Artigos, Notícias › 25/05/2020

Fé e emoções: uma síntese necessária

Por Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Mirassol – Natal

Uma das tentações contemporâneas da espiritualidade é a separação entre fé, emoções, afetos e razão. Aqui nos deparamos com a necessária integração entre essas três dimensões da condição humana que, a partir da modernidade, mas com seus pressupostos na antropologia grega, especificamente na antropologia platônica, que apresentava o corpo como cárcere da alma, foram separadas.

A teologia contemporânea recuperou a importância dos afetos na espiritualidade. A influência de Sigmund Freud foi diferencial e o avanço da psicologia foram relevantes para essa valorização, mesmo que já na teologia medieval o tema das paixões fosse o viés de compreensão do significado da relação entre emoções e afetos. Contudo, a antropologia de Santo Tomás de Aquino (século 13) relacionava a base de equilíbrio destas áreas, tendo como base a razão.

Os grandes expoentes da mística cristã, como São João Cruz, Santa Tereza de Ávila e afins, trouxeram a importância dos afetos para espiritualidade cristã moderna. Poderíamos citar outros, mas nestes dois podemos entender o que proponho-me nestes linhas. O filósofo Paul Ricoeur fala que temos que ter muito cuidado com o canto das sereias das emoções. Alguns filósofos criticaram a essência do cristianismo porque não acolhiam os pressupostos antropológicos da genuína antropologia crista e, consequentemente, a sua espiritualidade.

Poderia dizer muito mais acerca deste questionamento. Mas, o que posso nesse momento dizer é que temos que trabalhar uma harmonia sempre complementar entre emoções, afetos e razão na nossa espiritualidade. Santo Agostinho nos dizia que todos nós amamos. A questão é saber o que amamos. E eu acrescento: como nós amamos!?! Há uma sinfonia entre nossos afetos, emoções e nossa racionalidade? É comum que em cada pessoa, uma das dimensões apareça mais. É normal. Tem a ver com a personalidade e a história de cada um. A nossa busca é tentar desenvolver a integração antropológica e progressiva destas três. O centro para a necessária compreensão deste caminho é Jesus Cristo. Os referenciais são a palavra de Deus, os sacramentos e a tradição viva da nossa Igreja. Em minhas homilias já tratei desta questão. Assim o seja!

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X