Destaques › 08/07/2014

Igreja no Brasil publica o Diretório de Comunicação

Ir. Élide Maria Fogolari

Assessora da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB

Jornalista e Mestra em Ciências da Comunicação pela ECA/USP

Palestra Muiz Sodré 28 10 2013 (José Bezerra) (153)

Por que  a necessidade de a Igreja Católica, no Brasil, ter um ‘Diretório de Comunicação’?

A Igreja existe para evangelizar. Em meio às “alegrias e esperanças, tristezas e angústias do ser humano de cada tempo, notadamente dos que sofrem”, ela anuncia, por palavras e ações, Jesus Cristo, “Caminho, Verdade e Vida”.  Ele enche nossos corações e nos impele a evangelizar: “Hoje, como outrora, ele nos envia pelas estradas do mundo para proclamar o seu evangelho a todos os povos da terra (cf. Mt 28,19). Com seu amor, Jesus Cristo atrai a si os homens de cada geração: em todo o tempo, ele convoca a Igreja confiando-lhe o anúncio do Evangelho, com um mandato que é sempre novo. Por isso, também hoje é necessário um empenho eclesial mais convicto servindo-se dos meios e processos de comunicação em favor de uma nova evangelização, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé.  A Igreja no Brasil vem realizando um esforço de reflexão sobre a ação evangelizadora como prática de comunicação. Testemunho disso são a vivência e o exercício da comunicação presentes na vida das comunidades, nas ações pastorais dos organismos especializados e nos documentos produzidos ao longo das últimas décadas, como: Comunicação para a Verdade e a Paz; Comunicação e Igreja no Brasil e Igreja e Comunicação rumo ao novo milênio: conclusões e compromissos. É neste contexto que justifica a produção de um Diretório de Comunicação, sintetizando um processo de comunicação e projetando o presente e o futuro comunicativo da Igreja em dialogo com os demais segmentos sociais.

 Como se deu o processo de preparação para a publicação desse Diretório?

Os critérios de escolha do grupo para a produção do Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil foi a partir da constatação de  pessoas que estivessem voltadas e preocupadas com a comunicação da Igreja e que tivessem realizado pesquisas nesta área.  A Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação indicou nomes, entre bispos, professores, pesquisadores e profissionais da área e a Presidência da CNBB nomeou e convidou oficialmente cada pessoa para redigir o Diretório de Comunicação. Num período de dois anos o grupo se reunia sistematicamente e no último ano o grupo foi reduzido e as reuniões aconteciam com maior frequência para facilitar a reflexão e redação do texto. Só assim foi possível responder às exigências solicitadas pelos bispos e comunidades em relação a prática e a teoria da comunicação da Igreja no Brasil.

Qual o conteúdo do Diretório?

Partindo da constatação de que as grandes mudanças que o mundo experimenta são essencialmente de ordem cultural, o I capítulo aponta para o surgimento de um novo estágio de vida individual e coletiva, demarcado por uma sociedade fortemente conectada, colocando desafios eexigindo rápida resposta por parte tanto da sociedade quanto das próprias estruturas da Igreja.

Por uma teologia da comunicação é o tema do II capítulo dedicando-se expressamente à teologia do diálogo comunicativoentre Deus e os homens. E é justamente por intermédio de seu sim ao projeto de Deus, que o homem e a mulher tornam-se co-autores da criação. Criados à imagem e semelhança de Deus, os homens se comunicam não por uma exigência, mas por um dom natural; não por uma ordem, mas por uma vocação. E continua: comunicar através da palavra, dos gestos, das atitudes, utilizando as mais modernas tecnologias, torna o comunicador um mensageiro do amor de Deus a todas as pessoas indistintamente.

A comunicação e a vivência da fé é o tema do III capítulo. Lembra que a vivência comunicativa compreende tanto o anúncio quanto o testemunho: duas modalidades complementares e conexas da missão cristã. Lembra, ainda, que esta comunicação, que se pretende autêntica e eficaz, depende, em larga escala, do próprio modelo de Igreja que se almeja e da sua capacidade missionária. É a partir dessa visão que o Diretório se aproxima do tema da catequese e da liturgia. Considera os catequistas como animadores dos grupos de reflexão que, em sua missão, devem ter em conta as potencialidades da mídia para tornar o anúncio mais interessante para a sensibilidade e a capacidade receptiva das crianças, adolescentes, jovens, adultos e terceira idade. A liturgia, por sua vez, é considerada o lugar por excelência da comunicação da fé. No âmbito do testemunho, a Igreja convida os profissionais cristãos a pôr-se na escuta e a serviço das pessoas e da comunidade.

O IV capítulo reporta a comunidade eclesial ao tema da ética. A definição encontrada para o conceito apresenta o apresenta um complexo de valores, normas e modelos de comportamento, fundados no reconhecimento da prioridade da dignidade pessoal e da prioridade do bem comum, ordenado a orientar as ações individuais e coletivas a serviço da justiça e da paz.

O V capítulo trabalha o protagonismo dos leigos na comunicação evangelizadora. Nessa linha de busca de novos atores, o Diretório recorda que, no contexto da cultura midiática, novas questões emergem e exigem compreensão e capacidade de diálogo junto aos atores sociais com os quais se pretende estabelecer contatos: trata-se de um novo cenário que exige, da parte das lideranças, o cultivo de novas formas de abordagem e de novas competências. Nesse sentido, valorizar as habilidades necessárias às diversas áreas da comunicação pode ser o primeiro passo para a atuação e o engajamento dos novos atores nos projetos da Igreja.

A presença da igreja no mundo da mídia é o tema do VI Capítulo que analisa como deve se dá a abordagem dos temas religiosos na mídia leiga e estimular a presença autônoma da Igreja no mundo dos meios de comunicação. Adverte, para tanto, que Igreja deve colocar-se em constante busca de diálogo com os responsáveis da mídia, aprofundando os aspectos culturais, sociais e políticos. Tal diálogo implica que a Igreja faça um esforço para compreender a mídia – os seus objetivos, os seus métodos, as suas regras de trabalho, a sua estrutura interna e a sua modalidade – e que sustente e encoraje aqueles que na mídia trabalham.

O VII capítulo enfoca a Igreja e as mídias digitais no contexto da nova cultura que a humanidade está envolvida e admoesta para a necessidade de se evitar um deslumbramento acrítico frente aos novos aparatos regidos por regras de um mercado competitivo e digital. Propõe, ao contrário, que se entenda a sociedade atual a partir dos processos de comunicação, como um acontecimento centrado na pessoa. As novas mídias abriram caminhos para o encontro e o dialogo entre as pessoas de diferentes países, culturas e religiões. Sob esta perspectiva, a integração das antigas e das novas tecnologias no fazer pastoral ganha sentido.

O VIII capítulo aborda as Políticas de comunicação trazendo presente as questões relativas à Igreja, suas práticas e as políticas públicas de comunicação na Constituição do país. Convoca a participação dos representantes dos profissionais das mídias católicas nas políticas públicas de comunicação, para uma maior conscientização nas ações do governo em favor do bem comum.

O IX capítulo considera que a complexidade da vida moderna exige dos pastores e de cada cristão uma profunda reflexão sobre o sentido das relações humanas e o papel que os processos comunicacionais – mediados ou não por tecnologias – acabam exercendo no cotidiano da vida dos indivíduos, das comunidades e da própria Igreja. Trata-se de promover uma educação essencialmente voltada para o cultivo de atitudes de abertura para com o outro e para com o mundo, a que não se pode furtar-se nem os pastores, nem os agentes pastorais, sem contar aqueles que se preparam para cumprir funções de liderança na hierarquia ou nas diferentes áreas pastorais.

O Diretório volta-se, em seu X capítulo, ao tema específico da Pastoral da Comunicação, entendida como as atividades realizadas pelo conjunto de seus membros, animados por seus pastores, com o intuito de facilitar a vida em comunidade, consolidando os fluxos das relações no interior da instituição eclesial, enquanto articula os procedimentos e os recursos técnicos indispensáveis ao serviço da explicitação do sentido do Reino de Deus junto a cada um de seus membros e a toda a comunidade humana.

 A quem se destina?

O documento destina-se aos responsáveis pela condução das práticas de comunicação nos diferentes âmbitos da vida eclesial e nas relações da Igreja com a sociedade. O texto vem pautar a comunicação da Igreja, gerando um formato de reflexões e indicação de ações. Reúne e disponibiliza referenciais comunicacionais, sociológicos, éticos, políticos, teológicos e pastorais, destinados à reflexão das lideranças da comunidade eclesial e civil, compatível com as necessidades das comunidades e de sua missão evangelizadora.

O Diretório já foi apresentado aos bispos, durante a 52ª Assembleia Geral da CNBB. E para os coordenadores e agentes da Pascom, como e quando o Diretório será apresentado?

Está previsto um lançamento durante o 4º Encontro Nacional da Pastoral da Comunicação e do 2º Seminário dos Jovens Profissionais da Comunicação, que acontece em Aparecida (SP), de 24 a 27 de julho de 2014. A organização está prevendo um momento de exposição do texto no sentido de reflexão com interação dos mais de 800 participantes que irão estar presente no evento. No dia 25, à noite, o evento conta com um grande momento cultural e que será transmitido ao “vivo” pelas TVs Católicas e as Emissoras de Rádio Associadas a Rede Católicas de Rádios (RCR), com um  show, onde iremos fazer o lançamento solene à toda a Igreja no Brasil. A noite cultural musical conta com a presença do Pe. Zezinho, o grupo Ir ao Povo e o Grupo Chamas que irão animar a noite.

Na prática, quais são as orientações da Comissão de Comunicação da CNBB para a utilização do Diretório, por parte das equipes regionais, diocesanas e paroquiais da Pascom?

No caso, cabe às dioceses e paróquias, assim como às diferentes pastorais, movimentos e obras, apropriarem-se do documento, estudá-lo em cada um de seus capítulos, confrontando suas proposições com a realidade local e, a partir desta reflexão, definir as modalidades das ações requeridas pelo tipo de intervenção comunicativa necessária para solucionar as questões levantadas pelos respectivos planejamentos. A Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação vem realizando reflexões mediante encontros nos Regionais para que o Diretório seja conhecido e colocado em prática nos diferentes âmbitos da Igreja, visto que a comunicação se coloca a serviço de todas as pastorais da Igreja no Brasil. Estão sendo previstos livros, manuais que vêm ajudar a todos os envolvidos com a comunicação na ação pastoral da Igreja. Este é um momento de ação de graças a Deus pelo Diretório de Comunicação. O primeiro Diretório a ser publicado foi o da Itália. O segundo é o do Brasil. Isto vem confirmar todo o trabalho de base, as reflexões, as práticas de comunicação vividas e desenvolvidas pelos cristãos leigos engajados, no silêncio e com um único desejo: comunicar Jesus Cristo a todos, neste país, com extensões continentais. Sintamo-nos felizes e gratos a Deus por este momento de concretização de um trabalho que é fruto de todos.

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X