Artigos, Notícias › 01/12/2020

Economia, fraternidade e amizade social

Aluísio Alberto Dantas ([1])

A Carta Encíclica “Fratelli Tutti”, escrita e publicada pelo Papa Francisco no dia 3 de outubro de 2020([2]), apresenta a evangélica forma de vida pautada na fraternidade e na amizade social, como caminhos indicados para construir um mundo melhor, mais justo, que ultrapassam as “barreiras da geografia e do espaço” e que podem contribuir com a justiça social, bem comum, dignidade humana e promoção da paz. A Encíclica afirma que avanços da economia, finanças globalizadas, abertura de investimentos e mercados, são referendados como ações que contribuem para unificar o mundo; mas dividem pessoas, nações e dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal, porque «a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos» (FT,12).

O documento reconhece que a globalização econômica contribuiu com avanços positivos que se verificaram na ciência, tecnologia, medicina, indústria e no bem-estar do consumo. Porém, destaca preocupações com os modelos neoliberais de crescimento da economia e da riqueza, que visam lucros e não priorizam o desenvolvimento humano integral, considerando que o respeito aos direitos da dignidade humana são condições preliminares para o próprio progresso econômico e social de um país. O Papa afirma que o desrespeito desses direitos contribui com o nascimento de novas pobrezas e injustiças sociais, persistindo no mundo com inúmeras formas de injustiças, alimentadas por visões antropológicas redutivas que não hesitam em explorar, descartar e até matar o homem e os excluídos (FT,22).

Economia, fraternidade e amizade social são categorias cristãs e sociais que podem contribuir com o equilíbrio socioeconômico e ambiental da sociedade, a partir da reflexão que o Papa faz sobre as sombras dum mundo fechado, sem formas internas de solidariedade e de confiança mútua. Afirma o documento que a globalização convive com o avanço contínuo do progresso tecnológico, contribuindo com a deterioração enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade sobre ética, bem comum, dignidade humana e justiça socioambiental. O pontífice mostra-se preocupado com míopes interesses econômicos, em que a maximização do lucro não está preocupada com as gravidades presentes nas crises políticas, de injustiça social, exploração desequilibrada e destrutiva dos recursos naturais; com o agravamento da fome e morte de milhões de crianças, já reduzidas a esqueletos humanos por causa da exclusão, pobreza e miséria humana (FT,29).

O documento do Papa destaca a importância exercida pelo desenvolvimento econômico, no sentido de frutificar as potencialidades produtivas, de geração de emprego e renda de cada região, cujas viabilidades socioeconômicas contribuem com a superação da desigualdade e de uma equidade sustentável. No entanto, questiona o poder dogmático do sistema econômico neoliberal que atribui à ‘mão invisível’ do mercado o poder de equilibrar os agentes econômicos e a estabilidade da sociedade. Consta ainda da Carta Encíclica as preocupações com os princípios de maximização do lucro preconizados pelo neoliberalismo, considerando que a especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua a fazer estragos. Defendendo que o lucro é a paz, o documento da Igreja afirma que é indispensável uma política econômica ativa, visando promover uma economia que favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial, para ser possível aumentar os postos de trabalho em vez de os reduzir. “Devemos voltar a pôr a dignidade humana no centro e sobre este pilar devem ser construídas as estruturas sociais alternativas de que precisamos” (FT,168).

[1] Professor de Economia da UFRN (aposentado) e UNI-RN. Ecônomo do Seminário de São Pedro e agente da   Pastoral Familiar da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório.

[2] Papa Francisco. Carta Encíclica Fratelli Tutti. <www.vatican.va> Acesso: 23/11/2020.

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