Artigos, Notícias › 23/04/2020

Igreja, mãe e mestra do desenvolvimento do Nordeste

Aluísio Alberto Dantas[1]

A beleza e riqueza de conteúdos disponíveis em documentos descrevem ações de inclusão e justiça social que comprovam que a Igreja, mãe e mestra da humanidade, foi protagonista do processo de desenvolvimento socioeconômico e político do Nordeste brasileiro. Os Encontros dos Bispos do Nordeste do Brasil, realizados em Campina Grande–PB (1956) e Natal–RN (1959), cujos anais estão publicados por Dom Jaime Vieira Rocha (Arcebispo da Arquidiocese de Natal), relatam, com detalhes, a atuação dos Bispos da região em cumprir a sagrada missão de santificar as almas e de praticar os princípios doutrina social da Igreja. Conscientes dos sofrimentos de miséria e fome vivenciados pela população nordestina, vítima dos longos períodos de estiagem e da conjuntura sócio-política do país e da região, a ação de nossos Bispos, nos anos cinquenta, foi decisiva para denunciar à nação as realidades de mortes das famílias residentes em áreas do “Polígono das Secas”; e a formulação de políticas públicas de mudança das relações sociais de produção e de distribuição de renda, de inclusão e de justiça social do Nordeste Brasileiro[2].

O documento publicado por D. Jaime constata que a Igreja manteve uma forte integração com o Presidente da República Juscelino Kubitscheck; com Ministros de Estado, altas autoridades, intelectuais e técnicos de vários órgãos públicos. Sob a orientação de Dom Hélder Câmara, então secretário geral da CNBB, e com a decisiva e brilhante atuação dos bispos do nordeste, com destaque para os norte-rio-grandenses Dom Eugênio de Araújo Sales, Dom Eliseu Mendes, Dom Manuel Tavares e Dom José Adelino Dantas, foram muitas as ações, planos e projetos estruturantes da economia nordestina, destacando-se a criação da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural (ANCAR) e energia de Paulo Afonso. Inúmeros e ousados investimentos foram decisivos para o desenvolvimento da região, destacando-se, no Rio Grande do Norte, o saneamento de Natal, implantação do Porto de Areia Branca e desenvolvimento econômico dos vales secos do Baixo Piranhas e Apodi, beneficiando os municípios de Açu, Ipanguaçu, São Rafael, Pendências e Apodi (Dom Jaime,42)[3].

Afirma o documento que o vigor intelectual do economista Celso Furtado fortaleceu a parceria da Igreja com o Estado; e muito contribuiu com os ideários da responsabilidade social e da esperança das Dioceses do Nordeste. Descreve que a “realização do I e do II Encontros dos Bispos do Nordeste integra positivamente essa história de mais de três quartos de século, a respeito do desenvolvimento do Nordeste. Compreendo que para produzir os seus principais contornos é preciso considerar o trabalho de atores sociais que fizeram o possível para melhorar as condições de vida da população residente no Nordeste, de fins do século XIX aos que passaram a trabalhar intensamente, com novos instrumentos e informações, em anos posteriores a 1940 e 1950” (D. Jaime, p. 30).

Ao Encontro de Campina Grande em 1956, segue-se o Encontro de Natal, em 1959. Lemos nos anais que “Dom Helder Câmara chega à capital potiguar em 23 de maio do corrente ano para ultimar os preparativos do II Encontro dos Bispos do Nordeste e por meio do microfone da Rádio Nordeste, dirige-se ao povo do Rio Grande do Norte exaltando a obra administrativa do bispos norte-rio-grandenses Dom Eugênio Sales, Dom Eliseu Mendes e Dom Manuel Tavares e conclamando todos à participação no evento” (Dom Jaime, p.12). No Encontro de Natal aconteceu a avaliação de todas as providências e projetos assumidos pelo governo federal, como políticas públicas para o nordeste, de acordo com o proposto no encontro de Campina Grande. Escreve Dom Jaime: “Com JK, foram concebidos e instalados novos arranjos políticos destinados a fortalecer a economia do Nordeste. Uma das iniciativas mais importantes, a tal respeito, especialmente do ponto de vista conceitual e simbólico, correspondeu à criação, em 1956, do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste – GTDN. Para coordenar os trabalhos do GTDN, o Presidente JK entregou essa magna tarefa a Celso Furtado, economista paraibano, na época trabalhando como um dos diretores do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico – BNDE, aonde chegou vindo de uma importante instituição em matéria de estudos e planejamento do desenvolvimento – a Comissão Econômica para a América Latina – Cepal. O GTDN foi instituído com o apoio da Igreja progressista, que conferia ênfase particular às melhoras sociais e econômicas para os menos aquinhoados por bens e serviços, de variada natureza e qualidade. Foi essa Igreja que concebeu, organizou e realizou, em Campina Grande, na Paraíba, no mesmo ano de 1956, o I Encontro dos Bispos do Nordeste, com o decisivo apoio do Presidente JK. Para a concepção e elaboração do Relatório do GTDN, levadas a cabo nos anos de 1956 a 1958, Celso Furtado pôde contar com as contribuições do Relatório do I Encontro dos Bispos do Nordeste” (D. Jaime, p. 32).

[1] Professor de Economia da UFRN (aposentado) e do UNI-RN. Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório.

[2] ROCHA, Dom Jaime Vieira, org. Sob os signos da Esperança e da responsabilidade social: anais do I e II Encontros dos Bispos do Nordeste [online]. Campina Grande: EDUEPB, 2016, 395 p. ISBN: 978-85-7879-485-9.

[3] ROCHA, Dom Jaime Vieira, Op. Cit

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