Artigos, Notícias › 21/02/2021

Dom Eugênio e Campanha da Fraternidade

Por Pe. Matias Soares,
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Mirassol – Natal

A Igreja vive um momento complexo. Já o vivia antes da pandemia. O paradigma político tenta dividi-la. As contraposições ideológicas ganharam muita força com o uso, muitas vezes sem discernimento, das mídias sociais. Faz parte das ciladas do diabo e seus seguidores. Estes, por sua vez, cedem à tentação e geram o caos. A presença de Deus constitui a paz. Constrói a comunhão nas diferenças das missões. O fundamento desta conclusão está no próprio ministério da Trindade. É Ela o sentido primeiro e último do que acreditamos e somos chamados a fazer. Esse é o nosso ponto de partida.

Os narradores e conhecedores testemunhais da história afirmam que “Dom Eugênio e mais cinco sacerdotes, a saber: Alair, Tavares, Pedro Moura, Nivaldo e Expedito, numa visita à construção do açude do Pataxó (RN), escutaram de um homem o seguinte pedido: ‘Seu vigário não deixe a gente morrer de fome!’” Lá pelos idos dos anos sessenta, não só a fome; mas também toda uma estrutura opressora, onde a mortalidade infantil, a sede, o desemprego e tantos outros sinais da desigualdade social, assolavam a vida do povo nordestino.

Provocados por essa realidade de injustiças, iluminados pela Palavra de Deus, imbuídos de espirito pastoral, liderados por Dom Eugênio, confiando no protagonismo de religiosos(as) e de tantos fiéis leigos, na paróquia de Nísia Floresta, foi iniciado o que se chamou depois o “Movimento de Natal”. Além de várias outras iniciativas que favoreciam a dignidade da pessoa humana, criadas a imagem e semelhança de Deus, começou a existir a Campanha da Fraternidade.

Frequentemente eu escuto, de ignorantes da história da Campanha da Fraternidade, ou de pessoas de má fé, a falácia de que a Campanha foi iniciada por Dom Helder. E aqui, reitero todo a minha admiração à pessoa de Dom Helder; contudo, falta, por causa de questões ideológicas, que não tem nada de coerente com as verdades constitutivas da história da genuína vida cristã, nem honestidade para com os fatos, justiça para com a pessoa de Dom Eugênio, de saudosa memória. É justo, coerente e verdadeiro afirmar que o iniciador da Campanha da Fraternidade foi Dom Eugênio de Araújo Sales.

Para uma melhor asseveração do que levou depois o próprio Dom Eugênio a tomar um certo distanciamento das ações das Campanhas promovidas já pela CNBB, se faz necessário uma pesquisa aprofundada e criteriosa de como estas começaram a tomar outros rumos, que não estavam em harmonia com as motivações originárias da Campanha. As bases iniciais eram a realidade que denotava a situação de injustiça social, a Doutrina social da Igreja, que já tinha por pano de fundo a Palavra de Deus, a Sagrada Tradição e o Magistério, e a fé de que onde existe o ser humano, ali precisa existir os sinais da presença do Reino de Deus.

A Campanha da Fraternidade Ecumênica de dois mil e vinte tem sido alvo de muitas polêmicas. Esta é a quinta, que é realizada por várias Igrejas Cristãs. Essa atitude da CNBB e dos Bispos em nada fere a Doutrina da Igreja, nem muito menos a comunhão com os sucessores de Pedro, os Sumos Pontífices, que sempre enviam mensagens confirmando o bom propósito da Campanha. É salutar também conhecer o documento do Concílio Vaticano II, o decreto Unitatis Redintegratio, que trata sobre o que é o Ecumenismo e como deve ser o procedimento da Igreja sobre o modo de celebra-lo. O Papa Francisco recentemente afirmou que “quem não aceita o Concílio Vaticano II, não está em comunhão com a Igreja”. Tem até pregações de Bispos que parecem desconhecer, ou como já afirmei, agindo por má fé, não creditar valor aos documentos do Concílio, principalmente a Gaudium et Spes.

Enfim, o meu propósito, nesta reflexão, é valorizar a força da mensagem escrita e, através dela, levar a verdade às estruturas e mentes que violentam a história com suas afirmações desonestas e carregadas de preconceito ideológico, por não reconhecer o protagonismo, daquele que fez tanto pelo povo norte-riograndense, pelos nordestinos e, sem dúvida, como fundador da Campanha da Fraternidade, com muita prática, e poucas palavras, pelos menos favorecidos deste nosso imenso Brasil; ao mesmo tempo afirmar que alguma fala que por acaso, em algum momento aconteça, em nada pode tirar a importância que a Campanha da Fraternidade tem para a Igreja no Brasil. Assim o seja!

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