Voz do Pastor › 21/08/2020

Para celebrar o dom da amizade

Prezados leitores/as!

 

Neste tempo de pandemia, onde vivemos obrigados a um isolamento, onde a tristeza da perda, da angustia pelo sofrimento de quem amamos, e ainda, a distância daqueles que amamos, proporcionada pelo fato de não podermos abraçar, tocar ou estar olhando nos olhos das pessoas queridas, dos nossos amigos e amigas, leva-me a refletir sobre a importância da amizade, de cultivar bons amigos e de agradecer pela sua existência.

Um teólogo português, o Cardeal Dom José Tolentino Mendonça, atualmente Arquivista e Bibliotecário do Vaticano, publicou uma obra sobre teologia da amizade com esse sugestivo título: “Nenhum caminho será longo. Teologia da amizade”, onde o autor expressa sua convicção de que, na nossa relação com Deus podemos viver uma verdadeira amizade. Ela manifesta o que Deus mesmo faz em relação aos homens e às mulheres. Não é assim mesmo que vemos nas narrativas do Antigo Testamento? Deus é o amigo do ser humano ou o “amigo da vida” (Sb 11,26). A amizade expressa o caminho de Deus com o seu povo, com os seus representantes, Abel, Noé, Abraão, Moisés… Enfim, na amizade se expressa justamente o conceito de misericórdia: Deus caminha ao nosso lado e para Ele nenhum caminho será longo, Ele sente alegria em estar conosco. Como diz o teólogo português: “Um amigo, por definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilômetros ou por dezenas de anos. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento. Temos certamente amigos dos dois tipos. Com alguns, a nossa amizade cimenta-se na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume que nos alumia. Com outros, a amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar”.

Será que nossa relação com Deus acontece como “amizade”? O Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática sobre a divina revelação Dei Verbum, afirma que Deus fala aos homens como a amigos, para conviver com eles e admiti-los à sua comunhão (cf. DV 2). É uma amizade que conduz ao amor. Deus nos ama tanto que Ele se torna íntimo a nós, se torna nosso amigo. A partir da amizade de Deus para conosco, de nossa amizade com Deus, podemos construir a nossa amizade com os nossos semelhantes.

Um bom exemplo de amizade verdadeira, cristã, encontramos nos relatos de São Gregório Nazianzeno, que escreveu sobre sua amizade com São Basílio Magno: “Nesta ocasião, eu não apenas admirava meu grande amigo Basílio vendo-lhe a seriedade de costumes e a maturidade e prudência de suas palavras, mas ainda tratava de persuadir a outros que não o conheciam tão bem a fazerem o mesmo. Logo começou a ser considerado por muitos que já conheciam sua reputação…Com o passar do tempo, confessamos um ao outro nosso desejo: a filosofia era o que almejávamos. Desde então éramos tudo um para o outro; morávamos juntos, fazíamos as refeições à mesma mesa, estávamos sempre de acordo aspirando aos mesmos ideais e cultivando cada dia mais estreita e firmemente nossa amizade. Movia-nos igual desejo de obter o que há de mais invejável: A ciência; no entanto, não tínhamos inveja, mas valorizávamos a emulação. Ambos lutávamos, não para ver quem tirava o primeiro lugar, mas para cedê-lo ao outro. Cada um considerava como própria a glória do outro”.

A amizade é um grande dom, cuidar dela é nossa resposta de aceitação amorosa e gratidão. Cuidemos dos nossos amigos, vejamos neles o reflexo da grande amizade que Deus tem para conosco.

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X