Artigos, Destaques › 08/11/2020

Homilia da celebração eucarística do centenário de Dom Eugênio de Araújo Sales

 Acari (RN), 08 de novembro de 2020

Proferida pelo Pe. José Valquimar Nogueira do Nascimento, reitor do Seminário de São Pedro

 

– Excelências Reverendíssimas

Dom Jaime Vieira Rocha – Arcebispo Metropolitano de Natal,

Dom Antônio Carlos Cruz Santos – Bispo diocesano de Caicó,

– Irmãos do clero, sacerdotes e diáconos, os quais saúdo na pessoa do Pároco desta querida Paróquia, Pe. Fabiano Maurício Dantas e do Mons. Raimundo Sérvulo da Silva, este ano celebrando seu jubileu de outro sacerdotal,

– Autoridades, presentes e representadas,

– Religiosos e religiosas, seminaristas, serviços, movimentos e pastorais,

– Familiares de Dom Eugenio Sales e todos os irmãos e irmãs que aqui nesta assembleia, pelo Sistema Rural de Comunicação e redes sociais, acompanham esta solene liturgia.

 

 

Diz o documento conciliar Sacrosanctum Concilium que, “indo às fontes da Sagrada Escritura e da Liturgia (…) a pregação deve ser o anúncio das maravilhas de Deus” (n. 32, 2) e toda ela aplicada à realidade de nossas vidas. Por óbvio, o exemplo de Dom Eugenio tornou-se uma pregação perene como outras personagens dos textos sagrados. Conformando essa premissa com a celebração de hoje, torna-se sua pessoa, parte da reflexão que ora proferimos para evidenciar a obra de Deus na vida de um homem.

 

Sinto-me honrado e agradecido a Dom Antônio e a Pe. Fabiano pelo convite para, nesta solene celebração, proferir a homilia cujas palavras serão, não uma menção biográfica embora,  en passant não possa omiti-la, mas à luz da Palavra de Deus, uma afetuosa recordação da amizade nutrida, especialmente nos últimos sete anos de vida com Dom Eugenio e de sua herança eclesial e espiritual deixadas em decorrência da consagração total, da compreensão do que significa ser Igreja, e da sua inabalável fé, excepcionalmente descrita na Carta de São Tiago 2, 22: “(…) a fé concorre para as obras e as obras completam a fé”. Tais palavras, atualizadas pelo Papa Francisco, seriam pauta, sem dúvidas, de um dos artigos de Dom Eugênio, se ele tivesse lido a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: “(…) ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem preocupação com a saúde das instituições da sociedade civil, (…) com os acontecimentos que interessam aos cidadãos (…). Uma fé autêntica (…) comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela”.[1] Esse propósito basilar da vida do sacerdote, do bispo, do cardeal Sales, permanece como legado.

 

Há cem anos nascia nesta terra para o mundo Eugenio de Araújo Sales, filho de Celso Dantas Sales e Josefa de Araújo Sales e a 28 de novembro daquele ano de 1920, foi batizado, ungido com o óleo da graça na pia batismal desta imponente Igreja sobre a qual fazia questão de dizer: “sinto uma grande alegria quando, chegando a Acari, vejo de longe as magníficas torres da Matriz”. Incorporado à Igreja, como filho de Deus, e à sua missão, dedicou-se plenamente a ela a partir da unção sacerdotal, ocorrida no dia 21 de novembro de 1943, festa de Nossa Senhora da Apresentação, com a incumbência que lhe foi dada na primeira nomeação para Coadjutor da então freguesia de Nova Cruz, por Provisão de Dom Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas. Foi ordenado bispo também no dia de outra grandiosa festa de Nossa Senhora, da Guia, padroeira desta cidade, em 1954. Não por acaso, era devoto da oração diária do terço e quantas vezes fosse a Roma, se possível, passava por Fátima para rezar.  Criado Cardeal da Igreja pelo Papa Paulo VI, seu grande amigo e incentivador no apostolado, levou a termo suas convicções pessoais, sobretudo na inclusão das mulheres e, dentre elas, aquelas religiosas que se tornaram vigárias quando da falta de sacerdotes para atender o Povo de Deus. Sobre elas destacou Dom Eugenio nos seus 90 anos: “Às religiosas e as virgens consagradas, renovo a minha estima; sem vocês (…) a igreja perderia algo de sua visibilidade mariana”.

 

A esse propósito, interviu por escrito, em Sessão do Concílio Vaticano II, o que foi citado pelo padre Oscar Beozzo no seu livro A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II: “No presente, é de oitenta milhões o número de habitantes do país, e os padres são apenas doze mil, enquanto temos cerca de quarenta mil religiosas (…). Quem não percebe quão nefasta seria a omissão, se não nos dedicarmos a preparar estas magníficas coortes de religiosas e se, uma vez preparadas, não as convocarmos a colaborarem em todas as obras apostólicas que não são reservadas aos sacerdotes?”.[2] Nísia Floresta foi, posteriormente, a primeira Paróquia entregue a religiosas, iniciativa pioneira apoiada pelo Papa Paulo VI e que fazia parte do Movimento de Natal. Suas ações eram fruto de profunda oração, reflexão e articulações diversas que foram se tornando o modus operandi da sua vida, dando-lhe a perspicácia para antever o futuro e a sabedoria para discernir.

 

Recordo-me que, preparando a celebração dos seus 90 anos, eu e a comissão organizadora, interpelamos Dom Eugenio acerca dos textos que poderíamos incluir na liturgia da ocasião, aquela que foi a sua última aparição pública. Quanto aos textos, ele disse: “Vou pensar e depois digo”, o que para nós era sinônimo de rezar. E o fizera com maestria. Nos textos selecionados estavam, em primeiro lugar, atributos do seu caráter e da sua personalidade. No livro do Eclesiástico 2, 1-13, lia-se palavras que lhe tocavam o coração, pois eram uma exortação incessante à sua própria vida: justiça, constância – na fé, na alegria, na provação, na dor – paciência, confiança na Providência, temor de Deus, alegria e misericórdia. Cito este último atributo, intimamente ligado ao primeiro, justiça, porque sabia equilibrá-las, orientando sua vida à virtude da Temperança procedendo sem rompantes diante dos fatos que se lhe apresentavam no dia a dia. Logo, era seu mote: “vou pensar um pouco e depois digo”, consequência era a resposta de um homem preciso nas palavras, objetivo nos planos e sábio na seleção das pessoas certas para o direcionamento das demandas.  Fato conhecido e sempre ressaltado por ele foi ter encarregado a coordenação de duas visitas de João Paulo II ao Rio de Janeiro a uma mulher, leiga e engajada, ainda hoje atuante.

 

Em segundo lugar, o Evangelho de Lucas 5, 1-11 narrava Jesus aproximando-se da barca de Pedro com dois imperativos eloquentes: “Avança para as águas mais profundas (…)” e “(…) não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”.  A ordem de Jesus a Pedro foi seguida por Dom Eugenio sem estremecimento algum. “Pescou” homens e mulheres para a obra do Senhor e, como Pedro, foi um discípulo fiel, do Pedro da Igreja, o Papa, quem quer que fosse. Para os seus artigos semanais e os programas de Rádio e TV, eram pressupostos indispensáveis, além da Sagrada Escritura, o Catecismo da Igreja Católica, outros documentos do Magistério e o que o Papa havia expressado sobre determinado assunto. Sua relação com os Pontífices, nomeadamente, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, que foi ao Rio de Janeiro antes de ser eleito Papa, ia além das formalidades requeridas, era desejo dos Papas que ele participasse de Suas decisões, dando-lhes conselhos em situações difíceis da Igreja, uma das quais quando João Paulo II pensou em renunciar e ele o desaconselhou. Não teve a graça de conhecer Francisco, mas iniciou as conversas para preparação da residência do Sumaré sem saber que o nosso atual Papa estaria hospedado nos seus aposentos. Em certa ocasião, numa entrevista, disse ao repórter: “Me acusam de ser uma xerox do Papa, é o maior elogio que me podem fazer”.[3]

 

Era nesse contexto, em meio a uma árdua, esmerada e incansável labuta semanal, que se preparava o pastor para falar às suas ovelhas. Foi um capítulo à parte na vida do Cardeal a elaboração do que hoje se tornou um acervo acerca de temáticas diversas, missão cumprida de 1972 a 2011, após ser recomendado a descansar, inclusive por seu médico. Não foi tão simples convencê-lo, nem tampouco deixar o que ele tinha como obrigação, aliás, sacerdotal, que era pregar ao Povo de Deus, utilizando de tosos os meios possíveis, compelido pelas palavras de Jesus sobre seus discípulos: “(…) se eles se calarem, as pedras falarão” (Lc 19, 40).

 

Aos poucos, foi deixando de apresentar os programas de rádio, de Tvs, as aulas sobre o Catecismo, de escrever os artigos semanais nos jornais. Algumas das palavras marcantes do seu último artigo foram estas: “O que hoje motiva minha alegria são especialmente duas coisas. Primeiro, lembro-me com gratidão que pude trabalhar com todo empenho pelo Evangelho, esta causa mais sublime de Deus. Pude lutar, em inúmeras ocasiões, pelo povo brasileiro, que tanto amo. Lutar pela libertação de prisioneiros, pelo tratamento digno de adversários políticos, pela escola cristã, pela mulher, cuja nobreza é a dignificação da sociedade humana, pela família, escola primordial do amor e da alegria e única fonte verdadeira do futuro de um país. Ao chegar a quase 91 anos, ponho novamente tudo na mão de Deus, em cujo nome tentei trabalhar” (22/04/2011).

 

Nos textos de hoje, como em um concurso litúrgico para festejar o centenário de Dom Eugenio, temos um outro livro sapiencial, como o Eclesiástico citado, para corroborar aqueles atributos, os quais tomo a liberdade de sintetizá-los em três: homem de fé e oração, fiel ao Magistério da Igreja e servidor dos irmãos. Daí brotavam a força interior, o ardor apostólico e o incansável desejo de propagação da Verdade do Evangelho. Ele tinha absoluta clareza de sua relação com Deus e que a Igreja é Sacramento de Deus neste mundo. Com a piedade discreta, na sua oração diária expressava a busca pela Sabedoria que é Deus, que vem de Deus e por ela madrugava, meditava, certo de que estava num porto seguro e ela mesma saia à sua procura, mostrando-lhe os caminhos e projetos (cf. Sb 6, 12-16) que tanto bem fizeram a si e à Igreja.

 

Quando alguns não conheceram ou não quiseram enxergar o seu lado de pastor, apenas as manchetes dos jornais que o rotulavam  de “conservador” e outros de “subversivo”, não se intimidava porque lutava em nome do Evangelho. Ele acreditava no que aspirava e n’Aquele que o inspirava porque sua súplica na oração, tinha sempre uma resposta de fé.[4] Seu caminho espiritual, confundia-se ora com a vocação de Abraão – “sai da tua terra (…) e vai para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12, 1), ora com o ministério de São Paulo, pregando no Areópago, de quem era devotíssimo, especialmente quando o Apóstolo falou: “Atenienses, em tudo eu vejo que sois extremamente religiosos (…). Aquilo que adorais sem conhecer eu vos anuncio” (At 17, 22.23). Estas palavras descortinam a sua habilidade típica quando lidou com obstáculos aparentemente intransponíveis. Sempre, com a confiança em Maria Santíssima, entregou-se incondicionalmente aos planos de Deus como servo, consumindo-se unicamente pelo bem da Igreja.

 

Sua jornada diária de fé e oração, iniciava-se com a celebração eucarística. Também o terço, a via-sacra às sextas-feiras, a adoração ao Santíssimo e as horas litúrgicas do breviário, devota e rigorosamente cumpridas. Sua relação com o Santíssimo sacramento era assídua e peculiar.  Todos os dias na capela particular e sempre no dia 26 de cada mês, das 22h às 23h, no Santuário de Adoração Perpétua, da Igreja de Santana – centro do Rio, estava ele diante do Senhor. Uma tradição que criou na Arquidiocese, mantida como pessoal até quando pôde. Na noite do seu falecimento, sob o prenúncio da partida para a eternidade, o breviário estava marcado no Salmo 90 (91) que em uma das estrofes se lê: “Sois meu refúgio e proteção, sois o meu Deus no qual confio inteiramente” (v. 1-2).

 

No texto do Evangelho de hoje (Mt, 25, 1-13), podemos considerar a vigilância e a virtude da prudência como integrantes da vida de Dom Eugenio. O relato menciona as palavras de Jesus comparando o Reino dos céus às virgens que, ao esperar o noivo e, entre elas, as prudentes, carregavam suas lamparinas e vasos com óleos suficiente para abastecê-las e estavam vigilantes enquanto outras dormiam. Talvez Dom Eugenio levasse uma lamparina a mais!

 

Não desperdiçar o tempo é uma das grandes lições que nos deixa Jesus nessa parábola, desvelando o itinerário a ser seguido diante das responsabilidades que são postas em nossas mãos. O cardeal tinha a concepção de que o desperdício do tempo nas coisas que se referem a Deus e a seu povo é um privilégio dos néscios, exemplo a não ser seguido pelos cristãos. E mesmo nos poucos momentos de lazer, ainda deixava sua mensagem de pastor que primou sempre por seguir a Sagrada Escritura, o Magistério da Igreja, mormente na aplicação determinada do Concílio Vaticano II, e nas palavras do Papa. Novamente, ecoa o que diz São Paulo: “(…) se eu anuncio o Evangelho, isso não é para mim título de glória. É antes uma necessidade que me é imposta” (1Cor, 9, 16), cuja verdade não pode ser corrompida (cf. Gl 1, 7). Para que essa verdade fosse propagada com fidelidade, seu olhar de pastor zeloso voltava-se para os futuros sacerdotes, a fim de que fossem bem formados, preparados para enfrentar os desafios pastorais e dar as razões de sua fé (cf. 1Pd 3, 15).

 

Muitos seminaristas do Brasil, hoje sacerdotes ou não, foram beneficiados pela generosa acolhida de Dom Eugenio no Seminário São José que concretizava seu desejo, oferecendo-lhes bolsas de estudos e a oportunidade de conhecerem novas culturas em tempos difíceis para se manter uma Casa de formação. Particularmente os de Natal e de Caicó, viveram a rica experiência de realizarem seus estudos filosófico-teológicos e atividades pastorais em diversas comunidades do Rio de Janeiro. Eu e tantos de nós, somos frutos desse agir profético que não mediu esforços para empreendê-lo. Desbravando esses caminhos, estava à frente seu irmão Dom Heitor de Araújo Sales, a quem agradecemos e sua irmã Cleomar Sales, de saudosa memória. Ela era a face de Maria na vida de Dom Eugenio e o refúgio dos seminaristas nas necessidades. Mainha, assim chamada carinhosamente, consagrou-se totalmente à Igreja doando a vida para que seu irmão pudesse desempenhar o imenso trabalho de evangelização.

 

Por fim, celebramos o nascimento de um homem que encarnou na vida as palavras da Carta de São Paulo aos Coríntios, antes mesmo de torná-las parte do seu lema episcopal: “Quanto a mim, de bom grado despenderei, e me despenderei todo inteiro, em vosso favor (…)” (2Cor 12, 15). Impendam et superimpendar, não foram só elementos heráldicos, mas tornaram-se um estilo de vida desde as primícias do seu sacerdócio. Não foram, outrossim, palavras proferidas ao vento, converteram-se em ações cotidianas que o consagraram para a história como um “guardião da fé”, – título de um livro sobre sua vida – obediente à Igreja, pastor zeloso e líder nato. As palavras de São Tiago, “a fé concorre para as obras e as obras completam a fé”, imprimiram no apostolado de Dom Eugênio uma íntima relação com sacerdotes, religiosos e leigos a fim de idealizar o que se tornou conhecido como Movimento de Natal, cujas “(…) atividades visaram, além dos fins religiosos, a incrementar a vida comunitária, a saúde e a educação”[5], expandiu-se de Natal a Salvador e, depois, porque não dizer, foi remodelado para as diversas realidades do Rio de Janeiro com atendimento a moradores de rua, favelas, presidiários e outras inúmeras obras de misericórdia; sem esquecer aqueles que partiam para a eternidade e neste mundo eram sepultados como indigentes. O cemitério conhecido por este nome no subúrbio do Rio de Janeiro era periodicamente visitado por Dom Eugênio que deixava essa reflexão: “aqui estão aqueles esquecidos pelo mundo”!

 

Sua convicção era de que Igreja clericalista deveria dar espaço aos leigos, como protagonistas da evangelização para que tomassem parte ativa em toda a vida eclesial, não apenas impregnando o mundo com o espírito cristão, mas também como testemunhas de Cristo, em todas as circunstâncias, no seio da comunidade humana. Determinava em suas ações o espírito dos documentos conciliares, especialmente Gaudium et Spes[6] e, posteriormente, a Exortação Apostólica Evangelii Nunciandi,[7] de Paulo VI, que diz: “Quanto mais leigos houver impregnados do Evangelho, responsáveis (…), comprometidos (…), competentes (…) e conscientes de que é necessário fazer desabrochar a sua capacidade cristã (…), tanto mais (…) se virão a encontrar ao serviço da edificação do reino de Deus e, por conseguinte, da salvação em Jesus Cristo”.

 

Seguindo o exemplo de Jesus, todos os conhecidos, colaboradores, amigos que o acompanhavam, tornavam realidade o preceito: “Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos (…), ensinando-os a observar tudo o que vos mandei” (Lc 28, 19-20) observadas nas atitudes de um sacerdote devotado às suas ovelhas as quais por si ou por tantos de sua “rede” de caridade, assistia a todos como a um “certo homem” descrito na parábola do Samaritano. Este, “tratou-lhe as feridas (…), colocou-o sobre seu próprio animal e o levou a uma hospedaria, onde cuidou dele (…)” (Lc 10, 30. 34). Impossível não recordar o apostolado de Dom Eugênio com os refugiados e presos políticos, ouvindo este texto bíblico, quando aqui descrevo: “O atendimento (…) compreendia hospedagem e procura de formas seguras de encaminhá-los a outros países (…). E nenhum dos refugiados acompanhados pela Caritas arquidiocesana foi detido ou desapareceu no Brasil.[8] Para assegurar o serviço prestado (…), Dom Eugenio determinou que o atendimento fosse realizado no Palácio São Joaquim e que apartamentos fossem alugados em nome da Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro, para que estivessem segura e condignamente alojados”[9].

 

À luz do discernimento do Espírito e com um “olhar de águia”, Dom Eugenio tinha uma visão e práticas proféticas de Igreja tornando o Evangelho uma verdadeira revolução com o seu rebanho. E na esteira de outros irmãos no episcopado, dizia Dom Hélder a seu respeito, ele “sacudia o Nordeste, incitando-nos a contemplar o Brasil e o Mundo[10]. Essa história não se pode contar em poucas palavras, embora já tenham sido escritos inúmeros artigos, teses e livros sobre sua vida.

 

Uma lição fica para todos nós na celebração deste centenário. Somos Povo de Deus e devemos revigorar o ardor missionário, a cada dia, sem medo de avançar, confiantes na Providência divina e contando com quantos estão ávidos do Evangelho. Não deixemos que a ilusão e a fantasia façam do nosso discipulado um discurso de palavras vazias, mas sejam fecundas do Amor de Deus em obras e que nunca busquemos nossa realização cristã em privilégios, sutilmente presentes nas palavras de Tiago e João quando se dirigiram a Jesus: “Concede-nos que nos sentemos em sua glória um à tua direita e outro à tua esquerda” (Mc 10, 37). Porque, de um lado ou de outro, aqui ou ali, seremos sempre de Deus e discípulos de Cristo.

 

Encerro citando as palavras do próprio Dom Eugenio que, embora publicadas em um artigo na Revista Eclesiástica Brasileira de 1968, podem ser aplicadas literalmente aos dias atuais e remonta ao seu modelo de ação pastoral e preocupação eclesiais: “Não podemos cometer a loucura de nos enganarmos diante dos fatos. Mais do que nunca, o medo é hoje indigno daqueles que assumem responsabilidades em sua comunidade. Aí está o Concílio, resultado da coragem sobrenatural de um homem que o convocou e de um outro que o concluiu (…). O ambiente em que vivemos (…), com muita frequência esmaga a pessoa humana, cria obstáculos à sua plena realização, contradiz o Evangelho (…). Devemos ter a coragem de permanecermos fiéis (…) porque a autenticidade evangélica é importante e a firmeza, uma face da Caridade”.[11]

 

Amém.

[1] FRANCISCO, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 183.

[2] BEOZZO, José Oscar., A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II 1959-1965, p. 347

[3] FERRAZ, Silvio, Dom Eugênio de Araújo Sales: 50 anos de consagração episcopal. Rio de Janeiro: UniverCidade, 2005, pág. 10.

[4] Catecismo da Igreja Católica, n. 2561

[5] Cândido Procópio Ferreira de., Igreja e Desenvolvimento, São Paulo, CEBRAP, Editora Brasileira de Ciências, 1971, p.38.

[6] Gaudium et Spes, n. 43

[7] Evangelii Ninciandi, 70

[8] MILESI, Rosita.,(Org.) Refugiados, realidade e perspectivas, Edições Loyola, SP, 2003, p.120s.

[9] MENEZES Brasil, R., Homenagem ao Pastor: cinquenta anos de serviço à Igreja, Forense, RJ, 1996, p. 236

[10] Idem, p. 341

[11] Dom Eugênio Sales, A Igreja na América Latina e a promoção humana.  REB, vol. 28, fasc. 3, setembro de 1998, Ed. Vozes, pág. 552; 549.

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