Voz do Pastor › 03/04/2020

Semana Santa: a esperança não morre

Prezados leitores,

A partir deste domingo, Domingo de Ramos, a Igreja entra na Semana Santa. Uma semana especial, para os cristãos, semana central, onde ela revive, na “memória” do Salvador, os últimos momentos da vida terrena de Jesus Cristo. Do Domingo de Ramos ao Domingo da Ressurreição, a Igreja celebra o mistério de Jesus Cristo, na sua Paixão, Morte e Ressurreição. São dias sofridos, carregados da dor da rejeição, da traição, seja de um dos seus amigos, seja do poder religioso e do poder político. E mais, decepção pela atitude daquele que é a “pedra”, o apóstolo Pedro que nega, por três vezes que o conhecia. E os outros, com exceção de João, o jovem filho de Zebedeu, que mais tarde falará de Deus como “Amor”, o abandonam. E junto dele estará, de pé, a sua mãe, estará diante da hora de seu Filho, chagado, cheio de dores, humilhado, desprezado, de quem se desviava o olhar, tamanha era a repugnância do que estava acontecendo.

Mas, são dias de vitória. Ela é antecipada já na Quinta-feira santa: com a celebração da ceia pascal, cumprindo um preceito judaico, o Mestre de Nazaré, revoluciona o sacrifício. Agora, há não mais o sangue de animais, mas o sangue do Filho de Deus feito homem. É Jesus o sacrifício, e nesse ato, partindo e dando a comer o pão que é o seu Corpo, e dando a beber o vinho que é seu Sangue, Jesus inaugura a economia sacramental. Sim, ela significa que não há mais barreiras entre Deus e a humanidade. Na Eucaristia celebrada por Ele e no mandato de que os seus seguidores fizessem o mesmo gesto em sua memória, está presente a união indissolúvel entre Criador e criatura. Sim, devemos respeitar que existe uma dessemelhança entre Deus e o homem, existe sim uma infinita diferença qualitativa entre a Transcendência divina e a imanência humana. Mas, desde que a Igreja celebra a Eucaristia, pode-se afirmar que existe, por causa de Deus mesmo, uma semelhança que se expressa na relação de Pai e filhos, por causa do Filho. Filhos no Filho, eis o que Deus vê em cada um de nós.

Na Sexta-feira santa, a maior prova de amor pelos homens e mulheres é dada na história do universo. A morte de Jesus na Cruz não é a condenação da parte de Deus. Nem podemos afirmar que nele, no Pobre de Nazaré, Deus descarregou a ira que era para ser jogada em nós. Deus não tem ira pelas suas pobres criaturas, marcadas pela ignomínia do pecado. Ele detesta o pecado, ama o pecador. Deus é o “Antimal”, Aquele que não descansa enquanto não destruir o mal que faz sofrer os seus filhos. No chão frio do sepulcro, o corpo sem vida do Filho de Deus, Filho de Maria, jaz em união com todos os corpos que sofrem por causa do pecado. No silêncio do Sábado Santo, a Igreja fecha seus olhos, enlutada pela perda do seu Senhor, na espera do cumprimento de sua Palavra: “coragem, eu venci o mundo”.

Ao reviver esses dias santos, a Igreja não se torna plateia de um espetáculo. Ela re-vive, isto é, desses dias recebe renovação, conversão, sustento para aprender com o Mestre. Sim, os nossos pecados provocaram tamanho gesto de solidariedade. Nesses dias nos é revelada a verdadeira face de Deus: Ele é por nós. Jesus morre na Cruz não porque estava submetido às leis da natureza: ele nasceu, cresceu e morreu. Mas, porque determinou-se a isso. Escolheu ser redenção da humanidade. E nessa escolha reside a nossa felicidade. Eis o significado da verdadeira vida: somos realizados por Ele, encontramos o sentido da vida, nele. É em Cristo, crucificado e ressuscitado que encontramos o caminho da revelação do que somos. Ele nos mostra o amor de Deus por cada um e chama a seguir a vida nesse mesmo amor.

E qual será a nossa resposta? Que a Semana santa, vivida por nós de um modo excepcional, pois não poderemos ir as nossas igrejas, teremos que participar assistindo nos canais das mídias sociais, seja um momento especial de mudança de vida. Basta de interferências nocivas à nossa fé cristã. Basta de seguir gurus que esvaziam o sentido revolucionário do amor de Jesus por nós: ele deu a vida por nós. E nós, poderemos dar a vida por Ele, ou seja, pelos irmãos e irmãs que vivem, na carne, a paixão de Cristo?

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