Artigos, Notícias › 24/11/2021

Campanha da Fraternidade 2022 e Pacto Educativo Estadual

Por Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo Afonso M. de Ligório
Coordenador Arquidiocesano da Pastoral Universitária
Arquidiocese de Natal/RN

A Igreja Católica no Brasil já se prepara para viver a Campanha da Fraternidade 2022. O tema escolhido será: “Fraternidade e Educação”. Terá como lema: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (cf. Pr 31,26). Mais uma vez, a Igreja, através da CNBB, nos contempla a todos, homens e mulheres de boa vontade, cristãos ou não; católicos ou não; pertencentes a quaisquer denominações religiosas; ateus ou agnósticos; com suas concepções ideológicas, ou político partidárias diferenciadas; com uma oportunidade singular para pensarmos o sentido e a importância da educação. Enfim, como tão lucidamente ensinava o grande Bispo de Milão e membro da mesma ordem religiosa do Papa Francisco, o Cardeal Martini, “o que existe são seres humanos pensantes”, ou seja, com sua dignidade, liberdade, direitos e deveres, viventes e construtores da história, situados no tempo e no espaço, envolvidos no processo humanizante e civilizatório, que necessitam da aprendizagem para a harmonização consigo, com o outro e com Deus.

A temática tem por pressuposto motivador o ‘Pacto Educativo Global’, lançado pelo Papa Francisco, em 2020. Sobre o assunto o pontífice afirma: “A educação é, sobretudo, uma questão de amor e responsabilidade que se transmite, ao longo do tempo, de geração em geração. Por conseguinte, a educação apresenta-se como o antídoto natural à cultura individualista”. Na perspectiva assumida por Francisco, se faz necessário pensar em todo o ideário espiritual do Cristianismo, que, a partir de uma antropologia integral e integrante, sempre ensejou “promover o desenvolvimento do homem todo e de todos os homens. Um humanismo que não é limitado, fechado aos valores do espírito e a Deus. O homem pode organizar a terra sem Deus, mas ‘sem Deus só a pode organizar contra o homem. Humanismo exclusivo é humanismo desumano’. Não há, portanto, verdadeiro humanismo, senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma vocação que exprime a ideia exata do que é a vida humana. O homem, longe de ser a norma última dos valores, só se pode realizar a si mesmo, ultrapassando-se” (Paulo VI, PP 42).

O Pacto educativo global é um chamamento da Igreja para que todos os agentes sociais façam parte do processo que a humanidade precisa promover para que tenhamos um futuro melhor. Na Era da globalização, em tempos de transições que foram radicalizadas por causa da pandemia, perspectivas novas e ousadas, que visem o bem do ser humano, tão fragilizado e desconstruído sanitária, econômico, estrutural e subjetivamente, precisam ter um ‘lugar comum’ para que as pessoas possam sonhar, acreditar, construir e avançar na sua condição humana. Para isso, essa preocupação com a educação é, sem dúvida, o caminho a ser seguido por todas as células vivas da sociedade, desde os mais pobres dos pobres (Pe. Joseph Wresinski), os miseráveis, os que estão nas periferias geográficas e existenciais, até as instâncias mais representativas da coletividade; ou seja, quando o Papa fala de um novo Pacto Educativo Global, ele tem em mente um projeto “para e com as gerações jovens, que empenhe as famílias, as comunidades, as escolas e universidades, as instituições, as religiões, os governantes, a humanidade inteira na formação de pessoas maduras” (Francisco). Surge, nesta direção, a urgência de uma ecologia educativa, que não seja refém de sistemas ideológicos, com suas finalidades totalitárias e de manutenção de poder, pelo poder; sem compromisso com o bem comum, a verdade, e a justiça social para todas as pessoas, desde a já concebida no ventre materno até as demais e mais vulneráveis da sociedade.

Na percepção da filosofia da educação, no decorrer da história, não pode haver democracia, e caso exista, que seja desenvolvida, sem que haja o acesso para todos os cidadãos a uma educação de quantidade e com qualidade para aqueles que formam estados e municípios, assim como são estruturados os entes federativos do nosso País, incluindo o Distrito Federal. Uma das grandes lutas que devem ser encaradas pelos indivíduos constituintes de uma Nação verdadeiramente livre, esclarecida e democrática, é a da busca pela educação. No Brasil, é asseverado pela Carta Magna que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (cf. Art. 205). Ensejo chamar à atenção para duas prerrogativas postas pelo artigo que enfatizam o dever do Estado e a colaboração da sociedade. Nestas linhas estão a fundamentação para que todos nós, sujeitos sociais, possamos fazer um Pacto Educativo Estadual pela Educação.

É nesta abertura que entra a proposta da Campanha da Fraternidade de dois mil e vinte dois, que tratará da Educação com o seguinte objetivo geral: “promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário”. Não entraremos nas intenções mais específicas. O relevante é fazer ecoar, desde já, a beleza e a magnitude da questão extremamente importante para toda a situação dramática na qual está envolvido o nosso Brasil, globalmente por causa da pandemia, e o nosso estado do Rio Grande do Norte inserido, por vez, pelos seus problemas sanitários, econômicos, políticos e sociais, neste cenário tão complexo e desafiador. Não podemos, outrossim, esquecer que o drama é histórico e não é de hoje. A análise teria que ser mais aprofundada e com uma meta mais científica. Justamente que, por isso, pelo reconhecimento do valor e da importância da educação para o desenvolvimento integral de um povo é que poderíamos propor e unir forças para lançar um Pacto Educativo para o bem comum do nosso sofrido estado do Rio Grande do Norte, impulsionados pelos objetivos geral e específicos da Campanha da Fraternidade de dois mil e vinte dois.

Por fim, vale, mais uma vez, que nos debrucemos nas palavras do Papa Francisco, quando afirma que “é tempo de olhar em frente com coragem e esperança. Que, para isso, nos sustente a convicção de que habita na educação a semente da esperança: uma esperança de paz e justiça; uma esperança de beleza, de bondade; uma esperança de harmonia social”! Essa confiança que nos anima a acreditar em potencialidades a serem desenvolvidas e sustentadas na vida e para a felicidade das pessoas é uma chama que jamais pode ser apagada no coração dos homens e mulheres de boa vontade. Há a urgência da ecologia integral, da fraternidade e da amizade social (cf. Francisco, LS IV; FT VI). Esses nortes são importantíssimos para o despertar dos nossos desejos da promoção de um Pacto Educativo Estadual pela Educação. Assim o seja!

 

 

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