Artigos, Notícias › 12/07/2021

A verdade não causa danos

Por Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Mirassol – Natal

O mundo contemporâneo está vivendo a Era da Pós-verdade. Podemos chamá-la também como a do Pós-humanismo, Pós-cristianismo, e mais… tudo isso é fruto da projeção do sujeito e sua nova hermenêutica, que coloca a situação antropológica do momento Covid e Pós-covid como a do Ser Humano, não só como medida de todas as coisas; mas também, como formatador de Novas Coisas, nos lançando a uma ordem sistêmica de anormalidade e perplexidade.

Como cristãos, aprendemos que a Verdade é algo ‘libertador’ (cf. Jo 8,32). Precisamos conhecê-la. Quem a renega, nega o próprio Jesus Cristo (cf. Jo 14,6). Quem vive na mentira, de algum modo é mais seguidor do pai da mentira (cf. Jo 8,44). Escandaliza o povo de Deus e gera a morte, a indiferença e a descrença. Para nós cristãos, a verdade – mais do que a adequação da razão à realidade – é um encontro com a pessoa de Jesus Cristo. Na Época da Pós-verdade, o autêntico cristão, o ministro ordenado, como os demais membros do povo de Deus, mais do que nunca, é condenado a buscar e a viver a Verdade. Não confiar nisso, ou não viver de acordo com isso, é trair o que é próprio da identidade cristã. Mesmo ainda tendo tanta influência da filosofia platônica, convém assinalar que “se o platonismo nos dá uma ‘ideia’ da verdade, a fé cristã nos dá a verdade como ‘caminho’, e, só quando ela se torna caminho, vira verdade do ‘homem’. A verdade como simples conhecimento, como mera ideia, não tem força; ela só vira verdade do homem como caminho que exige a sua atenção e que ele pode e deve trilhar” (cf. J. Ratzinger, Int. ao Cristianismo, pág. 73).

O Cristianismo continua a ter um papel fundamental para a vida humana: tanto para quem é cristão, como para quem não o é. Não é secundário o fato de que os primeiros cristãos falavam das sementes do Verbo nas culturas e religiões não cristãs. A Igreja retomou este ensinamento no Concílio Vaticano II (cf. Ad Gentes, 11; Lumen Gentium, 17). Há um reconhecimento do papel existencial da fé nesta nova mudança de época e época de mudanças, que foi acelerada com a pandemia. O papel da sacramentalidade da Igreja nos coloca diante da urgência de nos completarmos com o mistério. Um ‘Acontecimento’ que vai sendo revelado pedagogicamente e no caminho existencial do discípulo de Jesus Cristo (cf. Lc 21, 13-35).

Na atualidade, o Papa Francisco tem sido esse ‘servidor da verdade’. O seu pontificado tem enfrentado muitos desafios e contrapontos ideológicos. É interessante constatar que a verdade incomoda. A postura de fidelidade evangélica do atual sucessor de Pedro tem tornado seu testemunho profético, não só para a Igreja, como também para o mundo. A sua preocupação com a transparência na administração da Cúria Romana; os casos de abusos sexuais de menores – que é a mais triste chaga existente na dramática situação da Igreja em todos os recantos da sua catolicidade -; a descentralização da ação evangelizadora, com suas dimensões administrativas, pastorais e de ensino, através das conferências episcopais; a grande preocupação com a temática da sinodalidade, que precisa ser o rosto da Igreja neste III milênio, dentre tantas outras intuições que estão favorecendo a fraternidade e amizade social em todo o globo. Já disse em outro contexto que a Igreja não estava preparada para o Papa Francisco; mas, como ele costuma dizer, o importante é ‘iniciar os processos’.

Enfim, neste momento tão crítico da história da humanidade, nós cristãos, membros da Igreja que é de Jesus Cristo, somos chamados enfaticamente a sermos ministros da Verdade. A hipocrisia, os escândalos, as desonestidades, a omissão, a covardia, a mediocridade, as idolatrias ideológicas e materiais, os lobbies, as discórdias, a irresponsabilidade e tantos outros vícios pessoais, que ‘desmoralizam e tornam as pessoas e instituições constituídas por elas sem credibilidade. A teologia cristã católica nos ensina que a caridade está em sintonia indissociável com a verdade (Caritas in Veritatem). Peçamos a Deus a graça da conversão permanente na busca pelo encontro com a Verdade. Assim o seja!

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X