Artigos, Notícias › 06/07/2021

Justiça e afetos

Por Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo Afonso M. de Ligório/Natal-RN
Coordenador arquidiocesano da Pastoral Universitária

O Brasil vive uma situação preocupante de polarização política. Já faz tempo que essa odisseia estremece as relações sociais em nossas sofridas e alienadas paragens. Os desencontros são legiferantes. As lutas midiáticas assemelham-se às batalhas raivosas de gladiadores ensandecidos. Com narrativas pontuais, desencontros repetem-se desde as estruturas familiares até às formas mais constitutivas da sociedade. O cenário precisa ser visto de cima, quando lançamos o olhar para perceber, associar e narrar o que vemos e ouvimos dos sinais dos novos tempos.

Os elementos causais podem ser contemplados a partir de muitos paradigmas: O pós-guerra, o Concílio Vaticano II, o embate dos blocos capitalista-socialista, direita-esquerda, as revoluções na comunicação etc. O que faz com que os fenômenos sociais sejam ainda mais complexos. Tanto que tem sido conveniente, por não ter uma hermenêutica única, assumir o uso da expressão ‘crise’. Depois das tomadas de posição dos anos sessenta, que revolucionaram as ordens sistêmicas instituídas, começando do parâmetro tradicional do significado de família, a constatação de que um novo mundo estava por vir, ou como asseveram os documentos eclesiais, uma mudança de época e uma época de mudança, desafios e necessárias reinterpretações de como a humanidade estava a declinar sua existência precisavam ser recepcionados.

Os pressupostos antropológicos, principalmente o da reviravolta epistemológica da modernidade e, mais remotamente, o da pós-modernidade que assume o radicalismo da subjetividade, colocando-a na engenharia das relações como a nova ‘forma’ do conhecimento e da microfísica do poder nas várias composições da arqueologia social, devem ser compactuados para que nesta fase pandêmica haja uma retomada das ações das instituições e das outras formações da dinâmica social. Estamos tendo uma confusão sobre como redirecionar a trajetória dos componentes históricos. O que foi vivido durante a II Guerra Mundial e o que estamos vivendo agora têm muitos componentes similares. Podemos ressaltar que depois deste fatídico acontecimento, não tivemos o prosseguimento da paz como consequência do uso da força, mas um outro estilo de guerra, chamada de Guerra Fria.

No pós-pandemia a humanidade estará melhor, por causa dos grandes infortúnios sofridos? O Papa Francisco nos provoca: Sairemos melhores, ou piores? Como é trivial ser afirmado, com as crises temos sempre a possibilidade de escolha para avançarmos ou regredirmos. Dependerá da nossa capacidade de discernimento para aprendermos com tudo o que experienciamos. Com algumas orientações, mesmo antes da pandemia, o Papa Francisco nos chama à vivência de um premente ‘novo humanismo’, através do qual possamos testemunhar a humildade, a abnegação e a vivência das bem-aventuranças. O humanismo assumido ateisticamente é dramático, pois nega a dimensão transcendental do ser humano, que neste tempo nebuloso foi drasticamente testado quando necessitou do ‘diálogo com Deus’. Na minha própria carne eu senti que nos momentos cruciais e de profundo sofrimento, nós só podemos ‘falar com Ele’.

A questão que estou querendo abordar, que é a da relação entre os afetos e a justiça, foi mais uma vez intensificada durante este momento da pestilência. Os sofrimentos e as doenças psíquicas foram pontualmente agravados. Os novos comportamentos que foram exigidos às pessoas as levaram ao espelhamento das suas situações de desolação, angústia, vazio e inquietudes. Diante de tudo isto, a consciência de que não teremos mais o normal, e sim concepções novas de convivência social, pelo menos durante um longo tempo. Os medos ‘mascarados’ ainda serão companhias com as quais seremos condenados a viver.

O estado da questão ao qual chego é o da relação entre os nossos afetos e a necessidade da justiça. A experiência nos mostra, que nas relações pós-humanistas, e cunho este termo pensado que vivemos mais tempo mantendo contatos com ‘seguidores líquidos’, por vias digitais; do que com proximidade corporal, contemplando ‘a face do outro’, que me completa e diz muito mais da alteridade que eu não sou, as relações humanas vividas sem racionalidade, favorecerão muitas práticas de injustiças nos ambientes institucionais. Entre a justiça e os afetos, as pessoas que não usam de uma antropologia integral, ficam com os afetos, que individualizam e não veem o todo da conjuntura. A polarização política e social que temos na sociedade brasileira nos mostra muito deste fenômeno. Os responsáveis se inebriam com os cantos das sereias. Nesta Era pandêmica esta constatação se tornou mais clarividente.  Com as novidades imediatas e instantâneas da contemporaneidade, nos sentimos provocados a aprofundar este dado existencial, epistemológico e político.

Por fim, urge que proporcionemos o que é próprio da tarefa educativa, que segundo o Papa Francisco é o que promove “o desenvolvimento de hábitos solidários, a capacidade de pensar a vida humana de forma integral, a profundidade espiritual, que são realidades necessárias para dar qualidade às relações humanas, de tal modo que seja a própria sociedade a reagir ante as próprias injustiças, as aberrações, os abusos dos poderes econômicos, tecnológicos, políticos, e midiático” (cf. Fratelli Tutti, 167). Estejamos abertos ao novo. O patrimônio espiritual da história cristã nos ensina que a oração e o estudo são canais válidos para que o Espírito Santo nos favoreça nestes bons propósitos, que é a busca constante de usar os afetos na companhia da justiça, e vice-versa. Assim o seja!

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