Artigos › 04/02/2021

Mídias Sociais e Cancelamento Social

A sociedade atual vive formas variadas de configurações. São muitas as novidades que, graças aos meios de comunicação, surgem no dia a dia. É muita informação e pouco tempo para buscarmos sabedoria. As pessoas estão paranoicas. As mídias pertencem as pessoas. Essas últimas, em muitos casos, tornaram-se objetos das primeiras. É muita gente viciada nas mídias sociais. Nas escolas, igrejas, refeições, encontros, trabalho, traições virtuais etc. As pessoas estão a comunicar-se com todos; mas não aprofundam relações com ninguém. Com a pandemia, a própria evangelização poderá estar sujeita às armadilhas que levarão a missão à mais profunda superficialidade. Já estão patentes os magos da evangelização pelas mídias sociais, traindo assim a necessidade do reconhecimento do Outro pelo nome e pela face.

Ainda não parei para aprofundar; mas já tomei ciência que está surgindo a categoria “cancelamento social”. Trata-se da negação do outro, ou seu anulamento das possibilidades das relações sociais e institucionais. É interessante constatar que é mais um estilo de violência do Outro, do semelhante. É um darwinismo social, que assume proporções antropológicas profundamente virulentas. As pessoas estão a brincar com a expressão, sem ter o alcance do seu significado pervertido para as relações sociais. Isso é o reconhecimento linguístico do que é descartar as outras pessoas, sem nenhuma inquietação da consciência. Aqui está em jogo um problema do como as pessoas estão a formular seus valores na relação com o próximo. É um problema ético e moral a ser estudado.

O Papa Francisco, com seu realismo evangélico e pastoral, descreve como as mídias sociais contribuem para esse cancelamento, mesmo sem usar esta terminologia. Afirma o Pontífice: “Os meios de comunicação (digitais) podem expor ao risco da dependência, isolamento e perda progressiva de contato com a realidade concreta, dificultando o desenvolvimento de relações interpessoais autênticas (FT, 43)”. Mais adiante, continua o Prelado: “Ao mesmo tempo que defendem o próprio isolamento consumista e acomodado, as pessoas escolhem vincular-se de maneira constante e obsessiva. Isso favorece o efervescimento de formas insólitas de agressividade, com insultos, impropérios, difamação, afrontas verbais que chegam a destroçar a figura do outro, em um desregramento tal que, se existisse no contato pessoal, acabaríamos todos por nos destruir mutuamente. A agressividade social encontra um espaço de ampliação incomparável nos dispositivos móveis e nos computadores” (Idem, 44).

É profético afirmar que necessitamos urgentemente disseminar uma “cultura do encontro” (Papa Francisco). Esse radicalismo homicida é desumanizante. A cura para essa pestilência é o Evangelho. Talvez outros reneguem essa via; contudo, foi ela que qualificou a cultura ocidental nesses mais de dois mil anos de história. Seja ateu, agnóstico, pelagiano ou de quaisquer outras tendências espiritualistas, isso não pode ser negado. A cultura do cancelamento é mais um rosto da morte de Deus dessa realidade, sem certezas e confusa. Ela perdeu seu horizonte vinculante. Tirou Deus, e o que colocou no lugar, é só uma semelhança de quem é a Verdade.

A minha reflexão é finalizada com a certeza de que precisamos debruçar-nos muito mais sobre essa questão. Tem algo a ser buscado, na tentativa de saber o que ficará do humano, depois dessa pandemia. Se permanecer o desejo alimentado de cancelar o outro com todas as armas possíveis, ainda mais com os meios digitais, aí sim, teremos muitas outras mortes simbólicas, nestas paragens caóticas do nosso amado país. Assim o seja!

Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo A. M. de Ligório
Natal-RN

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X