Voz do Pastor › 12/02/2021

Tempo da Quaresma: conversão e fraternidade

Prezados leitores/as,

Na próxima quarta-feira, dia 17, tem início o Tempo da Quaresma. Este Tempo litúrgico se inicia com a Celebração das Cinzas, lembrando a todos que “somos pó e ao pó devemos retornar”, mas também recorda o apelo, atual e necessário para todos, de conversão, de mudança e, especialmente, de renovação de nossa vida, de nossa adesão ao Evangelho e de missão na Igreja e no mundo.

Durante a Quaresma a Igreja nos exortará à conversão. Tal palavra é fundamental para entendermos a pregação de Jesus. Conversão é a tradução da palavra grega “metanoia”, que significa mudança de mentalidade, de rota, seguir o caminho com clareza, com determinação, mas sempre no sentido de um encontro pessoal com a Jesus. Não no sentido de seguir ideias, nem muito menos de um conjunto de obrigações ou deveres, mas no sentido de seguimento a uma Pessoa, o Filho de Deus feito Homem. Não me converto para ideologias nefastas ou realidades abstratas. A conversão me coloca no caminho do Senhor.

Nessa mesma linha, a Igreja propõe para nós o jejum, a esmola e a oração. Sobre o jejum podemos nos perguntar: jejuamos para ter uma qualidade de vida, para curar-nos da obesidade? Não se trata de ter uma forma física ideal, um corpo modelado; para isso não precisamos da Igreja para reconhecer a necessidade de cuidados com o corpo e sua saúde. Na verdade, o jejum quaresmal é para outra realidade, tem em vista o “metabolismo espiritual”, ou seja, toca a fé no profundo do nosso coração. A pergunta fundamental é: o jejum que fazemos agrada a Deus? O nosso jejum está levando-nos ao compromisso com Jesus e seu Evangelho? E mais: jejuamos para sermos mais fraternos e solidários?

A Quaresma é tempo de viver a fé que age por meio da caridade, conforme nos ensina São Paulo (cf. Gl 5,6). Já no Antigo Testamento se observa o sentido do jejum: “Acaso o jejum que ei prefiro não será isto: soltar as cadeias injustas, desamarrar as cordas do jugo; deixar livres os oprimidos, acabar com toda espécie de imposição? Não será repartir tua comida com quem tem fome? Hospedar na tua casa os pobres sem destino? Vestir uma roupa naquele que encontras nu e jamais tentar te esconder do pobre teu irmão?” (Is 58,6-7). Semelhantes palavras usou Jesus, não no contexto do jejum, mas no quadro do juízo final: “Todas as vezes que fizestes isso (dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, acolher o forasteiro, vestir o nu, cuidar do doente, visitar os presos) a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).  Viver a fé agindo por meio da caridade significa agir com misericórdia, buscando a fraternidade, em primeiro lugar. Pelas preciosas indicações do livro do profeta Isaías, como também do Evangelho segundo São Mateus fica claro que o que agrada a Deus é um coração piedoso, generoso e fraterno, e tudo o que fizermos de bom pelos outros, estamos fazendo ao próprio Jesus. Nesse sentido, não devemos ter medo de nenhuma injusta caracterização que venhamos a receber porque fazemos o bem. Se porventura vier tal característica, ela se aplica, em primeiro lugar, ao próprio Jesus. Ele amou tanto os homens e as mulheres que sua vida foi entregue em expiação. Sim, pelo perdão dos pecados, a Redenção nos salva. Mas, a Salvação trazida por Jesus não é somente algo que diz respeito ao que virá, ao fica lá pelas últimas realidades. Ela significa, já agora, transformação de nossa vida em Cristo. Ele nos salva, não somente “de alguma coisa”, mas salva “para alguma coisa”, neste caso, nos salva para vivermos na intimidade divina, no amor incondicional ao Deus Criador e Pai de Jesus Cristo e Pai nosso, amor que se concretiza e se expressa no amor ao próximo. Por isso, Quaresma e fraternidade têm tudo a ver.

 

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