Artigos, Notícias › 03/04/2020

Economia social e Doutrina Social da Igreja: de Leão XIII a Francisco

Aluísio Alberto Dantas[1]

A leitura histórica da economia social sugere a sua estreita relação com a evolução do ensino social da Igreja, desde o Papa Leão XIII ao Papa Francisco. A partir da Carta Encíclica “Rerum Novarum“, do Papa Leão XIII (15 de maio de 1891), a Igreja sempre tem assumido posições formais sobre o encontro do Evangelho com a sociedade industrial moderna, suas novas estruturas para a produção de bens de consumo, sua nova concepção da sociedade, do Estado e da autoridade, suas novas formas de trabalho e de propriedade (CIgC,2421)[2]. Atualmente, a economia social vem procurando adequar-se à “economia de Francisco” (1º/5/2019), desenvolvendo novas relações sociais de produção e de distribuição economicamente viáveis, ambientalmente sustentáveis e eticamente responsáveis, procurando tornar-se “uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta”[3].

Desde a Primeira Revolução Industrial que a economia social vem ocupando espaços e contribuindo com o atendimento das necessidades humanas e no processo de justiça social, resgate da dignidade humana e do bem comum; estimulando a produção e distribuição de bens e serviços para pessoas e comunidades que se encontram em situação de risco social, de exclusão e de crise comunitária. Os projetos de economia social são normalmente dirigidos para situações de tragédias sociais em comunidades excluídas, e que visam contribuir com a ocupação produtiva geradora de renda de trabalhadores desempregados, grupos de pessoas carentes de suas necessidades básicas de consumo e para comunidades em processo de exclusão social.[4]

Evidências comprovam o rico protagonismo e credibilidade da Igreja Católica na execução, evolução, dinamismo e diversificação de projetos de economia social, considerando a sua capacidade de identificar e caracterizar as demandas comunitárias de bens e serviços primários; e sua eficiência e ética na execução dos projetos. Constata-se que as eficácias dos projetos de economia social, desenvolvidos nas Paróquias, têm sido atribuídas à credibilidade das demandas locais das pessoas, das famílias e de cada comunidade, obtidas diretamente com a participação e envolvimento em ações religiosas, sociais e comunitárias, conduzidas por pastorais, movimentos e serviços da Paróquia. As características e peculiaridades reais e efetivas das demandas comunitárias têm sido eficazes no planejamento e na execução dos projetos de economia social que são executados em Paróquias e com a efetiva participação da comunidade.

As graves e perigosas crises sociais e ambientais contemporâneas exigem o avanço e diversificação das relações sociais de produção e de distribuição de bens e serviços, com vistas ao resgate da dignidade humana, da inclusão e da justiça social. Fortalecida nos princípios da Doutrina Social da Igreja, a economia social é desafiada a participar da “Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável” da ONU, que visa acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhoria da nutrição e promoção da agricultura sustentável. Esses desafios foram historicamente assumidos na execução de projetos de economia social da Igreja Católica, cuja ação é rigorosamente conduzida pelos invioláveis princípios católicos da dignidade humana e da justiça social e que atualmente fundamentam a “economia de Francisco”.

[1] Professor de economia da UFRN (aposentado) e do UNI-RN.

[2] Santa Sé. Catecismo da Igreja Católica. – Brasília : Edições CNBB, 2013.

[3] Papa Francisco. “Economy of Francesco”. <www.vatican.va> Acesso: 20/3/2020.

[4] Dowbor, Ladislau. Gestão social e transformação da sociedade – São Paulo : Editora Senac São Paulo, 2001.

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