação numérica permite afirmar que, à época do estudo, mais de 10 milhões de toneladas de alimentos poderiam estar na mesa dos 54 milhões de brasileiros que estavam identificados como abaixo da linha da pobreza. Informações produzidas e divulgadas pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) fortalecem as hipóteses que justificam o desperdício com o agravamento da fome no Brasil. A entidade orçou em R$ 12 bilhões, o valor monetário dos alimentos que são jogados fora diariamente, “uma quantidade suficiente para garantir café da manhã, almoço e jantar para 39 milhões de pessoas.”[5]

Fiel ao Evangelho de Jesus Cristo e à Doutrina Social da Igreja, a 40ª Assembleia Geral da CNBB, realizada em abril de 2002, renovou a evangélica opção preferencial pelos pobres e conclamou todos os homens e mulheres de boa vontade para uma ação efetiva pela superação da miséria e da fome: “Atentos ao clamor de milhões de famintos em todo o mundo, queremos realizar em nosso país um mutirão mobilizando as dioceses, comunidades, movimentos e pastorais e assim unir-nos à caminhada de outros povos na conquista do direito ao alimento e à nutrição.”[6] Deve-se ressaltar, por fim, que a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), de 2015, aprovou o documento “Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável”. Essa agenda, proposta para ser implementada a partir de 2016, é um plano de ação que parte do reconhecimento de que a erradicação da pobreza, em todas as suas formas e dimensões, é o maior desafio global ao desenvolvimento sustentável. Um dos seus objetivos da ONU, até 2030, é: “Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”.[7] A Agenda da ONU merece a adesão da humanidade!

[1] Professor de economia da UFRN e UNI-RN. Ecônomo do Seminário de São Pedro. Agente da Pastoral Familiar da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Arquidiocese de Natal.

[2] Santa Sé. Catecismo da Igreja Católica. – Brasília : Edições CNBB, 2013.

[3] Equipe de professores da USP. Manual de Economia. 6.ed. – São Paulo : Saraiva, 2011 (cap. 5).

[4] IPEA. Desemprego diminui mais entre os jovens, mas desigualdade de rendimentos aumenta. www.ipea.org.br. Acesso: 19/09/2019.

[5] IPEA. Desperdício- Custo para todos – Alimentos apodrecem enquanto milhões de pessoas passam fome. Desafios do Desenvolvimento. Edição 54 – 30/10/2009. <www.ipea.org.br>. Acesso: 19/09/2019.

[6] CNBB. Exigências evangélicas e éticas de superação da miséria e da fome. – São Paulo : Paulinas, 2002.

[7] IPEA. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável. – Cadernos ODS. <www.ipea.org.br>. Acesso: 19/09/2019.

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