Voz do Pastor › 24/07/2020

Viver a fé neste tempo difícil

Prezados leitores/as

Estamos vivendo um tempo difícil, angustiante, tempo que nos emociona e entristece. A pandemia nos fez ver a nossa fragilidade, debilidade e também a necessidade e urgência de investimento, cuidado e determinação dos governantes quanto ao direito de todos à saúde, direito fundamental. É parte integrante da Doutrina Social da Igreja a apresentação da saúde como diretos do homem, e o seu cuidado e respeito como exigência do bem comum (cf. PONTIFICO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 166).

Mas, dessa fragilidade e debilidade todos participam. Nenhum ator social pode se considerar fora ou isento disso. Os cristãos e cristãs, crentes em Cristo, sabem dessa participação, pois faz parte da doutrina da Igreja, iluminada pelas Sagradas Escrituras, a consideração sobre o pecado original, doutrina que explica a condição humana diante de Deus. Nenhum ser humano pode se apresentar como perfeito, como super-homem, mas em caminho, rumo à perfeição, que não é nenhum estágio que torna o homem “onipotente”, mas participante da graça da vida divina. E, ainda mais, redimido por Cristo, o cristão é consciente de trazer em seu coração, para que seja também anunciada, a mensagem de vitória da Cruz de Cristo, que faz de todos os crentes, homens e mulheres solidários com a condição humana.

A Doutrina Social da Igreja aponta caminhos ou princípios, em que exorta a todos a pautarem a sua vida por meio de um humanismo integral e solidário, amparado pelos princípios da dignidade da pessoa humana, do respeito ao bem comum, da destinação universal dos bens, dos princípios de subsidiariedade, de participação e da solidariedade. Nunca podemos abandonar esses princípios, pois eles apontam para a imitação de Cristo, para a vida segundo o Espírito. Quem quiser viver a fé em Cristo não pode deixar de concretizar essa fé na caridade, como afirmam São Paulo e São Tiago em suas cartas.

Esse é o grande ensinamento que o Papa Francisco nos apresenta. Ao mesmo tempo, é uma grande mensagem para “ressignificação” de todo o agir cristão. Uma ressignificação necessária, especialmente se, como cristãos e cristãos, nos damos conta de que também nos deixamos levar pela onda de consumismo, se não nos libertamos das garras de um ativismo opressor, que nos impede de dar valor às pequenas coisas, de cuidar do nosso interior, de valorizar o encontro, o diálogo amadurecido e respeitoso, de uma visão integral da pessoa, livres de qualquer preconceito ou prejuízo, do prazer mais amplo da contemplação da obra de Deus, da satisfação de colaborar em sua obra, no respeito e cuidado da Casa Comum, criada por Deus para ser nossa casa e para que, por meio dela, possamos louvar o Criador de todas as coisas.

Recentemente, numa reflexão publicada no site do Vaticano, a Pontifícia Academia para a Vida, apresentou uma nota em que chamava a atenção de todos para que não deixemos de refletir sobre esse tempo e estejamos abertos para que o nosso agir cristão seja pautado pelo exemplo de Cristo, pois, “as lições de fragilidade, finitude e vulnerabilidade nos conduzem às portas de uma nova visão: promovem um ethos de vida que requer um empenho da inteligência e a coragem de uma conversão moral. Aprender uma lição significa fazer-se humildes, significa mudar, buscando meios ou recursos até agora não desfrutados, talvez até nem reconhecidos. Aprender uma lição significa tornar-se consciente, mais uma vez, da bondade da vida que se oferece a nós, liberando uma energia que corre também na profundidade da experiencia da perda, que deve ser elaborada e integrada no significado da nossa existência” (PONTIFÍCIA ACADEMIA PARA A VIDA. A Humana Communitas na era da pandemia. Vaticano, 22 de julho de 2020).

Não deixemos de seguir essas orientações. Procuremos ver como é necessário que o nosso agir esteja conduzido por uma visão que nos ajude a viver a responsabilidade pela família humana, por meio da solidariedade e de um ethos que nos assemelhe ao Deus de Jesus Cristo, amigo da vida!

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