Artigos, Notícias › 04/01/2021

Evangelização e aborto

Por Pe. Matias Soares, 
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Mirassol – Natal

Os meios de comunicação noticiam com muita ênfase a liberação, em casos específicos, do aborto na Argentina. É um tema delicado. O que está em jogo é a vida. Quando ela tem início, a quem cabe o direito de decidir sobre sua continuidade, ou não? O debate é denso. Aqui, no Brasil, ainda há uma maioria que não aceita a ampliação das possibilidades da prática abortiva. As paixões políticas e religiosas influenciam nos pontos de vista da população. A questão tornou-se bandeira eletiva para alguns candidatos, que demagogicamente lançam as redes para angariar votos. Outros liberais, tentaram por muitos anos violentar a mentalidade que ainda está presente na sensibilidade coletiva de muitos brasileiros e, por isso, fracassaram. Essa questão ainda voltará no nosso cenário político.

Já faz tempo, os operadores das ciências sociais falam de uma época pós-secular; ou seja, um tempo de incertezas, no qual a religião pode ser base para tomada de posições radicais, ou de total indiferentismo. Vivemos um momento de dúvidas, ainda mais com a confusão portada pela pandemia. Não estávamos preparados para recepção do famigerado vírus. Como nebulosamente vivemos a contemporaneidade, não conseguimos tatear o futuro. Talvez possamos falar de um real obscurantismo epocal. Quiçá, se antes já tínhamos um hiato na racionalidade das opções, um novo comportamento diante dos fatos sociais exija uma abertura ao urgente discernimento do espírito.

A prática abortiva é algo que existiu, existe e existirá ainda mais. Uma das características desta época é a relativização da vida. Antes, na minha meninice, sempre ouvi histórias dos mais velhos de que as mães perdiam muitos dos seus filhos já concebidos. Não causavam o aborto. Normalmente, era fato involuntário. As possibilidades sanitárias eram mínimas. Os que sobreviviam tornavam-se centro da luta diária dos pais para que fossem criados. Na atualidade, a maioria dos casais não veem os filhos como benção de Deus; mas, às vezes, como algo que atrapalha a vida do casal. Muitos só querem tê-los depois de anos de casados. São os contrapontos de valores que nos ajudam a entender porque existem tantos homens e mulheres que vibram porque no país vizinho foi legiferado a liberação do assassinato de inocentes.

A evangelização precisa tratar desta realidade como algo questionador. Existe! E são muitos os que se dizem cristãos favoráveis ao aborto. São aqueles que estão nas igrejas, a cada domingo, nas missas ou nos cultos. Penso que a partir destes fenômenos, deveríamos fazer uma autocrítica?! O que nos falta, enquanto Igreja, que não conseguimos deixar patente que, quem é cristão, nem mata, nem é a favor do aborto?! Neste sentido, temos que revisitar a nossa história cristã para que seja internalizado que a Vida plena é a razão de ser da nossa identidade. O Nosso Salvador morreu na cruz para que tivéssemos a certeza de que a morte não é o fim de tudo; mas sim a Vida. Ele é a Vida (Jo 10).

O evangelista João afirma que a Lei nos veio por Moisés, mas a Graça e a Verdade nos vieram por Jesus Cristo (Jo 1,17). Para o cristão, mais importante do que a lei, é a certeza de ser amado por Deus. Quem ama, não mata. Não podemos cair no legalismo esquizofrênico, pensando que são as leis que determinarão se as pessoas abortarão, ou não. Não abortar, para nós cristãos, é fruto de uma experiência profunda de conversão, que nos vem pela fé em Jesus Cristo. O maior desafio da missão nos tempos hodiernos é anunciar o Evangelho, pedindo a ação do Espírito Santo para que as pessoas amem a Deus e, por isso, amem imensamente os demais seres humanos, a começar dos mais vulneráveis e inocentes.

Por fim, em tempos pandêmicos, como os que estamos vivendo, urge uma conversão missionária de toda a Igreja. O Papa Francisco insiste nessa reforma missionária (Cf. EG, Cap. I). Não vivemos mais a Era da cristandade, nem podemos ser proselitistas. Somos cristãos e, por isso, somos vocacionados a anunciadores do Evangelho, com a vida e, às vezes, se necessário for, com as palavras, como afirmara São Francisco de Assis. Assim o seja!

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