Artigos, Notícias › 16/03/2021

Clericalismo Eclesiástico

Por Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria e Ligório – Mirassol – Natal

O Papa Francisco, desde que iniciou o seu pontificado, tem insistido em denunciar a existência do Clericalismo Eclesiástico. Segundo ele, “o clericalismo é uma perversão na Igreja”. Para um maior alcance do que o sucessor de Pedro quer dizer com esta e tantas outras admoestações semelhantes, se faz necessário uma garimpagem de muitas de suas falas sobre a temática. Quem conhece um pouco da teologia patrística, vai perceber logo que a do Pontífice está muito associada à dos primeiros padres da Igreja. Para entrar nesta lógica é muito importante conhecer a História da Igreja.

Na atualidade, os documentos do Concílio Vaticano II são o parâmetro para a narrativa de quem estudou teologia. Para ser presbítero, todos nós devemos estudá-la. A eclesiologia do Concílio deveria ser internalizada por cada sacerdote que é filho deste grande acontecimento. Com ele, foi recolocada a ideia da Igreja como Povo de Deus (Cf. LG, Cap. II). A metáfora que é usada para apresentar esta nova face da Igreja é a de uma “pirâmide invertida”. Todos nós, somos membros deste corpo místico de Cristo, graças ao nosso batismo, que nos faz participantes do único mistério de Jesus Cristo, como sacerdotes, profetas e reis.

Dentre tantos ensinamentos ofertados aos fiéis acerca do que é a Igreja, aquele específico para os presbíteros como “colaboradores do Bispo diocesano” é um dos inovadores. Numa passagem emblemática, assim ensina o Concílio: “O Bispo, por seu lado, considere os sacerdotes, seus colaboradores, como filhos e amigos, à imitação de Cristo que já não chama aos seus discípulos ‘servos’, mas amigos (Cf. Jo. 15,15). Deste modo, todos os sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, estão associados ao corpo episcopal em razão da Ordem e do ministério, e, segundo a própria vocação e graça, contribuem para o bem de toda a Igreja. Em virtude da comum sagrada ordenação e missão, todos os presbíteros estão entre si ligados em íntima fraternidade, que espontânea e livremente se deve manifestar no auxílio mútuo, tanto espiritual como material, pastoral ou pessoal, em reuniões e na comunhão de vida, de trabalho e de caridade” (Cf. LG, 28).

Assim como a relação de Clericalismo ainda existe dos presbíteros para com o povo, da mesma forma ainda existe dos presbíteros para com os Bispos. A relação é de subserviência e não de ‘cooperação’. De infantilismo e não de maturidade com ‘hombridade’. Mas o que é ainda mais lamentável e doentio de tudo isso é que existe muito jogo de interesses. A estrutura e a hierarquia eclesiásticas são historicamente um bem para a constituição da engrenagem eclesial; todavia é, infelizmente, também fonte de muitas perversões humanas: Jogos de interesses, carreirismos, desonestidades, mentiras, falta de transparência, falsidades, brigas pelo poder, dinheiro e, mais recentemente, o ‘lobby gay’, tão disseminado e problemático dentro desta ordem sistêmica. Não precisa ir muito longe. Basta uma breve pesquisa e veremos como os fatos recentes da história da Igreja confirmam estes fenômenos. Os crimes de pedofilia são os mais recorrentes e hediondos que são noticiados.

O Clericalismo favorece todos estes fenômenos humanos e pérfidos. Ele desqualifica o real sentido e o valor do poder dentro da Igreja, que deve ter na prática de Jesus Cristo o seu maior e mais belo exemplo (Cf. Jo 13,12-17). O poder quando não é para o serviço, ofusca a ação do Espírito de Deus no corpo eclesial e desfigura o rosto materno da Igreja. O Clericalismo é uma forma humana, e demasiadamente humana, de renegar e trair o ministério presbiteral como serviço e ministério. Dentro da Igreja há muitos sacerdotes que se tornam novos ‘Judas Escariotes’ que fazem com que a Igreja de Jesus Cristo seja envergonhada.

Enfim, o que somos chamados a fazer é pedir ao Senhor a graça da conversão para todos nós. Cada presbítero pode estar engarrafado em situações adversas à natureza da vocação que um dia abraçou e que a Igreja confirmou, como Sacramento de Salvação. O remédio purgativo do Clericalismo na Igreja e, especificamente, na vida e ministério presbiterais é o Evangelho. Não podemos desanimar. Não somos anjos, mas também não podemos ser discípulos do Promotor da divisão e da mentira. Quem entra por esse caminho, renega o amor de Deus e cancela a luz que é chamada a reluzir como presbítero e levita do Senhor. Que Deus nos conceda a liberdade dos Filhos de Deus, longe do Clericalismo. Assim o seja!

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