Artigos, Notícias › 13/04/2020

A presença da Igreja na crise social

Aluísio Alberto Dantas[1]

Documentos do Vaticano afirmam que a Igreja sempre esteve presente, com a sua doutrina social, em todos os momentos e situações em que a sociedade sofreu os efeitos de crises, conflitos, sofrimentos, misérias e demais fatos que eliminam o princípio universal da dignidade humana. A Igreja, conduzida por Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, não se cansa de anunciar o Evangelho que propicia salvação e autêntica liberdade. Mesmo nas coisas temporais, a Igreja sempre esteve inserida nas realidades da economia e do trabalho, da sociedade e da política, da técnica e da comunicação, da comunidade internacional e das relações entre as culturas e os povos (CDSIg,5)[2].

A história confirma que a humanidade foi vítima da grande depressão econômica no ano de 1926 – a maior crise do capitalismo, que provocou lamentáveis desastres de agressão à dignidade humana e à justiça social. A grande depressão provocou graves e criminosos efeitos socioeconômicos, destacando-se os elevados índices de desemprego, fome, miséria humana e lutas de classe. Além da Segunda Guerra Mundial, que foi o marco da crise política e econômica do século, a depressão de 1929 motivou mudanças estruturais do sistema capitalista, destacando-se a Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro, de autoria do professor John Maynard Keynes (1936), considerada a mais importante obra de teoria econômica do século XX.[3]

A Igreja não ficou omissa às crises sociais, econômicas e políticas dos anos trinta. Atualizando, ampliando e diversificando a sua doutrina social, o Papa Pio XI publicou a Encíclica «Quadragesimo anno», em 15/5/1931. Comemorando os quarenta anos da Encíclica «Rerum novarum» (15/5/1891), Pio XI “reafirma o princípio segundo o qual o salário deve ser proporcionado não só às necessidades do trabalhador, mas também às de sua família. O Estado, nas relações com o setor privado, deve aplicar o princípio de subsidiariedade, princípio que se tornará um elemento permanente da doutrina social. A encíclica adverte acerca da falta de respeito à liberdade de associação e reafirma os princípios de solidariedade e de colaboração para superar as antinomias sociais. As relações entre capital e trabalho devem dar-se sob o signo da colaboração” (CDSIg, 91).

O ensino social da Igreja atualmente está em forte evidência, considerando que a pandemia de coronavírus poderá causar “a pior crise econômica desde a Grande Depressão em 1929”, conforme estimou a diretora-gerente do FMI, que também alertou que países emergentes e pobres como os da América Latina “estão em grande risco” (Correio Brasiliense, 9/4/2020). É preocupante as dimensões previstas para uma recessão da economia mundial, para o ano de 2020 e com reflexos para anos subsequentes. O desequilíbrio macroeconômico pode gerar desemprego em massa, provocando crise de renda, miséria e fome, principalmente para as camadas mais frágeis, como ocorreu no ano de 1929. Assumindo o compromisso comunitário e os princípios do ensino social da Igreja para o enfrentamento da crise, o Papa Francisco anima todas as comunidades a uma capacidade sempre vigilante de estudar os sinais dos tempos e os desafios que que afetam a vida e a dignidade humana. Contestando a economia da exclusão, idolatria do dinheiro, desigualdade social que gera violência e alguns desafios culturais, ambientais, urbanos e de inculturação da fé, a Igreja solicita que todas as comunidades assumam o compromisso pastoral com a inclusão social dos pobres e marginalizados, com o bem comum e com a paz social. Afirma o Papa Francisco: “Não se fala apenas de garantir a comida ou um decoroso “sustento” para todos, mas “prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos”. Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho, porque, no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida” (EG,192). [4]

 

[1] Professor de Economia da UFRN (aposentado) e UNI-RN. Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório.

[2] Pontifício Conselho “Justiça e Paz”. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. – São Paulo : Paulinas, 2005.

[3] Keynes, J. M. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. – São Paulo : Nova Cultura, 1996.

[4] Papa Francisco. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. – São Paulo : Paulinas, 2013.

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