Voz do Pastor › 19/06/2020

Um Coração para amar

Prezados leitores/as

Hoje, sexta-feira após o 2º domingo depois de Pentecostes, a Igreja celebra a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Nesta solenidade, a Igreja quer conscientizar-nos de que é preciso conduzir a vida cristã ao essencial, centrar nossa vida e nossa fé no núcleo essencial do cristianismo.

Em primeiro lugar, quando dizemos “Sagrado Coração de Jesus” não estamos simplesmente prestando culto a um simples órgão biológico do homem Jesus de Nazaré. Coração é uma palavra que traz um simbolismo muito forte e indica a realidade do amor. Os amantes sabem o significado de “coração”. Às vezes até chamam a pessoa amada assim. “Coração” é considerada uma “proto-palavra”: significa “palavra que transmite totalidade à pessoa que escuta, palavra que se recebe como presente de Deus, palavra que nasce do coração, que venera e adora o mistério que nos domina, palavra que nos faz sábios, porque faz ressoar todas as coisas em uma” (Karl Rahner). “Coração… significa o centro original para tudo o mais, o centro mais íntimo da pessoa humana, no qual toda a essência concreta do homem, se resume, se concentra e permanece como amarrada centralmente e atada, e que aparece generalizada e transbordante na alma, no corpo e no espírito” (H. Conrad-Martius).

Mas, quando falamos do Coração de Jesus, e mais precisamente, Sagrado Coração de Jesus, estamos falando do próprio Senhor Jesus. Coração de Jesus está a indicar a realidade mesma da Encarnação: o Filho de Deus, eterno como o Pai, assume a natureza humana e, com isso, na realidade temporal, tem um coração. Assim, celebrar o Sagrado Coração de Jesus é celebrar esse Mistério da Encarnação que, unido ao Mistério da Trindade de Pessoas, é a revelação de que Deus se aproxima da sua criatura para manifestar seu amor e fazer entrar dentro da relação de amor divino, a criatura, o homem e a mulher. Pela Encarnação, então, a Igreja e a humanidade recebem a revelação de que Deus é amor, revelação que se completa com o outro Mistério de nossa fé: a presença ou a inabitação do Espírito Santo no fiel. Daí porque, reconhecendo que Deus é Amor (cf. 1Jo 4,8), a Escritura aponta para nós o essencial do Cristianismo. E quando presta culto ao Coração de Jesus, a Igreja celebra esse amor vivo e atuante na vida dos seguidores de Jesus. Vivo, porque por toda a eternidade a Humanidade do Filho de Deus será sempre o centro da mediação, sem o qual não há possível acesso a Deus.

O Coração de Jesus lembra a todos nós de onde nasceu a Igreja, de onde nasceu o discipulado e onde está o fundamento da missão. Podemos meditar sobre as palavras de Jesus: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29), cujo significado abre os horizontes para ver na humanidade do Filho de Deus e na virtude da humildade a força do discipulado. Mas, também nosso olhar se volta para a Cruz: “um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água” (Jo 19,34), sempre interpretados como sinais do Batismo e da Eucaristia, como também do nascimento da Igreja, e ainda na comparação com a criação de Eva do lado aberto de Adão (cf. Gn 2,21s). A Igreja que nasce da fonte do amor humano do Filho de Deus, expressão do amor divino, presente em Deus.

Celebrar o Sagrado Coração de Jesus é louvar e adorar esse mistério que nos envolve, se aproxima e assume nossa realidade. Nele encontramos o fundamento para a nossa fé e nossa missão, como também a revelação do que somos. “Quem pode negar que nesta palavra (coração) encontramos a nós mesmos, encontramos o nosso destino e o modo próprio da existência cristã, que nos é imposto como peso e graça ao mesmo tempo, e designado como nossa missão?” (Karl Rahner).

Que o nosso canto, louvando o “Coração santo” de Nosso Senhor Jesus Cristo, faça-nos assumir que não dá para mirar e seguir esse Coração sagrado senão através do amor. Pois, Ele revela que nós, também, temos um coração para amar.

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